Do
“Novo Sindicalismo” à “Concertação Social”
- Ascensão (e Crise) do Sindicalismo no Brasil
Giovanni Alves
E-mail: giovanni@marilia.unesp.br
Um
dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX é a
destruição do passado, ou melhor, a destruição dos mecanismos que vinculam
nossa experiência pessoal à das gerações passadas. É o que Hobsbawn em sua
obra “Era dos Extremos – o breve século XX” caracterizou como sendo uma
“presentificação” que dissolve a memória histórica. Diz ele: “Quase
todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem
qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.”
Na verdade, homens e mulheres sem consciência do passado, não podem construir
o futuro. Não seria isso o “fim da história”? Talvez por isso seja
importante realizarmos seminários onde possamos nos lembrar – e discutir –
o nosso passado público, resgatando a memória histórica., refletindo não
apenas sobre o passado distante, mas o passado recente, da nossa geração.
Mesmo para aqueles que viveram o Brasil dos últimos 20 anos, alguns
acontecimentos históricos, parecem distantes
e é urgente refletirmos sobre isso, pois, como diz o ditado latino,
aqueles que não compreendem o passado estão condenados a repeti-lo. Marx
complementaria: primeiro como tragédia, depois como farsa. Os últimos 20 anos
de história do Brasil parecem demonstrar isto – de 1978 a 1998, vivemos 10
anos de tragédia social, da “década
perdida”, da luta social e política de resistência à truculência do
bonapartismo militar e de construção das liberdades politicas e 10 anos de farsa
democrática, do estertor da “Nova República” e da nova prepotência
liberal, do consenso imposto pelas elites financeiras indiferente à
necessidades sociais.
Em
nossa exposição iremos privilegiar alguns elementos para refletirmos sobre os
eventos históricos que marcaram os últimos 20 anos no Brasil, de 1978 a 1998,
e que podem
caracterizar
a ascensão e crise do sindicalismo no Brasil. Essa é a nossa idéia
central: vivemos, nesse período, de 1978 a 1998, uma ascensão (e crise) do
sindicalismo como movimento social e político no país.
A trajetória do sindicalismo, nesse período, se insere num processo
histórico que se caracteriza pela crise do bonapartismo militar e pela passagem
(e consolidação) da nova república liberal. Ela se insere num cenário de
crise do padrão de industrialização substitutiva, que estruturou, nos últimos
30 anos, o processo de acumulação capitalista no Brasil moderno, e que dá
lugar, a partir de 1990, a uma inserção dependente da economia brasileira ao
capitalismo mundial.
A
data significativa é maio de 1978. É a partir daí que tivemos o ressurgimento
do movimento sindical no país, que iria se tornar a “ponta de lança” da
resistência operária à superexploração da força de trabalho, um dos
pilares do padrão de acumulação capitalista, instaurado pelo bonapartismo
militar a partir de 1964. É a partir do momento que a classe operária do
principal complexo industrial do país, o ABC paulista, se insurge contra o
arrocho salarial, ela atinge, de modo fulminante, a lógica da acumulação
capitalista vigente no país. As greves dos metalúrgicos do ABC paulista servirão
de referência política para a série de movimentos grevistas no Brasil daquela
época, envolvendo toda a classe trabalhadora. A partir de 1978, a classe operária
entra em cena – ou para ser mais preciso, a classe trabalhadora, pois o
movimento social atinge dos operários industriais à funcionários públicos.
Todos pertencem ao mundo do trabalho, ou a “classe-que-vive-do-trabalho”
(Ricardo Antunes). Exige-se democracia política e social, denuncia-se o
“modelo” de desenvolvimento capitalista no país, a superxploração da força
de trabalho, a imposição de “pacotes” econômicos que implementam,
principalmente a partir da “crise da dívida” em 1981, o receituário de
ajuste ortodoxo do FMI, a capitulação ao capitalismo financeiro internacional
que exige o pagamento da dívida externa.
A
partir de 1978, o cenário político e social é rico em experiências de
organização e luta da classe trabalhadora no Brasil, numa perspetiva de
unidade e luta contra o governo e contra os patrões. É uma luta salarial, de
caráter generalizante, que envolve uma série de categorias assalariadas.
Surgem uma série de fóruns intersindicais. A expressão política do novo
processo social, que se deflagra no maio de 1978 no ABC paulista, é a criação,
num primeiro momento, de uma nova esquerda – o PT, ao lado de outras organizações
políticas de esquerda e, mais tarde, em 1983, da CUT, ao lado de outras
articulações intersindicais, como o CONCLAT, que daria na CGTs. É possível
salientar ainda uma série de eventos de greves gerais e de greves por
categorias, e ainda greves por empresas, que atingem as mais diversas expressões
da classe trabalhadora e
uma série de manifestações que indicam, no decorrer dos anos 80, o
espirito de luta e resistência operária e popular, de um Brasil que clamava
por democracia política e social. Era uma “explosão do sindicalismo” (Leôncio
Martins Rodrigues), ou ainda, de um “novo sindicalismo”, que surgia e se
desenvolvia a partir de um mundo do trabalho estruturado, resultado da expansão
capitalista dos anos 60 e anos 70.
A
ascensão do sindicalismo, o despertar da “sociedade civil”, dos “novos
movimentos sociais”, se utilizarmos uma expressão tão cara na época,
caracterizam o ocaso do bonapartismo militar. O resultado político imediato,
num cenário de renascimento do movimento sindical e popular, é o “Movimento
das Diretas Já” – um processo político, que apesar da participação operária
e popular massiva, esteve sob a hegemonia de uma burguesia liberal insatisfeita
com os rumos da crise do padrão de acumulação capitalista no país. São
acontecimentos que caracterizaram um Brasil de esperança, que, entretanto,
inseria-se num cenário mundial nada promissor – a mundialização do capital
avançava nos países capitalistas centrais, impulsionada pela política
neoliberal. Nesses países, assistíamos a uma crise do sindicalismo e dos
partidos de esquerda. O Brasil, um pais capitalista importante na geopolitica do
Terceiro Mundo, nos anos 80,
estava por fora da nova ordem mundial capitalista instaurada pela
globalização. O que viria
a seguir, nos anos 90,
seria a grande sincronia histórica da ordem capitalista no Brasil com o
que ocorria lá fora, inserindo-se, de modo dependente (e subalterno) na
mundialização do capital sob o signo das políticas neoliberais. Foi essa a
função histórica dos governos neoliberais dos anos 90. É o novo tempo da era
neoliberal que iria dar um novo ritmo no movimento social e político no Brasil.
