NEOMONOPOLISMO: Dos liberalismos ao neoliberalismo no Brasil e Chile.
Professor da Universidade de Caxias do Sul
Mestre em Ciência Política pela UFRGS
Doutorando em Ciência Política pela UFRGS
APRESENTAÇÃO
A relação de continuidade e diferenciação entre o
liberalismo e o neoliberalismo não tem sido uma questão muito levantada pelos
cientistas sociais. Fiori (1997) foi um dos que já fizeram diretamente essa
pergunta, mas a maioria tem abordado indiretamente tal relação. O quanto de
liberalismo que permanece no neoliberalismo, no nosso entendimento, não é uma
questão menor na medida em que as ciências sociais ainda estão devendo uma
melhor conceituação histórico/estrutural do capitalismo contemporâneo.
Nesse sentido, este trabalho pretende realizar um
estudo comparativo do Brasil e do Chile, não sem antes desenvolver uma
conceituação universal do liberalismo e neoliberalismo, para que seja possível
uma caracterização mais adequada da relação existente entre os processos
histórico/estruturais (globais) de desenvolvimento do capitalismo e os modelos
políticos e ideológicos de relacionamento Estado-Mercado (mais conhecidos como
de ordem política-econômica).
Nossas
hipóteses são: (a) o termo neoliberalismo serve, num nível mais geral,
como caracterização ideológica de um determinado conjunto de intenções e propostas para o ajuste estrutural, e não como conceito universal para a
caracterização do processo histórico/estrutural do capitalismo. E, num nível
mais prático político, (b) o neoliberalismo, serve para a caracterização de um
modelo ideológico - mais conjuntural - no que concerne às políticas econômicas
e sociais.
Antes de iniciarmos a primeira parte (discussão sobre
o liberalismo e neoliberalismo) e a segunda (estudo comparativo do Brasil e
Chile), gostaríamos de definir alguns conceitos empregados anteriormente. Por
ajuste estrutural entendemos uma séria de medidas que afetam basicamente três
dimensões: (a) o Estado, é claro, na sua relação com o mercado
(desregulamentação financeira) e a sociedade (gastos públicos e sociais); (b)
os níveis de concentração/disperção de capital e poder ; e (c) os níveis dos indicadores
sociais (pobreza, desenvolvimento humano. Por processo histórico/estrutural
entendemos o desenvolvimento do capitalismo, especialmente da revolução
científico-tecnológica (Santos 1987), da revolução informacional (Castells,
1999), mas, especialmente, o processo de concentração e centralização do
capital nas mãos das corporações multinacionais, que receberam um fôlego maior
a partir da crise do Estado interventor
na década de 70.
PRIMEIRA PARTE
Neomonopolismo: dos liberalismos ao neoliberalismo no
capitalismo contemporâneo.
No
verbete liberalismo do “Dicionário de Política” organizado por Norberto
Bobbio (1995), verbete escrito por Nicola Matteucci, o liberalismo não é
associado a nenhuma definição ecumênica, nem substantiva nem adjetiva, porque
foi, desde o século XVII, um fenômeno teórico e prático muito diverso, tendo
gerado impactos em todas as áreas sociais e regiões da terra.
“Ainda hoje a palavra liberal assume diferentes
conotações conforme os diversos países: em alguns países (Inglaterra,
Alemanha), indica um posicionamento de centro, capaz de mediar conservadorismo
e progressismo, em outros (Estados Unidos), um radicalismo de esquerda defensor
agressivo de velhas e novas liberdades civis, em outros, ainda (Itália), indica
os que procuram manter a livre iniciativa econômica e a propriedade
particular.” (Matteucci, 1995, 688).
Umas
das principais características do liberalismo, então, é a contaminação que as
experiências históricas concretas geraram nas noções teóricas: (a) na
Inglaterra, onde a sociedade veio se libertando desde o século XVII da
estrutura corporativista, o indivíduo se apresenta inserido na sociedade, e este
espaço de liberdade individual é visto como contrapondo ao Governo, considerado
mal necessário (Matteucci, 1995); (b) no caso da França, apela-se para o Estado
como liberdador da soberania individual (Revolução Francesa), sem nenhum
intermediário entre o povo e o soberano (Estado); (c) e no caso da Alemanha, o
liberalismo, segundo Matteucci (1995), apresenta uma visão orgânica do Estado
por causa da sociedade civil estruturada em classes pré-capitalistas.
Porém, um outro tipo de diferenciação existente no
liberalismo e que acompanha a evolução concreta descrita acima, e que, na nossa
opinião, é mais importante para a relação liberalismo/neoliberalismo, dá-se
pela forma como historicamente o liberalismo respondeu as três perguntas feitas
pelo desenvolvimento do capitalismo: (a) como preencher a relação
custo/benefício (pólos da racionalidade instrumental) em termos do processo
produtivo/distributivo/reprodutivo; (b)
como encadear a relação Estado-Mercado, com a definição de atribuições e
competências; (c) como projetar um desenvolvimento que possa garantir, ao mesmo
tempo, valorização e equilíbrio social.
Na
verdade, o liberalismo pode ser dividido em dois grandes grupos, ambos oriundos
tanto das disputas teóricas jusnaturalistas (acerca dos direitos naturais dos
indivíduos e do contrato social) como, também, da evolução política e econômica
dos países europeus. Uma corrente, a
mais conservadora, parte de Locke[1],
passa por Adam Smith, J. Bentham, James Mill, do iluminismo Francês (a exceção
de Rousseau) e, com certeza, desdobra-se no século XX nas obras de Mises, Hayek
e Friedman. É baseada numa visão mais egoista do individualismo e de menos
política/Estado e mais mercado: a grande tese desta corrente é a já
imortalizada metáfora da mão invisível do mercado. Os liberais primitivos, de
uma forma geral, idealizaram as relações de mercado entre os pequenos
empresários, particularmente na histórica do liberalismo na Inglaterra,
reforçando a meritocracia de cidadãos autoconfiantes e responsáveis pela tal
“mão-invisível” (Bellamy, 1994). A outra corrente, do liberalismo ético,
oriunda do pensamento de Rousseau, Kant, Constant, dos pluralistas e dos
defensores do liberalismo social moderno, aceita uma função mais ativa do
Estado tanto para o processo de equilíbrio social como para o bom funcionamento
do mercado.
