Globalização
e Dimensões da Crise Brasileira
Cultura
e Identidade
Olhando com
um olhar dos míopes
Profª. Lídia M. V. Possas[1]
RESUMO: O processo de globalização implementado pela modernização tecnológica tende manter uma visão homogênea e centrada do mundo que obscurece as práticas e as diferenças culturais e sociais. Essas diferenças rompem, cada vez mais , o silêncio a que foram confinadas exigindo visibilidade e alternativa de inserção num sistema que sempre as excluiu e as marginalizou. A perspectiva da história social da cultura, o enfoque da história sob o prisma das mulheres vem colaborar para o rompimento da idéia do homogêneo, de continuidade imposto pela cultura ocidental e pelo poder, sugerindo novos modelos e papéis e possibilitando o desocultamento das diferenças e das culturas.
Para acomodarmos a visão e fazermos um exercício progressivo de concentração e de fixação do nosso olhar sobre o fenômeno contraditório da Globalização em uma perspectiva de análise que contemple o enfoque cultural, iniciaremos observando- o, a partir dos anos 60, quando começa a ser percebido enquanto uma unidade operacional básica, permitindo sugerir já naquele momento a construção da imagem do planeta em uma espécie de “Aldeia Global” (McLuhan-1962).
As possibilidades de estreitamente das trocas do mercado em níveis planetários com garantias de um sistema de comunicação mais rápido devido aos avanços tecnológicos, a rapidez e a simultaneidade das operações financeiras contribuíram não só para alardear uma nova onda de progresso e modernidade, mas para possibilitar a construção de relações múltiplas seja no campo político, seja no campo social e econômico que colocaram em dúvida muitas das certezas e conquistas realizadas por outras gerações. Entre elas, a título de exemplo é possível ressaltar: a segurança de trabalho, a previdência social, as garantias de acesso à educação e saúde pública...
As relações sociais mais expostas pelo poder de amplitude a mídia em todo o globo tornaram mais visíveis as tensões e os conflitos de caráter étnico, de classes e segmentos sociais e, principalmente das minorias até então marginalizadas demonstrando a violência das práticas políticas e as formas de exclusão.
Diante da necessidade e da urgência de mediar soluções, as instituições burguesas até então ardorosamente defendidas, passaram a demonstrar a fragilidade e até mesmo a incapacidade para enfrentar as questões e para propor alternativas viáveis diante de um mundo que não é, e nunca foi homogêneo.
As novas e velhas relações expuseram as contradições e as diferenças das experiências sociais puderam ganhar mais visibilidade exigindo mudanças. O comportamento coletivo dos seres humanos habituado em pensar respostas quase sempre “homogêneas e centradas”, a partir de organizações nacionais e internacionais, passou a vislumbrar outras possibilidade, outros caminhos calcados nas diferenças culturais que são responsáveis pela multiplicidade e ao mesmo tempo pela especificidade das sociedades que habitam o planeta. Mais do que nunca a globalização faz-nos ver e pensar as diferenças. Paradoxo?
Esse processo de mundialização tem sido analisado por variadas perspectivas e temporalidades históricas, resultando conceituações e caracterizações diversas. Entre elas é possível ressaltar o salto tecnológico, sua imagem mais representativa, reduzindo os custos do capital a uma circulação com a velocidade luz _ em bits e bites _ , realizando transferências financeiras instantâneas e transformando as Bolsas de Valores do mundo em uma Única Bolsa onde as apostas são feitas simultaneamente nos quatros continentes - on line – sem que haja a necessidade de manter relação com a substância econômica objetiva da produção de mercadorias. A economia globalizada construiu situações ímpares que, aos poucos converge para uma desnacionalização colocando em xeque a soberania econômica do Estado e dos limites das fronteiras nacionais..
Outra abordagem desse fenômeno pode ser dirigido para a dimensão do político observando as condições do Estado e dos partidos políticos que se tornam cada vez mais frágeis diante da gerência das decisões estratégias frente aos agentes anônimos da economia global permeados pela lógica dos atores multinacionais[2]. A soberania do Estado, como espaço de decisão política se vê, em alguns casos, desarticulada frente ao processo de desterritorialização da economia, pela criação dos blocos regionais _ Mercosul, Nafta_ transformada pela construção de novas relações econômicas e políticas em níveis transnacionais.