Instaurou, na verdade, uma descontinuidade importante. A “explosão do
sindicalismo” iria ser seguida, a partir dos anos 90, com maior intensidade,
de uma crise do sindicalismo que iria assumir diversas formas. O mundo do
trabalho estruturado (e integrado), das indústrias e dos serviços, base do
sindicalismo de classe organizado no país, que lutou (e construiu) o “novo
sindicalismo”, iria ser alvo de um ofensiva do capital na produção.
Surgiria, a partir daí, um novo (e precário) mundo do trabalho.
A
trajetória dos últimos 20 anos de sindicalismo no Brasil é, como salientaram
vários autores, de uma passagem, no plano da estratégia sindical, da
“confrontação à cooperação conflitiva” (Iram Jácome Rodrigues), ou
ainda, da luta de classes na produção para uma “convergência antagônica”
(Francisco de Oliveira), ou uma sindicalismo de “concertação social”, que
é, nada mais e nada menos que um defensivismo de novo tipo, de cariz
neocorporativo. Diríamos que tende a prevalecer cada vez mais, na pratica
sindical, principalmente hegemônica no interior da CUT um neocorporativismo
operário, que tende a debilitar a perspectiva de classe que caracterizou a luta
política e sindical nos anos 80.
Mas
a efervescência política e social dos anos 80 ocultou os primórdios de algo
que iria assumir novas proporções sob a era neoliberal - o desenvolvimento de
uma ofensiva do capital na produção.
É algo que os analistas sociais, principalmente de esquerda, tenderam a não
perceber, imersos que estavam, em sua “cegueira analítica”, numa leitura
meramente política do processo de luta de classes no país. Eles tenderam a não
ver o espaço da produção como um espaço privilegiado da luta de classes e
onde a burguesia instaurava as bases materiais para um novo consentimento operário.
Na verdade, ocorriam, mutações estruturais que produziam impactos relevantes
no mundo do trabalho, na própria base de organização sindical da classe operária.
O
que consideramos como sendo uma ofensiva do capital na produção atinge
categorias assalariadas importantes, tais como bancários e metalúrgicos, base
do sindicalismo organizado no país. A partir dos anos 90, ocorrem importantes
mudanças organizacionais e tecnológicas nas empresas, impulsionadas pela política
neoliberal de abertura comercial. É o que sugerimos, em nossa tese, como uma
passagem para um “toyostismo sistêmico”, cuja característica é promover a
debilitação da classe, não apenas em sua dimensão subjetiva, mas objetiva.
Por
um lado, a captura da subjetividade do trabalho através de uma luta ideológica
vigorosa, expressa nos investimentos em estratégias de manipulação do
consentimento operário, tais como os Programas de Qualidade Total, CCQ’s,
etc. Por outro lado, mais cruel ainda, a destruição do coletivo operário,
através da terceirização, da descentralização produtiva e do desemprego,
uma das maiores marca
das políticas neoliberais.
O
crescimento do desemprego estrutural num país como o Brasil nos anos 90 foi o
golpe de misericórdia num sindicalismo que apesar da sua vitalidade relativa na
década passada, era, estruturalmente débil, não apenas no aspecto organizativo,
como sempre observaram uma série de autores, mas principalmente aspecto político-ideológico,
em decorrência da pobreza política (e ideológica) dos “intelectuais orgânicos”
da classe trabalhadora, uma debilidade histórica que perpassa os comunistas dos
mais diferentes matizes a católicos (e trabalhistas) de esquerda.
Portanto,
é sob a nova república liberal, é diante da ofensiva do capital na produção,
que emergem as debilidades estruturais e históricas do sindicalismo no Brasil,
incapaz de ir além de suas limitações politicas, organizativas e estruturais.
Quando
dizemos estruturais, salientamos os limites intrínsecos à pratica sindical
“tout court”, da luta corporativa, diante de uma situação de avanço do
processo de reestruturação produtiva, principalmente numa sociedade
capitalista perversa, de um capitalismo dependente e subalterno, onde
a hegemonia burguesa ganhou profundas raízes no imaginário social e a
esquerda revolucionária sempre teve imensas dificuldades de uma inserção na
luta política, ideológica e cultural na sociedade, principalmente em virtude
de uma débil socialização da política.
1. Sindicalismo
no Brasil nos Anos 80: A Tragédia Economicista
A
explosão do sindicalismo no Brasil nos anos 80 indica, por outro lado, um
complexo de debilidades estruturais, políticas (e ideológicas) que tenderiam a
explicitar-se – e a assumir novas proporções – diante do surgimento de um
novo (e precário) mundo do trabalho. Por isso, o novo complexo de reestruturação
produtiva iria colocar, de modo claro, novas determinações para a crise do
sindicalismo no Brasil.
A)
O Crescimento da Estrutura Sindical: A Fertilização do
“Egoísmo de Fração”?
Apesar
da explosão do sindicalismo, a maioria dos analistas sociais tenderam a
salientar, como uma das principais fraquezas do sindicalismo brasileiro nos anos
80, a estrutura sindical corporativa. De certo modo, ela crescera, mas
permanecia com os “pés de barro”, incapaz de contrapor-se às novas provocações
do capital que surgiam com o novo (e precário) mundo do trabalho.
É
possível discernir algumas das principais características da estrutura
sindical no Brasil. Em primeiro lugar, ela é descentrada,
fragmentada e dispersa por uma miríade de sindicatos municipais, em sua maioria
pouco expressivos e com exígua capacidade de barganha[2].
A partir de 1988, a nova Constituição favoreceu tanto o aparecimento de novos
sindicatos quanto a fragmentação de categorias já organizadas, surgindo
inclusive alguns sindicatos por profissão (Oliveira, 1994:503)).
Em
segundo lugar, a estrutura sindical brasileira é descentralizada, com parcas iniciativas e formas de ação
unificadas (apesar da constituição das centrais sindicais a partir de 1983).
Em
terceiro lugar, ela é desenraizada,
em virtude de não ter inserção nos locais de trabalho, sendo uma estrutura
externa às empresas. Deste modo, segundo Almeida, “ela tem as limitações de um sindicalismo que, sendo de
massas, organiza um contingente minoritário dos assalariados e que está
assentado em uma estrutura organizativa em que o poder de comando é fragmentado
e centrífugo” (Almeida, 1996:130).
Finalmente,
é uma estrutura sindical verticalizada,
com imensas dificuldades de articular, numa perspectiva horizontal mais ampla, a
organização (e a resistência) da classe, permanecendo vinculada à categoria
assalariada. Sob o novo complexo de reestruturação produtiva, que tende a
promover a descentralização produtiva; com a nova (e radical) terceirização,
assumindo uma maior intensidade (e amplitude); o padrão de organização
vertical encontra sérias dificuldades para instaurar a nova resistência da
classe à ofensiva do capital na produção.