O grupo mais conservador apontou, para a resposta da
primeira questão, os salários, o Estado, a política, os entes coletivos, os
sindicatos, os analfabetos, os desqualificados, os pobres, etc., como os
principais custos a serem minimizados; e, o lucro, a competição, o
individualismo egoísta, como os principais benefícios a serem alcançados, tudo
em nome da liberdade. Não podemos negar que na obra desses liberais, mesmo de
Hayek, por exemplo, há uma preocupação com o equilíbrio social, ainda que os
pobres e desqualificados (perdedores em geral) tenham que ser re-incorporados
apenas por um Estado mínimo, assistencialista, a partir de políticas sociais
compensatórias. Já o grupo mais progressista, além de concordar com o
equilíbrio social, aponta medidas totalmente diferentes para a equação racional na medida em que vê nos interesses
particulares e egoístas os principais custos a serem minimizados e,
consequentemente, as falhas do mercado (controlado por tais interesses) e,
quanto aos benefícios, aponta o bem comum, o democracia, o desenvolvimento
social, etc. Nesse sentido, como era de se esperar, essa corrente não coloca o
Estado, e todos os entes coletivos, no rol dos principais custos a serem
minimizados.
Quanto
a segunda pergunta do capitalismo, a da relação Estado-Mercado, os dois grupos
vão também, em geral, apresentar respostas e propostas diferentes, mesmo que
ambas partam da liberdade e do individualismo. O grupo mais conservador, mais
economicista, vai ver no mercado (o entrechoque das ações privadas individuais)
o lugar por excelência do equilíbrio social e da produção e conquista dos bens
necessários a sobrevivência individual e social. Não é nenhuma novidade, como
afirma Fiori (1997) que os liberais (antigos e modernos) advoguem a causa do
mercado. A equação proposta é a seguinte: o mercado como principal alocador dos
recursos e o Estado como ente re-equilibrador. Estes liberais escamoteiam, na
prática, dois desdobramentos dessa visão ideológica, desdobramentos produzidos
pela dinâmica concreta do capitalismo: (a) o Estado tem sido fundamental para o
processo de acumulação de capital e de sobrevivência do mercado (Boron, 1999;
Fiori, 1996)[2]; (b) e os
grandes grupos acabaram se transformando em corporações multinacionais, e,
juntamente com três ou quatro governos dos países centrais, desde o início do
século XX, têm feito do mercado algo extremanente monopolizado e oligopolizado,
numa situação muito longe da descrita idealmente pelos (neo) liberais (antigos
e novos).
A evolução do capitalismo, desde a primeira revolução
industrial até a revolução informacional, tem sido muito mal interpretada pelos
liberais mais conservadores, e a sua viculação com um determinada classe social
(proprietários dos meios de produção) nem pode ser apontada como efeito
deformante porque o liberalismo, como ideologia da burguesia, não está
associado mecanicamente ao desenvolvimento do processo
produtivo/distributivo/reprodutivo das pequenas empresas às grandes corporações
multinacionais. Muito pelo contrário, muitos intelectuais responsáveis pelo
liberalismo conservador defendiam os pequenos produtores, até idealizavam as
relações econômicas de mercado patrocinadas por eles (Bellamy, 1994).
A
resposta dos liberais mais progressistas a tal relação, ao contrário,
especialmente dos liberais sociais, patrocinadores também da construção do
Estado de Bem Estar Social (Europa) da engenharia social (EUA) e do Estado
Desenvolvimentista (Terceiro Mundo), vê no Estado um instrumento de
desenvolvimento social e econômico, ente através do qual, a sociedade pode
qualificar e requalificar os trabalhadores, marginalizados, etc. De alguma
forma, mesmo que as corporações multinacionais também tenham apostado num
Estado mais intervencionista nas décadas posteriores a segunda guerra, o Estado
Social coloca a política num nível de igualdade em relação à dimensão econômica
na medida em que muitas decisões econômicas são planejadas e executadas
politicamente, ou seja, dentro das esferas estatais (mais abertas aos
trabalhadores do que a estrutura das grandes empresas). Nesse sentido, o
custo social (termo liberal/conservador) passa a ser o investimento social
(termo liberal/progressista).
A terceira pergunta: do tipo de projeto de
desenvolvimento do capitalismo que possa garantir uma lucratividade maior e uma
certa integração social, promoveu no liberalismo uma igual disparidade de
respostas, sendo que, com apontou Laski (1973) o capitalismo e o liberalismo,
independentemente dos grupos, não sobreviveram harmoniosamente a esta pergunta
no século XX, fazendo com que o liberalismo, de uma forma geral, tenha
sobrevivido a partir de uma transformação muito grande. Mas, já nos primórdios
do liberalismo, podemos encontrar duas formas de responder esta questão. Uma
resposta pode ser reconstruída a partir da visão conservadora que procurou
desobrigar, historicamente, o capital de uma tributação maior e,
consequentemente, procurou jogar nas costas dos trabalhadores os custos do
Estado e de muitos projetos das empresas particulares. Desde Adam Smith, dos
fisiocratas, dos liberais primitivos, a política econômica tem sido vista como
um tipo de relação do Estado com o mercado no sentido de favorecer tanto os
interesses militares e protecionistas, das empresas capitalistas locais, como
um meio de captação de recursos extras que possam ser investidos no próprio
processo privado de acumulação de capital (tecnologia, urbanização,
qualificação, etc). Desde Louis XIV, que tinha enormes preocupações com o
sustento do seu exército, até o poderio militar dos Estados Unidos, bem como
das Companhias das Índias e das grandes empresas multinacionais, o Estado
moderno tem sido visto - e a engenharia institucional liberal tem cumprido
razoavelmente bem o seu papel - como agente de desenvolvimento social, mas,
especialmente para esta corrente, como agente de desenvolvimento da acumulação
de poder e capital a partir de medidas monetárias e de importação/exportação de
capital e mercadorias. A outra corrente, apesar de reconhecer também um papel
fundamental ao Estado no processo de acumulação de capital, lutou para que o
desenvolvimento social fosse mais equilibrado e redistributivo. Podemos apontar
nesse sentido, além das medidas propriamente econômicas, como a política
substituição das exportações na América Latina, o próprio crescimento da esfera
política de representatividade e de participação.
Em síntese, reconhecendo as simplificações
inevitáveis, podemos afirmar que o legado do liberalismo está associado a essas
respostas (a evolução resumida pode ser vista no Quadro 1), tanto do ponto de
vista teórico como do ponto de vista das instituições liberais.