Os partidos políticos nacionais parecem convergir para uma perda de identidade ideológica traduzida pela limitação de ação junto as massas devido aos programas partidários pouco diferenciados no enfrentamento dos problemas sociais. As questões mais críticas da sociedade como a crise do desemprego, da ampliação da miséria, da concentração de renda e exclusão, da violência rural e urbana tornam-se quase um consenso, seja da oposição como da situação. Aliás, uma situação semelhante foi vivenciada durante a ascensão do fascismo, nos anos 30, quando esse assumiu em seus discursos, as bandeiras que eram exclusivas das esquerdas. Dimensões socializantes com profundas bases junto ao proletariado levaram os partidos fascistas a enfrentarem a oposição dos partidos comunistas e chegarem ao poder[3] .
Estaremos, nesses contexto global sendo incapazes de olhar esta realidade e perceber alternativas? As experiências das práticas partidárias anteriores mais uma vez ficarão inertes para uma distinção e uma ação mais consciente e cidadã ? À mercê de “retrocessos políticos”, do receio da possibilidade de reversão do padrão do Estado Representativo conduzidos por estratégias de mídia virtualizada não nos imobilizará ? Por acaso não estaremos sendo impedidos de criar uma outra lógica que rompa com as mesmices de modo a perceber as fragilidades do sistema?
Sabemos que o olhar é a origem do saber mas que a visão não é uma reflexão passiva. Nosso olhar só permite absorver aquilo que fomos ensinados a ver[4] o que nos instiga a insistir nessa apreensão da realidade com um esforço que supere uma visibilidade formal. Para tanto torna-se necessário aguçar nossa percepção do olhar e caminhar por outras condições de captar a realidade e se possível for trocar de óculos, mesmo que isso nos traga de início um certo desconforto.
O filme Madrix, é um desse exemplos. Com todos os seus efeitos especiais, perspectivas inovadoras de pensar um certo tempo futuro não conseguiu superar e desvencilhar-se da alternativa do herói – o esperado virtual- , o sempre salvador da humanidade aguardado para conduzir a sociedade em crise . Não teríamos outra saída? Mais uma vez investiríamos na idealização do sujeito?
O mundo globalizado exige a colocação de novos paradigmas para a sociedade civil que se cosmopolitiza de uma maneira cada vez mais intensa Ao mesmo tempo, devido a aceleração tecnológica e o ritmo alucinante de vida calcada cada vez mais na individualização que constrói no presente um “ estado de inquietação” que obscurece as potencialidades do futuro impedindo uma maior a reflexão para se cunhar soluções e alternativas coletivas . E mesmo quando elas surgem a sociedade percebe que logo se tornam obsoletas e superadas diante de uma realidade difícil de apreender devido ao circunstancial que sempre introduz novas performances ( Hobsbawn, 1995).
Diante desse contexto, os olhares das ciências sejam elas as exatas, biológicas e, principalmente as ciências sociais se inquietam. São levados a formular outras questões pela necessidade de explicar as relações com a natureza, com o mundo, com a sociedade e com os indivíduos. Novas abordagens e críticas revendo os sistemas explicativos racionalizantes e universalistas voltados para o estudo de macroestruturas passaram a ser colocados em pautas[5].
A ênfase na historicidade, nas diferenças dos sujeitos, das culturas são os parâmetros a partir dos quais os pesquisadores procedem a revisão dos sistemas explicativos abstratos nas ciências humanas, numa espécie de inquietação “salutar” visando dar maior visibilidade para a vida concreta dos seres humanos em sociedade ( Dias, 1998, p.224).
Ao garantirem as especificidades, a coexistência de múltiplas temporalidades e de sujeitos com seus discursos narrativos, esses estudiosos passaram a colocar em evidência práticas sociais que passaram a ser analisadas e interpretadas no quadro do processo históricos ampliando significativamente a compreensão da totalidade. A categoria da - “flexibilização”- conceito formulado para explicar a existência de possibilidades constantemente criadas e recriadas para atender as demandas sejam sociais, econômicas e políticas - passou a ser apontada e sugerida por alguns teóricos como solução para as constantes crise do sistema capitalista. Seria uma dimensão a essa questão da multiplicidade, a criação de categorias tais como: a argentinização, mexicanização e agora brasilização[6], conceitos dados pelas regionalidades?