Por
outro lado, a vida sindical organizada no país ainda é uma experiência
compartilhada por um segmento minoritário da classe dos trabalhadores
assalariados no país. O Brasil possui uma taxa de densidade sindical modesta,
comparada aos países capitalistas centrais.[3]
Mesmo no decorrer dos anos 80, a “década dos trabalhadores”, ocorreu uma
pequena queda na densidade sindical no país. Tomando apenas a população
urbana, exclusive trabalhadores autônomos, de 1980 a 1985, por exemplo, segundo
dados do IBGE, a densidade sindical chegou a cair 0,6% (de 15,8 a 15,2 da PEA).
Por outro lado, se tomarmos em conta a população urbana e rural, exclusive a
região Norte, a densidade sindical aumentou 3,6% (de 21,9 a 25,5 da PEA), o que
demonstra que o grande salto na densidade sindical entre 1970 e 1988 deveu–se
essencialmente à expansão do associativismo rural.
É
claro que a densidade sindical é apenas um dos indicadores do poder sindical.
As características da estrutura sindical brasileira que contribuíram para a
visibilidade do poder sindical nos anos 80, e que precisam ser levadas em
consideração, foram, por exemplo, a capacidade de mobilização, os recursos
materiais disponíveis, as prerrogativas legais – tais como o monopólio de
representação e os trunfos políticos mobilizáveis, num cenário de
redemocratização política do país, tão mais importantes que o número de
associados (Almeida, 1996:13).
Entretanto,
o poder sindical nos anos 80 esteve prenhe de potenciais neocorporativos, que
iriam se desdobrar sob o novo complexo de reestruturação produtiva. A
estrutura sindical descentrada, descentralizada, desenraizada e principalmente
verticalizada, seria propicia à metamorfose do “egoísmo de fração” do
corporativismo estatal para um neocorporativismo setorial, em que categorias
assalariadas tenderiam a preservar a sua institucionalidade sindical no meio da
precariedade da classe. É no interior da inércia estrutural do corporativismo
de Estado inscrito na estrutura sindical brasileira, que se desenvolveriam as
estratégias sindicais de cariz neocorporativo, que procurariam, mais do que
transformar, adequar-se à estrutura sindical vigente, inclusive como estratégia
de sobrevivência política (principalmente sob o impulso diruptivo do novo
complexo de reestruturação produtiva).
B)
Surgimento (e Burocratização) da CUT
A
criação da Central Única dos Trabalhadores – CUT, em 1983, é o marco histórico
do sindicalismo brasileiro nos anos 80, sendo ela considerada hoje “a mais
poderosa em número de entidades a ela filiadas e em capacidade de organização
e mobilização dos trabalhadores” (Rodrigues, 1990a:39). Segundo Boito, o
surgimento da CUT, "uma das centrais mais duradouras e talvez com maior
capacidade de mobilização da história do sindicalismo brasileiro",
seria um dado significativo da ampliação e fortalecimento do sindicalismo nos
anos 80, cuja repercussão na cena política (e eleitoral), segundo ele, seria
dada pela criação e crescimento do Partido dos Trabalhadores (PT) (Boito,
1991).
Nessa
época, por outro lado, surgem as CGT’s, oriundas da CONCLAT, que adotaram, no
decorrer da década passada, posições políticas diversas da CUT. Mais tarde,
nos primórdios dos anos 90, sob a era neoliberal, surgiria a Força Sindical,
central sindical do “sindicalismo de resultados”. Diz Antunes: “A fundação
da Força Sindical (que contou com o apoio de cerca de trezentos sindicatos,
duas confederações e vinte federações), no início de 1991, caminha no
sentido de consolidar o projeto neoliberal do sindicalismo de resultados”
(Antunes, 1991:69).
É
nos anos 80 que se instaura, de modo pleno, o pluralismo sindical na cúpula
sindical no país. O que demonstra o acirramento da luta político-ideológica
na direção do movimento sindical no Brasil. Entretanto, é no interior da própria
CUT que ocorre o verdadeiro debate político-ideológico no sindicalismo
brasileiro, entre socialistas revolucionários e sociais-democratas (Antunes,
1991:83). O seu ponto decisivo ocorre no IV Concut, quando é discutido o modelo
organizativo da CUT e vence a proposta da CUT-organização e não da
CUT-movimento. Acelera–se, deste modo, o que alguns analistas indicam como
sendo a “burocratização” da CUT (Rodrigues, 1994). Na passagem para os
anos 90, sob o novo complexo de reestruturação produtiva, ele tende a se
acirrar, quando a tendência política majoritária da CUT, a Articulação
Sindical, de cariz social-democrata, passa a incorporar, segundo seus críticos,
valores neoliberais (Boito, 1996:80).
Entretanto,
mais do que a incorporação de valores neoliberais, a tendência majoritária
da CUT passa a adaptar-se à institucionalidade sindical vigente no país,
incorporando a sua inércia estrutural, que, sob o novo complexo de reestruturação
produtiva, tenderia a disseminar, como excreção ideológica, um novo tipo de
“egoísmo de fração”, ou seja, o neocorporativismo setorial.
C)
As Formas de Ser das Greves: Rumo às Práticas
Neocorporativas?
Observamos,
com maior amplitude e intensidade, nos anos 80, o que poderia ser denominado
explosão das greves nas mais diversas categorias assalariadas no país – dos
operários industriais aos trabalhadores de “classe média”, ou ainda dos
trabalhadores da administração pública direta e indireta (no decorrer da década
passada, segundo Boito, o Brasil foi uma "espécie de campeão em estatística
de greve"). Por exemplo, Noronha comprova, com vários dados estatísticos,
a difusão e amplitude das greves de trabalhadores ocorridas no país na última
década. Salienta ele:
Em
1978 foram deflagradas 118 greves, e dez anos depois elas passaram a somar 2
188. O número anual de grevistas aumentou sessenta vezes e, entre esses mesmos
anos, o número de jornadas não trabalhadas (o indicador síntese de greves)
pulou de 1,8 milhão para 132 milhões. (Noronha, 1991: 95)
Entretanto,
o que é decisivo na análise das greves é perceber não apenas seus dados
quantitativos, como é comum ocorrer nas análises sociológicas, mas sim a
alteração nas formas de ser das greves (o que refletiria, de certo modo, a mutação
das estratégias sindicais no país). Por exemplo, segundo Antunes, as greves
assumiram várias modalidades, ou ainda, formas de ser – greves por empresa,
greves gerais por categoria, greve geral, greves com ocupação de fábricas.