Quadro 1 – Tipos de liberalismo e perguntas do
capitalismo.
|
Tipo de liberalismo |
Relação custo/benefício |
Relação Estado/Mercado |
Projeto de Desenvolvimento |
|
Conservador |
Custos: entes coletivos (Estado), salários, monopólios públicos, engenharia e planejamento social. Benefícios: lucro, crescimento econômico (“bolo”). |
Mercadocêntrica. Mercado como principal alocador, Estado como auxiliar do mercado. |
Minimalista e concentrador: mercado elitizado, corporações multinacionais como carro-chefe. Divisão internacional do trabalho do tipo imperialista. Princípio da monopolização |
|
Progressista |
Custos: egoísmo, lucro indiscriminado, monopólios privados. Benefícios: bem comum, equilíbrio social, desenvolvimento humano. |
Estadocêntrica. Estado como fator de desenvolvimento e acumulação. Mercado como dimensão apenas da economia. |
Social e desenvolvimentista. Mercado amplo, pleno-emprego, etc. Divisão internacional do trabalho mais equilibrada. Princípio do equilíbrio social. |
Em termos concretos, mesmo que histórica e
teoricamente o liberalismo tenha criado instituições diferenciadas,
especialmente em relação às suas atribuições,
Wallerstein (1995, 1996, 1999) arrola três elementos institucionais do
liberalismo que, de alguma forma, são a essência do sistema-mundo[3]
moderno (capitalista): (a) o Estado-Nação e a soberania nacional como
controlador e limite, respectivamente, do processo sócio-econômico moderno; (b)
uma distribuição moderada da renda global no sentido do fortalecimento da
qualidade de vida dos trabalhadores; (c) uma crescente participação política no
sentido da incorporação dos trabalhadores aos processos de tomada de decisão
existentes na esfera pública; mesmo assim, ele foi responsável pelas
instituições capitalistas no século XIX. Apesar de uma conotação mais perversa
(excludente), o conservadorismo, depois
de ter sido cooptado pelo liberalismo - tendo-se transformado, então, no
liberalismo conservador[4]
- também reconheceu, de alguma forma, estas instituições. Nesse sentido, o neoliberalismo,
como versão moderna deste liberalismo, tem como fator original uma maior grau
de perversidade (excludente) que já existia na versão anterior do
conservadorismo. Hirschman (1992), por exemplo, mostra como, desde o século
XVIII, cada evolução da cidadania liberal (civil, política e social) sofreu com
os ataques das visões reacionárias (muitas delas igualmente liberais) no
sentido da restrição ou até regressão dos direitos civis, políticos e sociais
da maioria da população. Os neoliberais não fazem mais do que extrapolar os
limites do extermínio social patrocinado pelo desenvolvimento do capitalismo.
As noções de Hayek, Mises e Friedman,
mesmo que reconheçam a necessidade do equilíbrio social e de funções para o
Estado, já são mais extremistas em relação à validade do planejamento e dos
entes coletivos: só admitindo o ente mercado como promotor e regulador
dos processos econômico e social[5]. O neoliberalismo, então, surge[6]
como uma visão ideológica bastante descolada da prática econômica efetiva:
concentração, monopolização, oligopolização, etc., e, portanto, com um grau de
cinismo muito grande. Já os liberais mais éticos e democratas, refugiaram-se no
seio da social-democracia e buscam a manutenção ao refinamento do Estado de Bem
Estar Social, da engenharia social e do desenvolvimentismo.
Estas
reflexões históricas acerca da evolução do liberalismo até o neoliberalismo,
estarão incompletas se não apresentarem um desdobramento concreto,
especialmente se estamos preocupados com a caracterização das experiências
atuais das políticas social e econômica. Em primeiro lugar, uma segunda geração
de neoliberais, os economistas responsáveis pelos planos econômicos de ajuste
estrutural[7],
vêem a equação monetarista de equilíbrio da oferta e da demanda das unidades de
moeda (nem oferta/demanda de mais, nem
de menos, apenas o fundamental para a manutenção do equilíbrio da moeda[8]),
como o centro do debate político. Toda a problemática econômica e social do
Estado, especialmente as preocupações com os empregos, com a oferta de dinheiro
na mercado e com os direitos sociais, parecem ser deixadas de lado por tal
equação monetarista. Só o que importa é o equilíbrio fiscal e não mais o
social. Nesse sentido, cresce em importância para a caracterização do modelo
ideológico neoliberal (sua visão de mundo) a centralização do fenômeno
financeiro da reforma do Estado, particularmente no que concerne às medidas de
captação de capitais estrangeiros (para
a valorização das moedas nacionais) a partir de uma desregulamentação
total dos fluxos de capitais (na sua maior parte especulativos/voláteis) e de
uma reforma fiscal para a capitação nacional de recursos a serem subsidiados às
corporações multinacionais (via privatizações ou impostos regressivos e
indiretos).
Em
segundo lugar, as próprias gerações de neoliberais foram tornando-se mais
mercadocêntricas, a ponto de uma total marginalização do Estado como agente
regulador do mercado, bem como de benefícios sociais; contra até as visões de
Adam Smith, Hayek e Milton Friedman[9].
A tese mais extrema do neoliberalismo, filtrada do liberalismo conservador mas
indo muito além deste, é a seguinte: “mercado (internacional e
desregulamentado) como único alocador eficiente dos recursos”. Aliás, como bem
afirmou Boron (1999), o principal êxito do neoliberalismo foi ter transformado
algumas teses em senso comum: até mesmo uma tese minimalista como está figurou
na “fala” de muitas pessoas e grupos que dependiam diretamente do Estado e dos
mercados protegidos[10].
A destruição da capacidade intervencionista do
Estado, seja através de Bancos Centrais, como de instituições de crédito e
planejamento econômico-social, em benefício do controle quase que absoluto dos
projetos de desenvolvimento dos países pelas corporações multinacionais, tanto
dos centrais como dos periféricos (Castells, 1999), é um dos principais
desdobramentos do modelo ideológico neoliberal, que apesar de não ser o único
responsável por este processo, pois a ele agregam-se o desenvolvimento
científico-técnico (revolução informacional), destruição dos movimentos de
esquerda e da crise dos Estados reguladores, tem um papel fundamental no tipo
de desenvolvimento do capitalismo tardio.
O modelo neoliberal, então, pode ser resumido à
dimensão ideológica porque ele não consegue caracterizar ao mesmo tempo o
discurso extremamente cínico e perverso de extermínio social pregado em nome da
competitividade, crescimento, modernidade, globalização, etc., bem como o brutal
processo de concentração de capital e poder nas mãos de poucos agentes
econômicos. Como desdobramentos concretos desse processo histórico/estrutural
nós temos o crescimento das fusões e incorporações (neomonopolismo), e a
retomada moderna do processo de exclusão social, a partir do aumento ou
qualificação crônica da pobreza, analfabetismo, etc., ou seja, dos indicadores
de desenvolvimento sociais.
O neoliberalismo, portanto, é uma revolução
ideológica que a muito tempo não era vista. A importância do mascaramento do
neomonopolismo e exclusão social era de tal peso que, por exemplo, Sorman
(1983), quando descreve a revolução conservadora dos Estados Unidos do final
dos anos 70 e início dos anos 80, aponta a luta que os conservadores americanos
desenvolveram nos meios de comunicação, já que eles, inclusive Sorman,
entendiam que os principais veículos de comunicação eram liberais, no sentido
dado por Matteucci (1995): radicais defensores da engenharia social e dos
direitos civis, inclusive das minorias étnicas, religiosas, sexuais, etc.