O contexto atual com suas conjunturas carecem de maiores reflexões e principalmente de novos focos de abordagens. Um exame crítico do funcionamento do sistema ideológico e do poder fora dos parâmetros até então traçados pelas construções científicas hegemônicas e universais (J.W.Scott, 1998, p.300) se coloca como uma proposta viável . Trata-se de encontrar uma outra racionalidade cognitiva?
Diante da lógica racionalista em que vivíamos e fomos educados a olhar o mundo, sempre centrado e organizado em níveis hierárquicos e distinções de classe, se instala a idéia do “ caos social ” levando os indivíduos diante da suposta crise, a uma busca de identidade. Nessas buscas surgem também as explicações transcendentais, os apelos fanáticos torneados de radicalismo, sem dispensar, a procura do auto conhecimento que ausente de uma reflexão das experiências do vivido, introduzem, geralmente, soluções as curto prazo , idealizadas como podemos constatar no consumo da literatura de auto ajuda que quase sempre caminha junto e para a ficção, sem qualquer fundamento de realidade. O fim da história chegou até mesmo ser apregoado nessas últimas décadas do século XX.
Para isso apontar para uma abordagem simbólica buscando universos significativos na interpretação da Cultura torna-se o nosso propósito de modo a captar não só o centro mas as periferias do sistema numa mediação que revele e explique as diversidades de um fenômeno que pretende ser visto como global.
A
temática da Cultura
Neste diálogo sobre a “Globalização – Dimensões da Crise Brasileira - Identidade e Cultura” somos levados a uma busca de indícios explicativos não só pela curiosidade que a própria investigação suscita mas também por estarmos submetidos, de certa forma a uma mesma experiência pessoal e coletiva frente a um tempo e as conjunturas.
Optamos pela ênfase cultural dos estudos históricos de modo que o nosso olhar se fixe nas representações, nas imagens, na visão de mundo das comunidades, nos significados transformados em sistemas simbólicos buscando, com isso, uma outra perspectiva de análise diante das múltiplas possibilidades de olhares, de focar e de construir os objetos (Desan, 1992).
Neste caso, enfatizamos o papel da cultura, da história cultural. Modismo ou não, trata-se de uma leitura possível dessa realidade complexa em que vivemos nesse fim de século XX e até mesmo um desafio para os cientistas sociais diante dos velhos modelos explicativos e das posturas teórico- metodológicas que acabavam impondo regras e criando obstáculos.
Uma crítica das formulações explicativas da realidade não ocorrem sem debates e sem tensões, como podemos, por exemplo, ressaltar a que se deu entre os historiadores da cultura e os críticos literários. Após discussões conceituais sobre a análise do discurso conseguiram encontraram uma relação de homologia entre o discurso historiográfico e o discurso literário que só veio enriquecer as possibilidades de abordagens da própria história[7].
A obra literária deixou de ser um mero reflexo do contexto e a história, o seu pano de fundo. Os estudos culturais aproximaram o discurso historiográfico do discurso literário, na medida que ambos passaram a ser considerados manifestações culturais de um certo período onde os vários discursos que compõem a história de um povo podem ser analisados fora de uma mera relação de causa e efeito.
Nessa perspectiva é que propomos refletir sobre a globalização ficando atentos as questões culturais e as mudanças ocorridas no próprio campo de trabalho do historiador. Refletindo sobre o tipo de discurso histórico e da narrativa construída, das funções do saber histórico, como ressaltou Roger Chartier [8](1994, p.98) e, também ao trabalho com as fontes e a documentação poderemos contribuir para ampliar as vertentes explicativas e do conhecimento científico e da atuação do profissional da história.
Assim, sem o receio de cometer heresia por andar em outros campos do conhecimento, uma nova fase de investigação voltada para as práticas culturais originada nas discussões sobre os fundamentos da história social, podem e devem vir à tona para responder a crise de paradigmas, de identidade e de perspectivas .