Entretanto, a tendência mais importante, refere-se ao aumento das “greves por
empresa” em oposição às “greves gerais por categoria”: “A partir de
1980 [afirma Antunes], aumentou o número de paralisações por empresas,
chegando a representar 75,5% do total das greves desencadeadas em 1984 e 60,8%
em 1985. (Antunes, 1991:17)
Para
Antunes, o aumento das “greves por empresas” no decorrer dos anos 80
indicava, no seio do movimento sindical brasileiro, o avanço da tendência do
“sindicalismo de resultados” (o “sindicalismo de resultados” assumiria
uma expressão política clara com a criação da Força Sindical, em 1991). Por
outro lado, no interior da própria CUT, sob a era neoliberal, desdobrar-se-ia
uma tendência similar, de cariz neocorporativo, com o sindicalismo de participação,
que privilegia estratégias propositivas; um novo sindicalismo, cada vez mais
defensivo, disposto a incluir, em sua pauta de resistência, a parceria com o
capital. Nos anos 90, sob o novo complexo de reestruturação produtiva,
tender-se-ia a privilegiar, cada vez mais, as “greves por empresas”,
demonstrando o predomínio – inclusive no interior do sindicalismo da CUT –
da política do “sindicalismo de resultados”.
O
que veio a ser denominado “sindicalismo de resultado” seria, naquela época,
contraposto a um “sindicalismo de confronto”. Enquanto o “sindicalismo de
resultado” utilizava como eixo reivindicatório a greve por empresa, o
sindicalismo de confronto privilegiava as greves gerais por categoria – nos
moldes das greves metalúrgicas do ABC, entre 1978 e 1980 – cuja principal
característica era o sindicato agir como representante “geral” do conjunto
dos trabalhadores e não apenas de suas bases associativas (Pizzorno,
1976:950–951).
Na
verdade, as greves nos anos 80 possuíam um claro sentido de resistência de
classe à perda hiperinflacionária, com o predomínio de práticas sindicais de
cariz “obreirista”, voltadas para demandas econômico-reivindicativas.
Adotava-se, no caso da CUT, uma estratégia de confrontação, caracterizada por
uma oposição sistemática às políticas governamentais e pela ênfase na
mobilização de massas e na ação grevista. De certo modo, o cenário
hiperinflacionário, de crise estrutural do Estado capitalista no Brasil, no
contexto de redemocratização política, contribuiu para o predomínio do
sindicalismo classista, de massas, de confronto, com as práticas “obreiristas”,
seja de cariz socialista ou social-democrata, ocupando maior espaço político
(o que veio, de fato, a caracterizar a CUT em seus primórdios).
Em
suas análises do sindicalismo dos anos 80, alguns autores elaboraram críticas
ao “sindicalismo de confronto”, chegando a salientar que, após uma década
de explosão de greves, a situação da classe trabalhadora não mudara: “...a
explosividade das greves dos anos 80 [considera Oliveira] não trouxe alterações
substantivas na distribuição de renda entre os assalariados, ainda que tenha
evitado maiores perdas para os trabalhadores” (Oliveira, 1993:509).
Para
Almeida, o sindicalismo de confronto “revelou suas limitações como um
instrumento capaz de assegurar melhorias duradouras para os assalariados
representados pelos sindicatos” (Almeida, 1996:32). Ou ainda, diriam Mattoso e
Oliveira:
O
aumento da mobilização sindical não se traduziu na superação da prática
reativa–reivindicativa que certamente constitui um traço definidor da ação
sindical em qualquer país, mas que no nosso caso passou a ser o único ponto de
referência da ação sindical, indicando a ausência de definições no plano
estratégico (Mattoso e Oliveira, 1990:119).
Os
autores salientam também que a despeito “da maior capacidade de pressão dos
trabalhadores, as ações no curto prazo nem sempre resultaram em conquistas:
basta observar os resultados da década” (idem, ibidem)
Entretanto,
o que tais autores não perceberam é que poderia ter sido pior. O verdadeiro
valor político (e moral) das lutas sindicais dos anos 80, na perspectiva
classista, consistiu em constituir, pelo menos em seu nível mais elementar, a
consciência necessária de classe (e não um mero reconhecimento da
legitimidade do papel social dos sindicatos). A busca de uma consciência necessária
de classe pelos setores sindicais mais avançados da CUT e do PT, teve o seu ápice
– e resultado político – em 1989, com o apoio massivo dado à candidatura
de Luis Inácio “Lula” da Silva, da “Frente Brasil Popular”, à Presidência
da República (Lula, que perdeu a eleição para o candidato neoliberal Collor
de Mello, obteve, no 2º turno das eleições, 31.076.364 votos, ou seja, 37,86%
dos votos válidos). Portanto, a “explosividade das greves”, “as ações
de curto prazo”, “as práticas reativo–reivindicativas”, na perspectiva
da consciência de classe, não se pode considerar que tenham sido em vão.
O
amplo reconhecimento social do sindicalismo nos anos 80 decorreu de sua prática
insubmissa e de confronto. Num cenário de uma economia hiperinflacionária, o
sindicalismo da CUT tornou–se, na verdade, o principal baluarte de defesa
imediata contra as perdas do padrão de vida dos trabalhadores assalariados no
país. Foi cultivando a postura reativo–reivindicativa, intransigente e
insubmissa, que conquistaram, contra a manipulação da mídia dominante, um
espaço na opinião pública (é por isso que numa pesquisa da revista
“Veja” de julho de 1988, os sindicatos, apesar das dificuldades da
conjuntura, eram uma das instituições que mais desfrutavam da confiança da
população brasileira) (Mattoso e Oliveira, 1990).
A
derrota da candidatura apoiada pelo “novo sindicalismo”, nas eleições
presidenciais de 1989, significou, em última instância, a derrota do
sindicalismo classista, de massas, e de confronto – e, por conseguinte, a
derrota política da prática sindical “obreirista” – seja ela de cariz
social-democrata ou socialista. É o seu revés político que contribuirá para
impulsionar, sob a era neoliberal, uma nova ofensiva do capital na produção.
Sob o novo complexo de reestruturação produtiva, num cenário de desemprego de
massa e recessão da economia brasileira, imposta pela política neoliberal,
tornar-se-iam claros os limites estruturais da prática sindical de confronto,
de cariz classista. Como uma débil resposta política à crise do sindicalismo
classista, de massas e de confronto, diante do novo “bloco histórico”
instaurado pela era neoliberal (do qual é parte importante o novo complexo de
reestruturação produtiva), desenvolvem–se as estratégias sindicais
propositivas, de cariz neocorporativo. Elas surgem como uma verdadeira capitulação
política – e ideológica – do trabalho diante da nova ofensiva do capital
na produção.