O Estado, como já pode ser visto, é o principal alvo
dos ataques ideológicos neoliberais, não porque ele tenha sido um verdadeiro
instrumento de equalização social, mas porque ele não deixou de representar um
tipo de planejamento que não colocava apenas o lucro das corporações
multinacionais como o único benefício. Muito a contragosto das elites
internacionais, os Estados-Nação, particularmente os sociais e
desenvolvimentistas, colocavam, de alguma forma, os investimentos sociais como
rubricas fundamentais nos planos de desenvolvimento.
O conteúdo cínico do neoliberalismo está na
manutenção disto em “segredo”. Mas o pior não é o cinismo, mas sim a
perversidade, pois muitos neoliberais, os das últimas gerações, muitos economistas
que só vêem os custos sociais como fator de baixo crescimento e
competitividade, já aceitam o extermínio social em nome do equilíbrio das
contas públicas e do crescimento da acumulação das corporações multinacionais
(Calcagño, Calcagño, 1994).
Tanto
isso é verdade, que Fiori (1997) e os autores arrolados na última coletânea Pós-neoliberalismo
(1999), apontaram as reversões dessa ideologia para uma versão mais social do
liberalismo. Na prática, mesmo que sem uma autocrítica, muitos neoliberais
temerosos de perderem o espaço político conquistado a duras penas, não pela
força dos adversários mas por causa dos custos sociais muito elevados das suas
propostas, que por um longo período no mundo e na América latina tiveram ainda
sim um apoio popular e eleitoral significativo, passaram a defender uma
intervenção mais ativa do Estado, até no mercado. Isso estaria fazendo com que
o neoliberalismo esteja passando para outras duas versões: (a) uma mais social-liberal:
quando o Estado acaba assumindo um papel de grande planejador do
desenvolvimento, tendo especialmente um função ativa no controle da moeda
(através do Banco Central), bem como dos tipos e volumes de importações e
exportações, além do controle dos investimentos estrangeiros e de políticas
sociais sérias (gastos sociais); (b) e outra liberal social, em que o Estado
volta com certas atribuições, especialmente reguladoras, pois o mercado
(diga-se de passagem, corporações multinacionais) continuam dando as cartas do
processo de desenvolvimento do capitalismo[11].
O neomonopolismo, como fenômeno histórico/estrutural,
calcado no princípio da monopolização,
não depende, única e exclusivamente, da ideologia neoliberal, versão
mais perversa e extrema, porque pode conviver, com uma grande naturalidade, com
o social-liberalismo e o liberalismo social, até porque, como afirmou Castells
(1999), os Estados não representam mais a síntese da sociedade e o principal
instrumento de poder político (agora nas mãos das corporações multinacionais).
Em termos das variáveis de análise, podemos destacar
três: (a) reforma do estado em termos da reforma fiscal e financeira, do volume
dos gastos públicos e dos sociais destro deste, (b) níveis de concentrações,
fusões e aquisições, e (c) índices sociais de empobrecimento, e marginalização.
Esses três indicadores permitem, juntamente com uma análise dos discursos e
alianças políticas, uma caracterização geral do contexto atual, bem como uma
articulação com o processo mais geral de neomonopolização.
SEGUNDA PARTE
De volta para o Estado: do neoliberalismo ao social-liberalismo ou
liberalismo social.
Os fatos repetidos tendem a ser
um sinal de tragédia, como observou Marx (parafraseando uma observação de
Hegel), e no caso específico da América Latina, a aplicação do receituário
neoliberal tem um forte conteúdo de perversidade e cinismo, porque, tanto para
o Chile como para o Brasil, as medidas que foram efetivamente implementadas
apontam para uma situação de extermínio social muito forte e degradação do
aparato estatal (que já não era muito sofisticado), apesar do discurso da
qualidade, competitividade, bem como do crescimento, equilíbrio, etc.,
proferido pelos “ajustadores” e seus simpatizantes (Calgagno e Calgagno, 1995).
O Chile é conhecido como uma das primeiras
experiências de ajuste neoliberal, não só da América Latina, mas do ocidente
(Anderson, 1995), o que não impede, entretanto, que ainda pairem algumas
dúvidas sobre esta experiência: se totalmente neoliberal desde 1973; se
parcialmente neoliberal desde o mesmo período; se neoliberal até a metade de
80, etc.
A desnecessária implementação drástica de um choque
econômico no Chile nos anos 90 deve-se, com certeza, às décadas de
experimentação neoliberal. Como Calcagño e Calcagño (1994) apontaram, o caso do
Chile não pode ser visto como neoliberal de 1974 até a metade da década de 90.
O Chile, quando a situação apertou, na famosa e internacional crise econômica
do início dos anos 80, teve de apelar para uma reversão das medidas
neoliberais. Este país não tinha a desculpa de culpar o Estado
Desenvolvimentista e a esquerda intervencionista pela crise, conseguiu por
causa da ditadura militar, mudar os rumos sem ter de dar maiores explicações.
Esse é o principal motivo que tem
levado certos cientistas sociais a não apontarem o Chile como exemplo puro de
neoliberalismo, e o que permite, do nosso lado, lançar uma hipótese: o Chile,
na metade da década de 80 troca o modelo ideológico e político neoliberal, com
os seus desdobramentos econômicos e sociais, por um modelo mais social-liberal
(que aceita uma maior intervenção do Estado).
No caso do Brasil, um dos últimos países a
embarcarem no navio (Titanic) das reformas (ideológicas) estruturais (Soares,
1999), também encontramos um processo
generalizado de rotulação neoliberal para as administrações de Collor e
Cardoso.
Nesta segunda parte, conforme
anunciamos na apresentação, pretendemos desenvolver uma comparação de casos[12]
existentes na América Latina, Chile e Brasil, com a experiência chilena como
parâmetro, porque entendemos que as diferenças e semelhanças entre esses dois
países são úteis para a compreensão da articulação entre os processos mais
históricos/estruturais (neomonopolismo), analisados na parte anterior, com os
processos mais conjunturais das últimas décadas.
Como comentou Boron (1999), o
principal êxito alcançado pelos grupos que são responsáveis pelos ajustes foi
terem transformado algumas de suas teses em senso comum. Mesmo com uma grande
letalidade (Oliveira, 1995), as tais pílulas amargas do receituário
neomonopolista para a América Latina encontraram um contexto político e
ideológico favorável para as vitórias significativas dos políticos defensores
dos ajustes nos anos 80 e 90. Calgagno e Calgagno (1995) arrolam 20 teses que
fizeram parte da ofensiva conservadora na América Latina, todas falaciosas e
com grupos específicos e bem delimitados como responsáveis (corporações
multinacionais, grandes empresários nacionais, políticos e intelectuais de
direita) e que versavam, dentre outras coisas, sobre a obsolescência do Estado
e da soberania nacional frente ao mercado globalizado e controlado pelas
corporações multinacionais.