Diante das novas questões que se colocam e, com o firme propósito de não querer homogeneizar as respostas, não perderemos, pois de vista as coisas minuciosas que podem e devem ser observadas nas relações informais da vida cotidiana, das mentalidades, explicitadas principalmente na busca das singularidades, conforme nos ensinou Sergio Buarque de Holanda.
Dar maior visibilidade aos grupos étnicos, as mulheres, os gays, os camponeses e tipos de trabalhadores são perspectivas que ganham cada vez mais terreno no âmbito dos estudos sociais. Thompson assim o fez ao analisar a classe operária inglesa no séc. XVII; Robert Dartom, ao destrinchar o grande massacre dos gatos à luz dos esquemas simbólicos, da maneira como as pessoas comuns de uma comunidade conferem sentido ao mundo e Foucault ao desnudar a tecnologia do poder nas teias de significados, historicizando- as no tempo.
Temos outras referências pontuais nessa busca das singularidades e que para tanto exige outros olhares e leituras. As observações acuradas de Machado de Assis, um homem do seu tempo que percebia as coisas miúdas do cotidiano de uma sociedade fechada, patriarcal que esforçava-se por torna-se moderna, fornece uma dessas ricas possibilidades para compreender hoje o mundo que pretende ser global. Em suas crônicas e contos escritos nos periódicos da época nos demonstrava a importância de um olhar, o dos míope:
“ Enquanto o telégrafo nos dava notícias tão graves, coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míope. A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam” ( Jornal, “A Semana, 11/11/1900)[9]
Mais sensíveis os estudiosos partem para trocas de experiências. Uma avalanche de trabalhos interdisciplinares, percorrendo os espaços da cultura e das práticas do vivido criaram a denominada “reconciliação”, uma vertente, que se distingue nos meios acadêmicos norte americanos e que ganha também prestígio entre nós.
Caracteriza-se pela pluralidade, pela diversidade teórica e temática, pois abarca não só estudos literários que perpassam as operações da linguagem e da análise do discurso, como a utilização de métodos antropológicos e sociológicos que transformam a forma de análise captando as diferenças que todas as sociedades revelam no conjunto das estruturas fundamentais e que esboçam relações múltiplas de vida em determinado momento, lugar e formas de distribuição de poder.
Nesta oportunidade de reflexão sobre Globalização, estamos, assim apontando para um outro olhar que deve ater-se aquilo que passa desapercebido e que está, muita vezes, oculto na rede dos significados, nas construções emblemáticas, nas imagens criadas .
No entanto, introduzir nos debates globais a questão cultural, a questão das singularidades com toda a sua diversidade exige a presença de uma teoria interpretativa da cultura que permita pontuar as explicações e fazer conexões que possam fazer parte do nosso suprimento teórico possibilitando a gestação de novas problemáticas e respostas .
O “ Pantanal conceitual de cultura”, um
ecletismo desvairado
Explorar algumas tendências das reflexões teóricas sobre cultura que se adensaram já a partir dos anos 70 nos remete, como ponto de partida para o “ pantanal conceptual” sobre a cultura e o papel desempenhado na vida social .
Revigorando o estudo da cultura Clifford Geertz [10]desencadeou uma fértil discussão que perpassou à diversas áreas do conhecimento. Utilizando-se do trabalho de Clyde Kluckhohn, em uma introdução a Antropologia, colocou um pouco de água na fervura das prolongadas discussões sobre a definição de “cultura” ao expor a sua abrangência[11]. Como modo de vida, legado social, forma de pensar e de se comportar, de aprendizagem comum, mecanismos para regulamentação, conjunto de técnicas, produção de artefatos e uma teoria antropológica podem ser encontrados nesse extenso elenco.
Desta maneira a opção pela perspectiva de uma análise que contemple o estudo da(s) cultura(s) na sociedade exige que se faça uma escolha. Isso se dá , devido a presença a um ecletismo desvaraido, plagiando a metáfora criada e usada pelos modernistas paulistas nos anos 20, que se instala diante da busca de uma conceituação sobre o que é cultura que não pode perder nada e tudo engloba. Partindo de uma maneira, do modelo antropológico que reina supremo nas abordagens culturais associado mais precisamente ao estudo da linguagem, encontramos assim, colaborações pertinentes que já demonstraram algumas saídas promissoras.