D)
Fortalecimento (ou a tentativa de consolidação) das
O
que veio a ser denominado “novo sindicalismo”, nos anos 80, caracterizou-se
por uma nova prática sindical, de organização da base, da construção da
intervenção operária no locais de trabalho, considerada uma das principais
debilidades do sindicalismo brasileiro. Jácome Rodrigues, ao tratar do
sindicalismo nos anos 80, observou a "presença significativa" na vida
nacional da organização dos empregados nos locais de trabalho, com a denominação
de comissões de fábrica, comissões de empresa, conselho de representantes dos
funcionários, comissões de garagem, etc. (Jácome Rodrigues, 1990).
Mas
o desenvolvimento das novas organizações de base era, de certo modo, uma
necessidade posta pelo complexo de reestruturação produtiva. A partir do
desenvolvimento do processo de reestruturação produtiva nos anos 80 tornou-se
claro, para as lideranças operárias das indústrias de ponta no país – tais
como a indústria automobilística – que o campo da produção era um espaço
decisivo da luta de classes, com o capital procurando criar (e desenvolver)
novos tipos de controle do trabalho. Seria, portanto, onde o processo de
reestruturação produtiva despontava com mais vigor, apesar de seu caráter
incipiente (e seletivo), que tendiam a tomar impulso, a partir dos anos 80, as
experiências de organização nos locais de trabalho.
O
surgimento das novas organizações de base vinculavam-se, no entanto, a uma prática
sindical de novo tipo, classista, de cariz socialista, que predominava na CUT
dos anos 80. Por isso, a bandeira das comissões de fábrica tornava-se estratégica
para as mais diversas correntes político-ideológicas do movimento sindical da
CUT, que atuavam nas grandes indústrias. Seria nos pólos operários mais
organizados, tais como os metalúrgicos de São Paulo e São Bernardo, que
tendeu a tomar corpo um acirrado debate político sobre a função das comissões
de fábrica – o dilema político,
naquele época, era participação ou controle? (Castro, 1988). Por um lado,
correntes socialistas, que possuíam expressão política no novo sindicalismo,
colocavam a necessidade do controle da produção pela classe operária,
reconhecendo o campo da produção como um espaço da luta de classes. Por outro
lado, parcelas do novo sindicalismo, de cariz social-democrata, salientavam a
necessidade de apenas intervir – ou participar – num controle da produção
sob a hegemonia capitalista. Este debate político seria traduzido, mais tarde,
na discussão sobre a prática sindical a ser adotada diante do novo complexo de
reestruturação produtiva e que demarcaria as linhas político-ideológicas
entre setores socialistas revolucionário e social-democrata no interior da CUT.
Foram
as novas organizações de base, sediadas principalmente no pólo industrial do
ABC paulista, que permitiram, ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo,
ensaiar novas estratégias grevistas que utilizavam os potenciais de controle
operário postos pelo complexo de reestruturação produtiva (é o caso, por
exemplo, da Operação Vaca Brava, posta com a greve metalúrgica em 1985) (Zilbovicius,
M et alii, 1986).
Entretanto,
apesar da explosão do sindicalismo nos anos 80, a estrutura sindical no país
ainda preservava, por diversos motivos, a fragilidade no plano organizativo.
Continuavam a predominar os “sindicatos de porta de fábricas”, ou seja, sem
qualquer acesso aos locais de trabalho e contando tão–somente com as
campanhas salariais, os serviços assistenciais e as homologações para atrair
os trabalhadores que pretendem representar (Oliveira, 1991:504).
E)
Ampliação dos Espaços de Negociação Coletiva:
Uma
das características do sindicalismo brasileiro nos anos 80 é ter ampliado os
espaços de negociação coletiva. Numa perspectiva otimista, Barelli ressaltou
que os anos 80 “historiam como o sindicato passa a ser interlocutor dos
demais setores da sociedade, influindo cada vez mais nas decisões. (Barelli,
1990: 12).
A
ampliação dos espaços de negociação coletiva seria perceptível
principalmente nos pólos mais desenvolvidos do sindicalismo, tais como o dos
metalúrgicos do ABC. Surgiram, portanto, o que vários autores salientaram como
sendo “novas relações de trabalho”, caracterizadas pelos novos espaços de
negociação entre capital e trabalho. O próprio reconhecimento de comissões
de fábrica, por exemplo, apontava para um novo tipo de relacionamento entre
capital e trabalho, caracterizado, apesar disso, no decorrer da década passada,
pelo antagonismo latente (e insubmisso) diante das estratégias do capital (algo
que é qualitativamente diverso de uma “convergência antagônica”, como
parece ocorrer na década seguinte).
Na
verdade, o surgimento de “novas relações de trabalho” foi resultado da prática
sindical classista de confronto, de massas, pois, na medida em que se
desenvolvia o processo de reestruturação produtiva, era interesse do próprio
capital criar um novo tipo de relação de trabalho de cariz cooperativo,
adequado às novas exigências das tecnologias microeletrônicas, como demonstra
o Programa intitulado “Trabalho Participativo”, implementado pela Ford, em São
Bernardo, em 1986 (Silva, 1990).
Portanto,
as “novas relações de trabalho” não eram um fato perene, como alguns
autores da sociologia do trabalho parecem analisar, mas sim um aspecto contraditório
da luta de classes no país, possuindo, portanto, um sentido ambivalente, ou –
diríamos melhor – contraditório: por um lado, representava uma conquista
operária, capaz de dar suporte à consciência de classe; por outro,
representava uma nova estratégia do capital, ciente do poder integrador da
negociação coletiva e da necessidade de uma classe operária participativa,
tal como exigiam os novos paradigmas industriais vigentes no mundo capitalista
desenvolvido.
F)
As mudanças (e a conservação) da estrutura corporativista de
É
nos anos 80 que ocorre um progressivo afrouxamento do controle governamental
sobre a vida interna dos sindicatos. A Constituição de 1988 garantiu a
autonomia sindical, embora tenha mantido sua unicidade. Na verdade, a mudança
(e conservação) da estrutura sindical corporativista no país é mais um fato
contraditório da luta de classes, não possuindo portanto um caráter perene,
um significado único, tal como parece sugerir uma série de analistas sociais
(inclusive de esquerda). A estrutura sindical que surge após 1988 é algo
ambivalente – dependendo da correlação da luta de classes, ela serviu para o
controle ou para a consolidação do poder sindical. É por isso que, no período
de redemocratização política do país, a manutenção da estrutura
corporativista no país não impediu a “explosão do sindicalismo” nos anos
80 (Frederico, 1993).