Nesse
sentido, a nossa análise comparativa dos casos do Brasil e do Chile terá como
principal objetivo discutir os processos políticos e ideológicos relacionados
aquilo que tem sido identificado de neoliberalismo. Os fatores econômicos e
sociais não podem ser esquecidos, mas o centro será realmente ocupado pelas variáveis
política e ideológica. No que concerne às outras variáveis, serão apresentados
alguns dados sintéticos acerca dos ajustes e de certos desdobramentos
verificados. A principal variável é a (política) reforma do estado e os
indicadores serão as esferas da regulamentação financeira, os gastos públicos,
as privatizações. Quanto a variável social, apresentados alguns dados sobre os
gastos sociais e níveis de pobreza.
Nosso objetivo, então, será o de
tentar articular os casos específicos do Brasil e do Chile, seus desdobramentos
internos, ao processo histórico mais estrutural do neomonopolismo. Como análise
alternativa, apresentaremos uma discussão sobre a conceituação geral dos casos
desses países no sentido de uma (re)formatação de dois conceitos já existentes,
e que no nosso entendimento, caracterizam melhor as conjunturas médias dos dois
países: social-liberalismo e liberalismo-social.
1 - Reforma do Estado
Os níveis de perversidade
contidos na ideologia da reforma do Estado proposta pelos neoliberais para a
América Latina fazem com que, a tal “reforma”, seja, na prática, uma verdadeira
contra-reforma para a regressão dos direitos sociais e da competência do
Estado. Contra-reforma porque, historicamente, o termo reforma possui
uma conotação de ampliação dos direitos sociais, só que, como alertamos
anteriormente, os neoliberais foram muito exitosos em modificar o sentido deste
termo; conseguiram transformar em senso comum a noção de que o Estado
desenvolvimentista e o projeto de desenvolvimento chamando “substituição das
importações”, eram, ao contrário do que indicava os dados sociais, os
responsáveis pela crise econômica dos anos 80. E os estragos podem ser vistos
tanto no Chile como no Brasil, apesar de uma experiência concreta diferente.
A principal diferença entre o
Chile e o Brasil no que concerne à contra-reforma do Estado é que aquele país
implementou boa parte do receituário neoliberal lá na década de 70, enquanto o
Brasil, apenas em 1995 cria um Ministério para o planejamento da “reforma”.
Isso fez com que muitos analistas não reconheçam uma reforma do Estado
no Chile. Porém, três itens “cativos” no receituário neoliberal estiveram
presentes naquele país depois de 73: (a) demissão de funcionários públicos,
cerca de 100 mil só nos cinco primeiros anos de governo militar, fazendo com
que, atualmente, apenas 2,5% seja o percentual dos trabalhadores públicos em
relação ao total de trabalhadores no Chile. (b) Reforma fiscal, a partir de uma
restrição nos (c) gastos públicos de 15% a 25%. Se nos últimos quinze anos o
governo chileno vem aumentando os gastos públicos, fator apontado por Boron
(1999) como um dos itens da reforma neoliberal não compridos no Chile, não
podemos esconder que, antes disso, este país aplicou tais medidas.
Essa contradição na experiência
chilena, das “idas e vindas” da
contra-reforma do Estado, apontam para uma das nossas hipóteses: de que o caso
chileno evoluiu de uma experiência neoliberal, nos moldes da discussão da
primeira parte deste trabalho, para um modelo mais social-liberal, de resgate
do Estado no processo de desenvolvimento econômico e social.
O caso da reforma do Estado no
Brasil também sinaliza para uma situação diversa da proposta neoliberal de
contra-reforma. Como o Brasil só inicia verdadeiramente a reforma na metade da
década de 90, já estão presentes as influências internacionais de revisão do
neoliberalismo no sentido de uma maior valorização do Estado. O próprio
Ministro da Reforma do Estado do primeiro governo de Cardoso reconhece esta
reversão, Pereira (1996). E os indicadores concretos dessa nova fase dos
processos de reforma do Estado podem ser verificados na timidez do caso
brasileiro, que além de contar com fortes resistências dentro do bloco
governista (políticos clientelistas), já tem uma orientação teórica e política
mais flexível[13].
Das muitas dimensões da reforma
do Estado, vamos destacar apenas três: (a) privatizações, (b) reforma
financeira, fiscal e tributária e (c) os gastos públicos, como indicadores do
tipo de reforma existente nesses países.
1.1 Privatizações
Em 1974, no Chile, 202 empresas foram entregues aos
seus antigos donos e muitas outras foram privatizadas a partir de licitações
abertas para capitais nacionais e estrangeiros. De 1974 a 1981 o Chile passou
de 620 empresas públicas para 66. Segundo Larroulet (1994), num período de 5
anos (74/78), foram privatizadas cerca de 600 empresas[14].
Ainda na década de 80 e 90, mais precisamente durante os anos de 1985-94, as
principais privatizações foram: “de los
bancos y de las administradoras de fondos de pensiones que se encontraban
inter-venidos, de las empresas que indirectamente estaban controladas por el gobierno
(“área rara”) y la de las empresas estatales tradicionales” (Larroulet, 1994[15]).
Assim, no final da década de 90 pouco sobrou para ser privatizado - atualmente
estão sendo privatizados os portos.
Na década de 90, o Chile recebeu um montante de
apenas de 1 bilhão de dólares, enquanto que o Brasil recebeu 89,6 bilhões de
dólares, no mesmo período, porque aquele país fez parte da primeira onda de
privatizações e este, da segunda onda. Na década de 80, por exemplo, o
Brasil reprivatizou apenas 38 empresas
(revendeu empresas adquiridas da iniciativa privada), somando cerca de 780
milhões de dólares. O grande salto deste país foi dado em 1997, quando foram
arrecadados um total de 17 bilhões de dólares.
Por um lado, essas cifras mais do que compravam a
materialização das medidas ideológicas neoliberais nesses países. Quase todas
as áreas foram atingidas, quando não privatizadas, como concessões para a
exploração: telecomunicações, energia
elétrica (maiores áreas no total das privatizações no Brasil: energia elétrica
34% e telecomunicações 35%), combustíveis, agricultura e empresas de mineração,
transportes, correios, educação e saúde, etc. Entretanto, o efeito mais
importante para o neoliberalismo é que as empresas estrangeiras, em grande
parte as americanas e espanholas é que saíram como as mais beneficiadas[16]. Além disso, muitos setores trocaram os
monopólios públicos pelos privados. Nem vamos falar da corrupção relacionada às
privatizações brasileiras, corrupção que “ajuda” ainda mais os grandes
investidores nacionais e internacionais.