A perspectiva defendida por Clifford
Geertz, (A Interpretação das Culturas,
1989) trabalha com a história cultural
ressaltando o ponto de vista etnográfico,
modalidade antropológica da história que “vê a expressão individual
no âmbito de um idioma geral”.
Assume ele, o conceito de cultura, como ciência explicativa cujo objetivo primordial é ler, é decifrar o significado construído pelos contemporâneos. A pergunta não é o que informa o texto, ou a representação, mas como funciona. Para ele a “ cultura seria uma composição psicológica por meio das quais os indivíduos geram seu comportamento, sua crença, forma de agir e de ser aceito pelo membros de uma sociedade.
Formula a teoria da cultura como sistema simbólico, organizador das estruturas e de princípios ideológicos que constrói o fluxo de comportamento, da ação social, produzindo artefatos e estados de consciência– “ O homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, sendo cultura como essas teias e a sua análise .”(Geertz, 1989,.15).
A decifração do significado, mais que a inferência de leis causais é assumida como tarefa da antropologia cultural, seu campo de atuação e experiência.
Outro grande colaborador na área da cultura é Roger Chartier, intelectual incorporado a 4ª geração dos Annales,[12]. Enfatizou ele ser as “relações econômicas e sociais como campos de prática cultural e produção cultural”( Lynn Hunt, 1995, p.9-10)
Sua investigação não pressupõe um universo simbólico comum e unificado,( questiona o modo interpretativo geertziano) mas se preocupa com as interpretações das diferenças, na apropriação e uso das formas culturais pela comunidade, onde é constante a existência de luta e conflito.
Defendendo uma a história que seja sensível às desigualdades e voltando-se para a diferença distancia-se da comunidade- unidade. Ressalta também que se os historiadores sempre foram críticos diante dos documentos-fontes e que devem estar também alertas as formas de le-los, pois foram escritos no passado com diferentes intenções e estratégias _ daí preocupar-se com a história da leitura[13]( as dependências da diversidade dos fatores, tais como idade do leitor, inovações tipográficas).
Outro historiador seduzido pela perspectiva cultural é E. Hoobsbawn( 1995. P18-21) , que sem perder sua tradição marxista, fornece uma concepção conciliadora na medida em que vê a cultura como a principal responsável pela construção de fluxos comportamentais que geram artefatos e estado de consciência que emergem da maneira do seu uso e que movimentam a ação social engendrando, portanto no vivido formas distintas de ver e de ser . Sua concepção se aproxima de Geertz.
Diante desses pressupostos, passamos a focar mais especificamente o Brasil no quadro da globalização. País de comprovada diversidade cultural devido as raízes nativas, ibéricas e africanas que aprenderam a conviver em uma mesma territorialidade . Um “policulturismo” nos revela as diferenças e ao mesmo tempo uma capacidade incrível de conviver com elas – a “ desordem do progresso x modelo universal do moderno – e a compreensão de uma categoria de análise já apontada acima como de “ brasilização” ( Ulrich Beck, 1999) que apesar de receber críticas pontuais (Giddens, 1999)., pode indicar uma abordagem rica pela possibilidades que ela oferece, principalmente para explicar nosso contraditório processo histórico que faz conviver práticas de relações sociais arcaicas e modernas.
Tomando como referenciais a presença de múltiplas representações e a existência dos significados construídos na sociedade brasileira podemos entender alguns estudos mais recentes, inclusive sobre a cultura na América, onde é possível afirmar que não houve um processo de miscigenação tendo como principio organizador a cultura européia. As culturas índias e negras, através do uso da razão, mantiveram suas especificidades ao dissimularem práticas, compreenderem as diferenças e construírem respostas ao europeu ,na condição de informantes, participando assim e com certa autonomia cultural de uma racionalidade comunicativa ( Theodoro, 1992, p.12-13). Precisamos apenas retomar as formulações refazendo o caminho com outro olhar de modo a perceber que a nossa identidade passa necessariamente pela grande diversidade que fomos e ainda somos.