As
diversas análises sobre o sindicalismo brasileiro nos anos 80, procuraram
salientar que um dos principais limites do sindicalismo brasileiro seria, por
exemplo, a permanência da estrutura sindical corporativa, oriunda da Era
Vargas. Foi sobre ela que se detiveram as várias análises do sindicalismo,
salientando sua modificação (e conservação).
Por
exemplo, Boito considerava que o principal limite do sindicalismo no Brasil era
a permanência da estrutura sindical corporativa de Estado. Ele observava que,
apesar deste "indubitável fortalecimento e ampliação do movimento
sindical" no país, não poderíamos considerar tal quadro sindical como
sendo uma ruptura com o "passado populista do sindicalismo
brasileiro" (o que para Boito seria o verdadeiro limite do sindicalismo
no Brasil). Divergindo da opinião de dirigentes sindicais de esquerda e da
grande maioria dos estudiosos (Maria Hermínia Tavares de Almeida, José Álvaro
Moisés, Francisco Weffort e Ricardo Maranhão), Boito defende que "o
populismo ainda está vivo e penetra, de maneira desigual, amplos setores do
movimento sindical brasileiro." Ele procurou demonstrar a persistência,
ao longo dos anos 80 e início dos anos 90, da velha estrutura sindical
corporativa implantada na década de 1930, “estrutura essa que foi e é o
aparelho organizativo próprio e adequado à prática sindical populista e à
ideologia populista que lhe corresponde” (Boito, 1991: 46).
Embora
o modo de funcionamento e o papel do organismo sindical oficial tivessem mudado
bastante na última década, com o "afrouxamento do controle
governamental sobre a vida interna dos sindicatos", Boito salienta que isso
não significa que estamos presenciando a crise profunda da estrutura sindical
(e de sua superação). E ainda afirma que:
A
estrutura sindical não conheceu nenhuma crise ao longo dos últimos anos, e que
as transformações pelas quais passou representam não a sua extinção, mas
sim a sua reforma, reforma que lhe permitiu sobreviver à crítica ideológica e
prática a que foi submetida desde os anos 70.(Boito, 1991: 49)
Finalmente,
Boito procura enfatizar que a estrutura sindical, mesmo reformada,
desempenhava um papel de "limitar e moderar a luta sindical dos
trabalhadores" (Boito, 1991).
A
ênfase de Boito recai sobre as determinações políticas para explicar o desenvolvimento
do sindicalismo no país, e a expressão dessas determinações, no caso do
sindicalismo, é a estrutura sindical, entendida por ele como o sistema de
relações que asseguram a subordinação dos sindicatos (oficiais) às cúpulas
do aparelho de Estado – do Executivo, do Judiciário ou do Legislativo. E
nesta estrutura sindical brasileira, reconhece
como elemento essencial "a necessidade de reconhecimento oficial-legal do
sindicato pelo Estado" (ou seja, a unicidade sindical, um dos elementos da
estrutura sindical brasileira que não mudou após a Constituição de 1988).
Só
que, após a Constituição de 1988, e sob a pressão do sindicalismo na década
passada, a estrutura sindical corporativa passou por uma série de modificações.
Desapareceu a tutela do Estado sobre os sindicatos, apesar de ser preservada a
unicidade sindical. É por isso que Leôncio Martins Rodrigues, ao contrário de
Boito, observava que presenciávamos, na verdade, “o início da crise,
aparentemente irreversível, do modelo corporativo de organização sindical e
de relação das classes entre si e delas com o poder estatal” (Rodrigues,
1990a:22).
Ou
seja, para ele, o enfraquecimento do controle governamental sobre as organizações
sindicais caracterizaria o declínio de um modelo (ele não fala em
"estrutura sindical") denominado corporativista (pelo menos,
corporativismo de Estado). Segundo Rodrigues, a Constituição de 1988, no seu
artigo 8º, desferiu "um golpe profundo no modelo corporativo ao
impossibilitar a intervenção do Estado nos assuntos internos dos
sindicatos." E até mesmo previu que, mesmo aquela característica que
Boito considerava como sendo a essencial da "estrutura sindical" populista
– a unicidade sindical, tendia a extinguir–se. Diz ele:
Algumas
das pilastras de sustentação do modelo corporativo – como a unicidade
sindical, o controle sobre a organização sindical por parte do Ministério do
Trabalho, os poderes normativos da Justiça do Trabalho, etc. – têm cada vez
menos possibilidades de sobrevivência no interior de uma sociedade democrática
e urbanizada. (Rodrigues, 1990a:22)
Estaríamos
presenciando, portanto, um "sistema híbrido" no qual, segundo ele,
"a autonomia das organizações sindicais deve conviver com a unicidade
imposta por lei, e a liberdade de negociação e a arbitragem, com as funções
normativas da Justiça do Trabalho." Por fim, salienta:
Acreditamos,
contudo, que os elementos de natureza liberal acabarão por entrar em choque com
os de natureza corporativa num contexto econômico, tecnológico, político e
cultural em que os valores democráticos tendem a ser hegemônicos. (Rodrigues,
1990: 22–23)
Ora,
o que Rodrigues não percebe é que o esboroamento do corporativismo de Estado
tenderia a dar lugar, nas condições em que “os valores democráticos tendem
a ser hegemônicos”, a um novo tipo de corporativismo – o corporativismo de
mercado, ou o denominado neocorporativismo societal (que, em nosso caso, assume
um cariz setorial, principalmente nas condições do novo complexo de
reestruturação produtiva).
Mais
tarde, Boito iria reconhecer que, ao lado da preservação da estrutura
corporativa oriunda da era Vargas, um dos principais limites do sindicalismo sob
a era neoliberal seria dado pelo surgimento de um neocorporativismo de cariz
societal.[4] Nas novas condições do
complexo de reestruturação produtiva, o controle do mercado é mais adequado
para a integração operária à ordem do capital do que o velho controle
estatal. O neocorporativismo societal, vigente sob o novo complexo de
reestruturação produtiva, cumpriria, segundo Boito, a mesma função social do
corporativismo estatal: a moderação das lutas dos trabalhadores.
Só
que, em sua perspectiva, a passagem de um tipo de controle capitalista
“estatal” para um controle capitalista “de mercado” teria como principal
(e única?) determinação processos político-ideológicos. O que implicaria,
em nível metodológico, dissolver as determinações ontológico-estruturais da
crise do sindicaismo no Brasil, vendo–a apenas como uma crise política (e
ideológica) da direção da CUT (e dos sindicatos sob orientação da corrente
majoritária de cariz social–democrata).