Por outro lado, o caso das privatizações também deve
ser visto com uma certa cautela, porque, no caso do Chile, algumas empresas
como a CODELCO (10% PIB chileno) empresa que explora o cobre, não só não foi
privatizada, como reverte para os cofres públicos 50% do total das exportações
chilenas, mantendo mais de 50% das exportações de cobre nas mãos do Estado. A
CODELCO, na verdade, teve algumas de suas atribuições privatizadas, como a
Petrobrás (Cepal, 1998), na medida em que apenas o cobre é “público”, pois os
outros minerais são explorados pelas empresas estrangeiras, mas não deixa de
ser um exemplo de heterodoxia neoliberal.
Um outro desdobramento das privatizações,
desdobramento dos aspectos políticos do processo, é que o Chile não construiu
um instrumento sofisticado de regulação das novas empresas privadas, e o
exemplo mais cabal dessa falha é a área de energia elétrica (Cepal, 1998). No
caso do Brasil, pelo menos no papel, estão sendo criadas agências públicas de
regulação das novas empresas privadas e das concessões.
Nesse sentido, tanto um quanto o
outro foram bastante radicais na implementação das medidas neoliberais,
favorecendo o crescimento do poder das empresas estrangeiras e o crescimento do
processo de concentração de capital e de monopolização (neomonopolismo). Mas,
não podemos negar, alguns fatores políticos, talvez a queda nos índices de
popularidade, bem como alguns fatores econômicos, como a manutenção de baixos
índices de crescimento e regressão nos níveis de produtividade, serviram como
um limite para a ação neoliberal, criando uma situação na qual o Estado ainda
detém certos nichos de poder. O caso do Chile ainda é melhor que o brasileiro,
porque nesse país a CODELCO, e outras empresas públicas, revertem muitos
recursos para os cofres públicos, ajudando a manter o Chile dentre os países
que mais gastam recursos públicos.
Entretanto, confirmando a
centralidade estratégica da ideologia no modelo neoliberal, devemos reconhecer
que a questão das privatizações tem um elemento chave, amplamente difundido no
senso comum e que traduz o deslocamento do significado em relação ao
significante: a transformação das empresas públicas que comumente funcionavam
de forma privada (de acordo com os interesses das grandes empresas, políticos
clientelistas, etc) em exemplos de incompetência como se isto fosse por causa
de uma causa pública, de proximidade com o Estado. Na verdade, o êxito do
neoliberalismo foi ter transformado uma má administração privatista das
empresas públicas em um algo apenas de responsabilidade do Estado,
planejamento, funcionários públicos, etc. Na prática, o que ocorreu com as
privatizações, especialmente no caso do Brasil, foi a simples modificação do
estatuto legal na medida em que as empresas privadas já vinham historicamente
agindo de acordo com os interesses privados. O que é significativo como
elemento do neomonopolismo, é que a acumulação de capital recente precisa ser
realizada a partir do controle direto das corporações multinacionais de todos
os ramos estratégicos para o desenvolvimento do capitalismo e não mais, apenas,
o benefício das políticas públicas privatistas. Na carona desse processo
histórico/estrutural, vendeu-se a imagem de que a administração gerencial e
racional dos custos e dos benefícios (desemprego, acúmulo de funções, super-exploração
da mão-de-obra) transformaria a má administração, burocratizada e paternalista,
das empresas públicas em lucros logo na arrancada dessa “nova” fase.
Infelizmente, os fatos não comprovam essas afirmações (desejos) neoliberais: os
lucros até podem ter aumentado pelos cortes de funcionários e subsídios
públicos, além é lógico da comprovação do sucateamento boicote de muitos administradores públicos,
pois vários serviços públicos pioraram, encareceram, sendo a tal contrapartida
de melhoras prometidas.
1.2 Reformas financeiras.
“Hoje, os estrangeiros têm a força para decidir quem
vai lançar papéis, quando, como e onde” (Roberto Costa, vice-presidente do
Banco Sul América numa entrevista à revista IstoÉ/Dinheiro, 26/01/2000)
Os processos de centralização e
de desnacionalização dos bancos no Brasil e Chile, são efeitos do
neomonopolismo, e pelo espaço que os bancos espanhóis[17]
estão conquistando, podemos dizer que há um novo processo de colonização, agora
financeiro. Do ponto de vista do poder do manejo macro-econômico de um país:
tipos de crédito para a produção industrial e agrícola; empréstimos para
aquisições e fusões, etc., os países da América Latina defrontam-se com uma
situação cada vez mais dura em termos da perda de capacidade interna e nacional
de controle do desenvolvimento do capitalismo.
A situação das demais áreas
financeiras - como o câmbio, os impostos, a moeda – revela abertamente a
fragilidade dos Estados-Nação frente à força dos investidores/especuladores
internacionais, até aí nenhuma novidade, e os adeptos do neoliberalismo aceitam
de bom grado essa dependência. O aspecto que gostaríamos de destacar no que
concerne ao papel desta área para a caracterização do modelo político e
ideológico neoliberal e as articulações existentes entre este modelo e o
neomonopolismo, é a combinação de riqueza/poder e miséria/fragilidade ao mesmo
tempo: riqueza centralizada e miséria difundida.
Porém, a “menina dos olhos” do neoliberalismo é o
monetarismo, ou seja, as reformas cambias e monetárias. A equação dos fluxos e
refluxos dos ativos circulantes e da sua indexação ao dolar é uma medida que
teve ampla difusão no Chile e Brasil. O Chile faz isso bem antes do Brasil,
pois na década de 70, depois do golpe, procura super-valorizar a sua moeda a
partir de uma elevação dos juros, captação de investimentos estrangeiros e
contenção fiscal (corte nos gastos públicos) no sentido de inverter o défice
primário[18] em
superávit. O problema social é que
essas medidas geraram um aumento do desemprego e queda na atividade produtiva,
mas, como já afirmamos em outras partes deste trabalho, o neomonopolismo não
precisa de um amplo mercado consumidor e nem de uma competitividade efetiva nos
principais ramos tecnológicos. A super-valorização das moedas nacionais, e a
contenção da sua oferta, deixou o Chile na década de 80 numa crise muito grande
e faz do Brasil em país refém dos investimentos estrangeiros que alimentam a
economia desse país porque a produção nacional e o seu mercado não conseguem mais.
Tanto isso é verdade, que um dos motivos para que o Brasil não sofra
mortalmente das crises especulativas internacionais é a estratégia de “fechar
os olhos” à sonegação e a economia informal (itens não discutidos nas reformas
tributárias), mecanismos que escondem mais de 50% da verdadeira riqueza do país
e que, em tempos “bicudos” como esse, amortecem as crises de emprego, salário e
crédito na medida que existe muita “gordura” a ser queimada pela
população.