Assim ao pensarmos na existência dessa diversidade cultural, nas representações propostas pelo poder ou pela força de grupos, nas construções das identidades sociais e culturais engendradas torna-se possível realizar novas explicações e com isso (re)construir a identidade(s). Desvelando as modalidades do fazer-crer, as formas da crença, torna-se possível revelar “ uma história das forças simbólicas, uma história da aceitação e rejeição pelos dominados dos princípios inculcados, das identidades impostas que visam assegurar e perpetuar sua dominação” ( Chartier, 1994, p.108).
Nessa conjuntura a história das mulheres pode oferecer valiosas contribuições seja no campo teórico seja metodológico. Enquanto uma questão, fora colocada no cerne de uma história das mulheres que tomou fôlego a partir dos anos 70 nos Estados Unidos e no Brasil. Pensando em garantir a especificidade e a diferença dos sujeitos , no caso as mulheres, até então restritos ao anonimato e ao silêncio intencional, buscou-se uma explicação mais concreta na hermenêutica que recebeu um grande impulso com as pesquisas de historiadoras que passaram a investigar o cotidiano, as relações de gênero, a família, as práticas sociais femininas e as instituições.[14]
Ao tomar as mulheres como objeto de análise, percebendo sua inserção da sociedade foi possível construir concretamente os sujeitos, saindo da abstração e da idealização que reforçavam estereótipos e com isso denunciar as formas de ocultamento do poder e o desvelamento das relações de dominação .
Ao trabalhar, por exemplo, com as mulheres ferroviárias, no cotidiano nos anos 30-40 foi possível revelar não só as práticas sociais mas as estratégias do Estado Novo em construir dispositivo simbólicos que reforçavam o próprio discurso masculino que aliás foi interiorizado pelas próprias mulheres na construção de uma identidade nacional que mais uma vez selecionava e modelava sua inserção no espaço público em São Paulo [15].
As constantes figuras do imaginário masculino, ocupando sempre o lugar e o centro das decisões,. as representações da inferioridade feminina, repetidamente mostrada e colocada às margens acabaram instalando-se no pensamento e nos corpos dos homens e mulheres reforçando as imagens da mulher de família no espaço privado e de mulher pública. Como aquela de todos.
A distância entre o masculino e feminino pode ser datada historicamente a partir das representações e discursos médicos que criaram uma anatomia e fisiologia da diferença que inscrita nas práticas sociais e nos fatos organizaram a realidade.
Assim, se olharmos processo contraditório da globalização vivenciados por todos nós e, tomarmos a cultura como referência e categoria de análise, seja a partir da análise da teia de significados como um sistema simbólico que organiza as estruturas e princípios ideológicos , controlando o fluxo comportamental, seja observando a construção das representações coletivas que incorporam nos indivíduos às divisões do mundo social bem com as diferenças de gênero possamos entender que, nos brasileiros, não vivemos uma crise de identidade, mas talvez um processo de desvelamento das construções simbólicas permitindo uma melhor compreensão das representações elaboradas.
Ser mulher na grande diversidade cultural das sociedades não é apenas assumir a maternidade como uma alegoria feminina para representar a República, nem mesmo o símbolo ideal para a humanidade geradora de filhos para a pátria, nem a rainha submissa e domesticada no espaço hierarquizado do lar ( Carvalho,1990,p.75-87).
Ser mulher é uma identidade a ser construída a partir de um olhar crítico, talvez, o olhar do míope machadiano, mais intencional, concentrado que aperta os olhos para não dispensar e assim poder situá-la objetivamente diante de sua própria presença, em relação a seu modo de ser, da sua comunidade. E com isso poder questionar a sua invisibilidade, a sua ausência de direitos, o seu desempenho em papéis prescritos a que sempre foi destinada e os fundamentos de sua própria existência.