Essa
“cegueira analítica” das determinações ontológico–históricas do
processo de constituição da subjetividade operária é que impede a
perspectiva politicista de apreender os nexos essenciais da crise do
sindicalismo em nossos dias, que se caracteriza não apenas pelo surgimento do
sindicalismo de participação de cariz neocorporativo, como temos procurado
salientar, mas pelo enfraquecimento estrutural da eficácia política da prática
sindical “obreirista” de confronto com o capital no campo da produção,
diante de um novo (e precário) mundo do trabalho.
Mas,
se a estrutura sindical corporativa não poderia ser considerada, em sentido
absoluto, como o verdadeiro limite do sindicalismo no Brasil, quais seriam as
principais determinações sócio–históricas que tenderiam a comprometer o
desenvolvimento do sindicalismo na década seguinte – os anos 90?
2. A Crise do
Sindicalismo no Brasil nos Anos 90: A Farsa Concertativa
Sob
a era neoliberal, ocorreu uma mudança qualitativa na direção social-democrata
do “novo sindicalismo”, passando de uma orientação de confronto para uma
orientação propositiva (é claro que, desde o III Congresso da CUT, em 1988,
eram visíveis os potenciais neocorporativos no seio do setor dirigente do
“novo sindicalismo”). É o que indica o desenvolvimento de um tipo de
"sindicalismo de resultados" no interior da CUT, mais disposto ao diálogo
que ao confronto com o capital. É a adoção de um neopragmatismo sindical, com
a incorporação do discurso da “concertação social”, que apenas
representa uma estratégia política de sobrevivência de parcelas organizadas
da classe diante da ofensiva do capital na produção (cujo exemplo clássico é
o sindicalismo dos metalúrgicos do ABC).
O
sindicalismo brasileiro dos anos 90 tende a não demonstrar a mesma vitalidade
política (ou de adesão de massas) da década passada, apesar de o índice de
greves ainda ser significativo:
Nos
primeiros anos desta década de noventa, houve queda do número de greves, mas,
ainda assim, elas se mantiveram em patamares relativamente próximos aos da média
do período mais recente, isto é, a partir de 1985 (Noronha, 1994: 331)
Entretanto,
as próprias entidades sindicais reconhecem que entre 1990–1992, decresceu
tanto o número de greves, como o de grevistas (DESEP/CUT, 1993). Uma das
principais causas desse decréscimo nos primeiros anos dos anos 90 foi, sem dúvida,
a profunda recessão e o desemprego crescente, decorrentes do Plano Collor I,
que desarmaram o movimento sindical. Mas, não podemos deixar de lado a hipótese
de que, a série de práticas inovadoras, de cariz organizacional, na indústria
brasileira, que constitui um importante aspecto do novo complexo de reestruturação
produtiva, como destacamos antes, e a livre negociação de salários, com a
concessão de abonos e antecipações salariais, de acordo com o espírito do
toyotismo, tenham colaborado sobremaneira com o recuo das greves. É o que
observamos, com maior clareza, após o Plano Real, em 1995, sob o governo
Cardoso, no período de crescimento da economia brasileira, principalmente no
setor industrial (tal como a indústria automobilística).
Pelo
balanço das greves no Brasil, de 1990 a 1997, elaborado pelo DIEESE (que
trabalhou com médias de janeiro a novembro de todos os anos, desde 1990)
percebemos um recuo acentuado sob o novo complexo de reestruturação produtiva,
a partir do governo Cardoso. A constituição de um novo (e precário) mundo do
trabalho, representado pelo desemprego estrutural e pela precarização de
emprego e salários, e a instauração de um toyotismo sistêmico,
principalmente nas grandes empresas, contribuíram para o refluxo significativo
do movimento grevista (os dados de 1997 são parciais, mas revelam uma queda
acentuada das greves – e uma queda ainda maior do número de grevistas). Se o
número de greves ainda se mantém elevado, como percebemos pelo gráfico acima
– em 1996, por exemplo, cerca de 112 – por outro lado, a queda do número de
grevistas demonstra que as mobilizações gerais envolvendo categorias de
trabalhadores ou todos os trabalhadores de uma grande empresa tendem a não
ocorrer com maior freqüência (o que significa que tendem a predominar as
greves por empresa e, de certo modo, a diminuir a greve em grandes empresas,
onde é clara, a presença do novo complexo de reestruturação produtiva)[5].
É
nesse contexto de ofensiva do capital na produção que a estratégia de ação
sindical, baseada no confronto, tende a ser repensada. Impõe-se, cada vez mais,
a necessidade, para os sindicalistas brasileiros vinculados à corrente majoritária
da CUT – Articulação Sindical, de instaurar novos procedimentos de negociação
com o capital, inclusive procurando repensar o instrumento da greve, como
ocorreu com os metalúrgicos, no Congresso de 1997.
Alguns
autores constataram, a partir da década de 1990, a grande transformação político-ideológica
do sindicalismo no Brasil. Jácome Rodrigues destaca a mudança no padrão de ação
sindical da CUT, de um sindicalismo da confrontação à cooperação
conflitiva, explicando–a como uma conseqüência inevitável da
democratização do país e da burocratização que seria própria de todo
sindicalismo (Jácome Rodrigues, 1993b).
Por
outro lado, Boito salienta, o que seria a passagem de um sindicalismo de massa e
de confronto para um sindicalismo neocorporativo de participação, apontando a
trajetória da Central Única dos Trabalhadores (CUT) como exemplar dessa mudança:
desde
o seu surgimento como movimento de massa em 1978, transitou de um sindicalismo
que ‘tendia’ à ação unificada de amplos setores das classes trabalhadoras
contra a política de desenvolvimento pró–monopolista e pró–imperialista
do Estado burguês brasileiro – ou, pelo menos, contra a política salarial
que era um aspecto fundamental da política de desenvolvimento – para uma ação
sindical na qual os diferentes setores das classes trabalhadoras isolam-se em
suas reivindicações específicas, desenvolvem uma nova segmentação
corporativa, e procuram reduzir as perdas de seu setor particular numa
conjuntura de crise, mesmo quando a redução das perdas implica a aceitação
ativa da política de desenvolvimento pró-monopolista e pró-imperialista (Boito,
1994:23).
Boito se refere, com certeza, à experiência da Câmara Setorial do Setor Automotivo, levada a cabo pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, no período de 1992–1995 (um detalhe: a participação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no “Acordo das Montadoras” ocorreu à revelia da deliberação da Executiva Nacional da CUT).