O plano Real, desde o começo, do ponto de vista
fiscal e monetário, procurou mudar o regime existente, especialmente com o fim
da indexação. A inflação, na teoria uma espécie de peste negra mas, na
prática, uma tábua de salvação dos neoliberais - porque os lugares que
sofreram de processos hiper-inflacionários sucumbiram mais facilmente ao
receituário neoliberal - foi o principal motivo para as medidas para a
diminuição do défice primário do governo e redefinição dos gastos públicos. Só
que, do ponto de vista político, podemos verificar que o Imposto Provisório
sobre Movimentação Financeira – um imposto sobre os cheques para o
financiamento da saúde- e o Fundo Social de Emergência - 20% do orçamento que
ficavam liberados para o executivo gastar indiscriminadamente – , só para
ficarmos com alguns dos exemplos mais fortes, mostravam o conteúdo clientelista
e punitivo, para os trabalhadores, das intenções reformadoras neoliberais. Já
as outras reformas, tributária, por exemplo, estão atrasadas e o pouco que foi
desenvolvido serviu para um crescimento da acumulação privada. O maior problema
do Brasil é que ele detém um sistema tributário extremamente regressivo, e
alimentado basicamente pelos impostos indiretos (Cepal, 1998).
Quanto ao Chile, a ortodoxia neoliberal teve de
ceder terreno a uma volta ao poder do Estado em algumas áreas. Uma das medidas
anti-contra-reforma é a da regulação de parte do capital internacional que
precisa ficar retido em 30% no Banco Central e permanecer (o total) durante um
ano no país.
1.3 Gastos sociais[19]
Os gastos sociais são um bom
termômetro do tipo e intensidade dos
gastos público, que por sua vez, são sinais do nível de intervenção do Estado
(Boron, 1999). Por incrível que pareça, o Chile e Brasil não diminuiram
significativamente os gastos sociais nas últimas décadas. O Chile, teve uma
grande redução na década de 70, depois do golpe militar, mas não nas décadas de
80 e 90.
É claro que os países da OCDE e os tigres asiáticos
têm gastos públicos e sociais maiores, mas os dois países latino-americanos são
os primeiros na sua região, segundo os dados apresentados pela Cepal, ver
quadro abaixo.
Quadro 2. Gastos sociais em
relação ao PIB e aos Gastos públicos, Brasil e Chile – 1980-1996.
|
Chile |
Período |
Gasto social % PIB |
Gasto social % Gasto público |
|
80-81 |
16,9% |
n.d |
|
|
85-85 |
17,8% |
n.d |
|
|
90-91 |
13,8% |
58,1% |
|
|
94-96 |
14,4% |
61,8% |
|
|
Ano 96 |
23,3% |
61,8% |
|
|
Brasil |
80-81 |
9,7 % |
36,5% |
|
85-85 |
8,8% |
27,5% |
|
|
90-91 |
9,4% |
27,2% |
|
|
94-96 |
11,2% |
33,9% |
|
|
Ano 96 |
32,9% |
46,2% |
Fonte Cepal, 1997.
O Chile por ter tido um grande
gasto social básico nas décadas anteriores ao golpe militar, e por não ter
seguido a risca as recomendações neoliberais pode, atualmente, deter
indicadores sociais melhores que o Brasil, exemplo histórico de má utilização dos
recursos tanto em termos de qualidade como de distribuição.
O problema maior do Brasil,
agravado pelos governos neoliberais de Collor e Cardoso, é a utilização
clientelista e elitista dos gastos sociais, o Brasil tem um dos menores gastos
básicos dentre os tipos de gastos sociais. Isso acontece porque boa parte dos
recursos são investidos na saúde e educação das elites brasileiras e não na
educação e saúde dos trabalhadores do campo e da cidade e dos marginalizados.
Mesmo que os gastos sociais
tenham aumentado nos últimos anos, a concentração dos gastos nas zonas
metropolitanas do Brasil tem relegado a miséria e a pobreza a maioria da
população brasileira, que fica desamparada
e sem perspectivas de melhora.
Faz parte também da estratégia
neoliberal o sucateamento dos serviços básicos, como saúde, educação e
seguridade social, todos itens que, se bem empregados, diminuem as
desigualdades sociais e alavancam o desenvolvimento (Salama, 1999). Só que a
ideologia neoliberal não tem uma proposta de desenvolvimento social, o
neomonopolismo consegue reproduzir-se a partir de um mercado consumidor
restrito e altamente elitizado.
2 Pobreza[20]
No campeonato de desigualdade e pobreza, com
certeza, o Brasil também seria uma potência assim como é no futebol. O Chile
estava no mesmo caminho durante a sua fase neoliberal pura, até a metade dos
anos 80, mas acabou revertendo o processo de empobrecimento quando retomou os
investimentos sociais. Mesmo assim, o Chile detém um índice de pobreza no ano
de 1999, igual ao deixado pelo governo de Allende, 21,7% (Martinez, 1999).
O Chile está situado no grupo
dos países com índice de desenvolvimento alto, 0,844, e o Brasil, com um índice
de 0,739, está no grupo dos países com desenvolvimento médio. Este é mais um
sinal dos efeitos perversos dos modelos de desenvolvimento desses países.
A vantagem do Chile, e isso não
tem nada a ver com o neoliberalismo, é que ele mantém políticas sociais da
época do desenvolvimentismo. O problema é que, cada vez mais, a sanha
neoliberal procura corroer essas políticas (saúde, educação, seguridade social)
no sentido de torná-las rentáveis, para o processo de acumulação privada, e
clientelistas. Os fundos de pensão que têm ocupado o lugar do Estado na área da
seguridade social são uma mostra do processo de concentração neomonopolístaca
no Chile. Das 20 empresas de Fundos de Pensão, somente 8 sobreviveram em 1999.
(Cepal, 1999).
Quadro 3. Indicadores de
pobreza, Chile e Brasil, 1998.
|
|
IPH[21] |
Falta de renda |
Rural |
Urbana |
|
BRASIL |
15,8% |
29% |
46% |
25% |
|
CHILE |
4,8% |
20% |
26% |
19% |
Fonte: PNUD, 1999.
No caso do Brasil, a focalização
e o combate localizado e conjuntural (Soares, 1999) e a problemática do
financiamento das políticas sociais têm sido um verdadeiro drama para a
população brasileira. Como parte da estratégia neoliberal, os Estados e os Municípios
vêm recebendo mais atribuições sem a devida descentralização dos recursos: é
uma espécie de política do “livrar-se do problema”.