Um olhar mais apurado e concentrado sobre o fenômeno da globalização que recupere as singularidades e a diversidade cultural, como no discurso literário que pensa a historicidade do texto , percorrer e sintonizar as diferenças abrindo um outro campo de possibilidades . É preciso apenas, que elas as diferenças sejam captadas por um outro olhar. Como a de nossa personagem que no meio de suas tarefas e mesmice cotidianas pode ver-se e conscientizar-se das alternativas e do devir:
“ Ela pisando nas pontas dos pés e
parando diante da porta o escritório do seu marido, bateu lentamente, com
movimentos leves e sutis, preocupada
em não perturbar receosa, sempre, de interromper algo sério. Queria lhe oferecer um
cafezinho, porém sabia que do seu escritório, igual ao seu pai,: vinha o humor
do dia...
“ Onde tinha vivido? A coisa tinha sido preparada. De repente sentiu a necessidade de repensar sua vida lucidamente, num enfoque diferente.”( Grazia Livi, “As letras do meu nome”, 1996, p154)[16]
BECK, Ulrich. Giddens, A e Lash, S. Modernização reflexiva. Política, Tradição e Estética na ordem social moderna. São Paulo, Ed. UNESP, 1995
CHARTIER, Roger. “A história hoje: duvidas, desafios, propostas”. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.7, n.13, 1994
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( UNESP), Assis, 1993-1998, 1-6
DIAS, M. Odila Silva. “ Hermenêutica do Cotidiano na Historiografia Contemporânea”. In: Projeto História. Trabalhos da memória. PUC –SP. São Paulo, n.17, nov/98
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HOBSBAWN, E. A Era dos Extremos O breve século XX – 1914-1991. São Paulo, Cia. das Letras, 1995
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THEODORE, Janice. América Barroca. São Paulo, EDUSP/Nova Fronteira, 1992
[1] Professora de História da UNESP. Palestra proferida no Curso de Extensão promovido pelo Deptº de Ciências Políticas e Econômicas da UNESP, campus de Marília em junho de 1999
[2] As fortunas se concentram em mãos de poucos. A revista Forbes de 1996 identificou apenas 200 homens mais ricos do mundo, sendo, sete norte americanos, onde destaca-se Bill Gates, um saudita, um alemão e um chinês.
[3] Nicos Poulantzas, Fascismo Y Ditadura. Porto , Portucalenses, 1972, p.94. Antonio Gramsci. em sua autocrítica, “porque fomos vencidos?” numa carta dirigida à Voce della Gioventu de Milão, descoberta em 1973, colocava a questão da vitória do fascismo não somente como “ uma reação armada do capitalismo, segundo ingênua análise da II Internacional”, mas uma estratégia especialmente armada para seduzir a pequeno burguesia e que desarticulou os partidos proletários minando suas bases e palavras de ação diante de alguns operários que se tornaram fascistas Ver trabalho de Maria Antonietta Macciochi, “ Gramsci e a questão do Fascismo”, ( mimeo), 1988.
[4] Ver reflexões de Joan Scott em “ A Invisibilidade da Experiência”, In: Projeto História, Revista do Programa de Estudos de Pós-Graduação em História da PUC .São Paulo: EDUC, nº 16, fev/98, p.297-325
[5] Autores como Jacques Derrida, Michel Foucault, Jurgen Habermas, Giles Deleuze que abriram novos caminhos na contracorrente dos grandes sistemas de explicação da linguagem e do pensamento foram incorporados no Brasil pelos trabalhos de Maria Odila Silva Dias ao tratar da hermenêutica do cotidiano e de Nicolau Sevcenko ao explicar a urbanização e a modernização em São Paulo nos anos 20.
[6] Termo cunhado pelo sociólogo Ulrich Beck “O Admirável Mundo do Trabalho”, de 1998, para lançar uma “ plataforma conceitual” para as políticas de combate ao desemprego em massa na Europa onde o autor associa com as condições de feminilização do trabalho, uma vez que as mulheres sempre enfrentaram no seu cotidiano a diversidade de papéis, de experiências e atividades seja no mundo do privado, seja no público.