O
que permanece central em tais análises do complexo de causalidades das mudanças
(e desenvolvimento) do sindicalismo no Brasil é a ênfase nas determinações
político-ideológicas em detrimento da análise estrutural do processo de produção
capitalista no Brasil, das transformações produtivas no complexo capitalista,
de cariz tecnológico-organizacional, decorrentes do novo padrão de “acumulação
flexível”. Deste modo, a transição de um sindicalismo de massa e confronto
para um sindicalismo marcado pelo neocorporativismo e participação, segundo
Boito, ocorre, principalmente, como resultado de acontecimentos políticos (de
caráter pontual), desprezando a contribuição decisiva de um novo (e precário)
mundo do trabalho (que surge com o complexo de reestruturação produtiva) para
o desenvolvimento das práticas sindicais neocorporativas no Brasil (por
exemplo, segundo Boito, a promulgação da Constituição de 1988 e a vitória
da candidatura Fernando Collor de Melo, em 1989, seriam os acontecimentos políticos
que incrementaram a tendência à segmentação corporativa, latente em setores
importantes do sindicalismo da CUT). A partir do governo Collor, observa ele, as
tendências neocorporativas de participação/negociação passaram a prosperar
no sindicalismo brasileiro, a começar da crise de perspectiva política da CUT,
decorrente da nova conjuntura político-ideológica no país: a política econômica
recessiva, a crise do socialismo e a ofensiva ideológica do neoliberalismo, em
escala internacional, atingiram, em cheio, a organização e a luta sindical no
Brasil.
É
claro que Boito reconhece, na conjuntura brasileira da época, o desenvolvimento
de práticas inovadoras no mundo do trabalho, mas apenas enquanto componentes
ideológicos da nova situação. A modernização, concorrência, privatização
e abertura ao capital estrangeiro atingiam o desenvolvimento do sindicalismo
brasileiro, segundo ele, apenas enquanto valores e idéias, que se fortaleciam,
“em detrimento das bandeiras e concepções operárias, populares e
antiimperialistas, como luta de classes, reformas distributivas, soberania
nacional e independência econômica” (Boito, 1994:26).
Portanto,
sob a ofensiva do capital na produção, o movimento sindical brasileiro é
levado não só a repensar sua linha de ação, mas, principalmente, a
reconhecer, cada vez mais, os próprios limites intrínsecos da prática
sindical convencional sob a mundialização do capital: as corporações
transnacionais, tornam-se cada vez mais ágeis e capazes de desconstituir os
obstáculos de resistência do sindicalismo organizado, seja através das inovações
organizacionais e tecnológicas, seja através da descentralização produtiva.
Pode-se
dizer que existe uma crise do sindicalismo no Brasil, cujo principal sintoma político–ideológico
é, por um lado, o desenvolvimento do sindicalismo neocorporativista de
participação e, por outro lado, a ineficácia estrutural das estratégias
sindicais “obreiristas”, de confronto, intrínsecas ao sindicalismo de
classe. Na verdade, a crise do sindicalismo no Brasil é, na atual situação, o
resultado político-ideológico da crise do mundo do trabalho (de caráter
estrutural e não apenas conjuntural), caracterizado pelo surgimento de um novo
(e precário) mundo do trabalho.
É
devido à crise do sindicalismo no Brasil diante do novo complexo de reestruturação
produtiva que alguns autores, que, na década passada, salientaram a “explosão”
do sindicalismo no Brasil, mantêm-se, hoje, numa posição de interrogação
sobre os rumos do sindicalismo no Brasil. É o caso, por exemplo, de Antunes,
que, centrando-se ainda na dimensão político-ideológica do sindicalismo no país,
reconhece, apesar disso, em 1993, os enormes desafios estruturais postos pela lógica
do capital para o sindicalismo de classe no limiar do século XXI. Diz ele:
Como
é possível pensar numa ação que não impeça o avanço tecnológico mas o faça
em bases reais, com ciência e tecnologia de ponta desenvolvida em nosso país?
Como é possível um caminho que recupere valores socialistas originais,
verdadeiramente emancipadores? Que não aceite uma globalização e uma integração
imposta pela lógica do capital, integradora para fora e desintegradora para
dentro? Como é possível, hoje, articular valores inspirados num projeto que
olha para uma sociedade para além do capital, mas que tem que dar respostas
imediatas para a barbárie que assola o cotidiano do ser que vive do trabalho?
(Antunes, 1993: 91)
Por
outro lado, Leôncio Martins Rodrigues, a partir de uma perspectiva liberal,
reconhece os desafios postos pelo novo cenário do capitalismo global (no qual o
Brasil está integrado), e afirma que “as lideranças sindicais brasileiras
deverão, se estivermos certos, preparar–se para atuar num cenário novo e
instável que lhes coloca muitos desafios numa conjuntura econômica
particularmente difícil”. Finalmente, conclui: “a mesma flexibilidade que
se impõe aos empresários ante os requisitos trazidos pelas novas tecnologias e
mudanças gerais do mercado impõe–se às lideranças sindicais”
(Rodrigues, 1990a:40).
A
última observação de Rodrigues pode indicar que, diante das transformações
estruturais na economia e na sociedade capitalista, no limiar do século XXI, o
sindicalismo no Brasil tenderá cada vez mais a incorporar, para si, a lógica
do capital. Ou seja, perder os seus vínculos históricos com o movimento social
de contestação à dominação capitalista (o que já ocorre nos principais países
capitalistas desenvolvidos).
[1] Giovanni Alves é Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP e professor de Sociologia da UNESP, Campus de Marília. Este ensaio é uma pequena parte revisada da tese de doutorado “Reestruturação Produtiva e Crise do Sindicalismo no Brasil” (IFCH, UNICAMP, 1998) e que deve sair em livro em março de 2000, publicada pela editora boitempo.
[2] A dispersão sindical no Brasil pode ser comprovada pelo seguintes dados – após a “década dos trabalhadores”, os anos 80, o IBGE registrou a existência, no país, de 9.118 sindicatos de empregados e empregadores, 4.635 nas áreas urbanas e 4.483 nas áreas rurais.
[3] Por exemplo, a densidade sindical, em proporção à população ocupada em 1985 na Itália e Alemanha, era de 41,4% e 38%, respectivamente. Enquanto isso, no Brasil, ela atingia, em 1988, 16,0% (referente apenas à população urbana, exclusive trabalhadores autônomos) ou 25,8% (referente a população urbana e rural, exclusive a região Norte) (Almeida, 1996:131).
[4] Mas, se quisermos ser mais precisos, o neocorporativismo que predomina, em nosso país, sob a era neoliberal, é de caráter setorial (Costa, 1994).
[5] É curioso perceber que a mídia dominante tende a considerar a situação de crise do sindicalismo, em virtude do surgimento de um novo (e precário) mundo do trabalho, no bojo do incremento da prática de captura da subjetividade operária pelo capital, como sendo um avanço histórico das relações trabalhistas no país (Liliana Pinheiro, “Crise promove nova revolução trabalhista”, O Estado de São Paulo, 19 de janeiro de 1998).