A junção desses indicadores do
modelo neoliberal: política fiscal, cobrar mais dos assalariados e dos
consumidores e incentivos fiscais abonos e subsídios para as grandes
empresas; financeiros, abertura para o
capital internacional e monetarização no tratamento da saúde da moeda;
privatizações, com o devido processo de monopolização privada de ramos
estratégicos; utilização clientelista e focalizada para os ricos dos gastos
sociais; aumento da pobreza e aprofundamento da desigualdade social; bem como o
crescimento do poder e capital das empresas estrangeiras, é um fenômeno por
demais perverso para a população latino-americana. Menos mal que essas medidas
não têm sido aplicadas com a mesma
fúria dos anos 70 e 80. Mas, não deixa de ser um processo histórico/estrutural
de pesados efeitos sociais e econômicos.
O crescimento da concentração é
o item que faltava para termos uma visão melhor do modelo. Vejamos.
3 Concentração
“A dificuldade cada vez maior do controle exercido
pelos governos sobre a economia (tendência vista com entusiasmo por alguns
economistas) é acentuada pela crescente transnacionalização da produção, não
apenas pelo impacto causado pelas empresas multinacionais, mas principalmente
pelas redes integradas de produção e comércio dessas empresas” (Castells, 1999,
289).
O neomonopolismo não é uma
simples concentração de capital, mas a concentração de capital nas mãos das
corporações multinacionais. O capital é centralizado pelas empresas que detêm
mais tecnologia, poder político e relações financeiras internacionais. No
Chile, por exemplo, no processo de privatizações, apenas algumas empresas, as
maiores, é óbvio, conseguiam empréstimos no exterior, fazendo com que a disputa
pela aquisição das empresas estatais fosse desigual. Consequentemente, depois
das privatizações, e por outros motivos também, várias áreas estratégicas para
o desenvolvimento econômico e social do Chile tornaram-se monopólios privados: eletricidade,
comunicações, combustíveis, construção, carne, leite, alimentos, cereais e
bebidas (Fazio, 1997).
Uma diferença concreta entre o
neoliberalismo e o velho liberalismo, seja ele conservador ou progressista, é
que antes o processo de concentração era combinado numa equação composta por
empresas e estados nacionais: a questão do livre-cambismo e do protecionismo
eram as temáticas da agenda deste período. A ideologia neoliberal procura
esconder que nas últimas décadas a equação da concentração e centralização do
capital tem sido a partir das empresas multinacionais e dos estados nacionais,
mais algumas agências multilaterais como o FMI e o Banco Mundial[22].
O sinal que o liberalismo não servia mais como conceito para a caracterização
dos processos histórico/estruturais acontece quando a combinação antiga é
substituída pela nova, mais no menos no início do século XX. Desde este período
tem sido comum uma separação ideológica entre o significado (liberalismo,
neoliberalismo) e o significante (neomonopolismo), efeito apontado pelos
pós-modernos.
“Esto sugiere que la concentración del patrimonio, y
por consiguiente de los ingresos quede él se derivan, es otro elemento que
desempeña un papel fundamental en relación com la regresividad de la
distribución del ingreso de los hogares, y juelga un papel central en su
reprodución” (Calcagno, 1999, 9)
A concentração, na verdade, não
esta relacionada apenas ao crescimento de capital das corporações, mas ao
aumento da pobreza, miséria e degradação social, também. Se tivéssemos que
destacar os dois principais efeitos do neomonopolismo - retomada da
centralização de capital na década de 70 a partir da desregulamentação do
Estado e da revolução informacional – teríamos que apontar a concentração de
capital e a degradação social: isso recheado pela razão cínica e perversa do
neoliberalismo. O quadro abaixo mostra, como o processo de desigualdade na
renda tem evoluído no Chile e no Brasil nas últimas décadas.
Quadro 4. Participação das
famílias na renda nacional, Chile e Brasil – 1979-1996.
|
|
25% mais pobres |
40% mais pobres |
10% mais ricos |
|
BRASIL |
|
|
|
|
1979 |
5,6 |
11,7 |
39,1 |
|
1990 |
4,7 |
10,3 |
41,8 |
|
1993 |
5,4 |
11,5 |
43,2 |
|
1996 |
4,9 |
10,5 |
44,3 |
|
CHILE |
|
|
|
|
1987 |
6,1 |
12,6 |
39,6 |
|
1996 |
6,5 |
13,4 |
39,4 |
Fonte Calcagno (1999).
De forma resumida, então,
podemos caracterizar os modelos ideológicos e políticos, de média duração, dos
casos brasileiro e chileno como:
social-liberal (Chile) e liberal social (Brasil). O Chile,
diferentemente do caso brasileiro, passou por uma experiência verdadeiramente
neoliberal no período 1974/1985, só que os efeitos negativos dessa experiência
patrocinaram uma reversão em benefício do resgate de alguns ingredientes
liberais progressitas a ortodoxia intransigente neoliberal. Já no cas do
Brasil, o neoliberalismo nasceu meio capenga não só pelo contexto internacional
desfavorável à ortodoxia neoliberal (metade da década de 90) mas também pelos
interesses patrominialistas encrostados na coalizão governamental, bem como no
âmago das elites nacionais. O Brasil não precisou que o neoliberalismo fosse
implementado para descuidar da questão social, para sucatear os serviços
públicos e privatizar as empresas estatais. A novidade do (neo) liberalismo no
Brasil é a regressão de algumas conquistas sociais, econômicas e políticas que
estavam em pleno crescimento no bojo do processo de redemocratização.
Um dos elementos singulares
desse processo na América Latina, é a defesa política do neoliberalismo por
grupos que não transitavam historicamente pelo liberalismo clássico: os
militares e os clientelistas, de um lado, e os intelectuais e partidos de
centro-esquerda, de outro lado. Não é novidade a falta de defensores do
liberalismo clássico nesse período, já que na história da América Latina foram
muito pouco os que combinaram o discurso com a prática liberal (especialmente a
prática). Porém, não deixa de ser um fenômeno significativo, não tanto pela
novidade, pois as nossas elites, de esquerda e direita, não chegam a ser
“farinha do mesmo saco” mas desenvolvem práticas políticas muito parecidas, a
questão de que na América Latina o processo político tenha sido alavancado
pelos políticos anti-liberais. E o caso do Presidente Cardoso e do seu partido
denominarem-se sociais democratas, não é causa da versão pouco mais progressista
do liberalismo do que a ortodoxia neoliberal, porque se dependesse desse grupo
(Malan, e os membros da ala monetarista do governo, todos do PSDB) eles levariam a racionalização instrumental
perversa a padrões mais sofisticados.
Na prática, os modelos liberais
da atualidade não detêm muito poder de barganha junto ao neomonopolismo,
fazendo com que os governos locais tenham que administrar as investidas das
corporações de uma forma política que não cause tantos traumas no senso comum
como causam no bolso da população.
CONCLUSÃO