[7] Daí nasceu o movimento crítico do “ new historicism”[7], originado nos Estados Unidos, em 1988, baseando-se nas noções da teoria dos discursos de Foucault e do relativismo desconstrucionista de Jacques Derrida que veio corroborar para a integração da literatura no âmbito dos signos sociais de modo a restaurar a historicidade do texto e a textualidade da história. Ver a discussão que Clifford Geertz, antropólogo que trabalha com a história cultural, faz sobre o “ paradigma dos Annales” reforçando uma antropologia histórica e uma preocupação com os textos históricos em uma dimensão literária. Ver Aletta Biersack, “ Saber Local, História Local: Geertz e Além”, In: Lynn Hunt, A Nova História cultural, 1992, p.98-130
[8] Ver a análise realizadas por Roger Chertir em “ A História Hoje: dúvidas, desafios, propostas. In: Estudos Históricos”, Rio de janeiro, vol,7, n.13, 1994, p.97-113
[9] Citado por Nicolau Sevcenko, em História da Vida Privada no Brasil. República: da belle Époque à Era do Rádio. V.3. São Paulo, Cia. das Letras, 1998, p.7
[10] Sua obra pontual , “ A Interpretação das Culturas” ( Prêmio Sorokin da Associação Sociológica Americana, 1974) foi resultado de estudos empíricos, a partir da área antropológica que teve uma repercussão imediata junto aos estudiosos das ciências sociais.
[11]
A definição de cultura engloba: o modo de vida global de um povo; o legado social que
o indivíduo adquire do seu grupo; uma forma de pensar; uma abstração do
comportamento; uma teoria elaborada pelo antropólogos, sobre a forma pela qual
um grupo de pessoas se comporta realmente; um celeiro de aprendizagem comum; um
conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes;
comportamento apreendido; um mecanismo para regulamentação normativa do
comportamento; um conjunto de técnicas para se ajustar tanto ao ambiente
externo como em relação aos outros homens; um precipitado da história, ou ainda
uma peneira, um mapa, uma matriz, uma
ferramenta qualquer. Ver em Clifford Geertz, A Interpretação das Culturas, Rio de janeiro, LTC, 1989, p.14
[12] Revista de História Econômica e Social fundada em 1929 por Marc Bloc e Lucien Febre que nos anos 80 efetuou um brusco desvio para a história da cultura, das funções semióticas da linguagem e das mentalidades
[13] Ver de Roger Chartier, “ Tetxo, Impressão , Leiturasa” In: In: Uma nova Historia Cultural, op. Cit. P.211-238
[14] Trabalhos como o de M. Odila Leite da Silva Dias, “ Quotidiano e Poder em S. Paulo no Século XIX”, São Paulo, Brasiliense,1984; Rachel Soihet, “ Condição Feminina e Formas de violência. Mulheres Pobres e ordem Urbana ( 1890-1920) Rio de Janeiro, Forense, Universitária, 1988;M. Tereza Caiuby C. Bernardes, “ Mulheres de ontem? Rio de Jjaneiro no séc. XIX”, São Paulo, T. A Queirós, 1988; June Hahner, “ A Mulher Brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937”, São Paulo, Brasiliense, 1978;Teresa Laurentis, “ A tecnologia do Gênero” In: H. Buarque de Holanda (org) Tendências e Impasses. O feminismo como crítica da Cultura”. Rio de Janeiro, Rocco, 1994; Miriam Moreira Leite, “ Outra Face do feminismo: Maria Lacerda de Moura”. São Paulo, Ática, 1984;E. M. Lopes, “A educação da Mulher: a feminização do magistério”. In: teoria e educação, n.4, 1991 Marina Maluf, “Ruídos da Memória”, São Paulo, Siciliano, 1995;Marina Massi, “ Vida de mulheres, cotidiano e imaginário. Rio de Janeiro, Ímago, 1992; Eni Samara, “ As mulheres, o poder e a família – São Paulo, sé. XIX”. São Paulo, Marco Zero/ANPUH, 1989.
[15] Ver LidiaM. V. Possas, “ Mulheres , Trens e trilhos. Beirando uma história do impossível. Tese de doutorado, USP, 1999
[16] Gostaria de agradecer a Tullo Vigevani e a Flavia Arlanch , colegas do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da UNES por terem apontado questões importantes que me levaram a reelaborar alguns aspectos deste artigo e também por seus esclarecedores comentários.