Globalização e Dimensões da Crise Brasileira

Cultura e Identidade

 

Olhando com um  olhar dos  míopes

 

Profª. Lídia M. V. Possas[1]

 

 

 

 

 

RESUMO: O processo de globalização implementado pela modernização tecnológica tende  manter uma visão homogênea e centrada do mundo que obscurece as práticas e as diferenças culturais e sociais. Essas diferenças rompem, cada vez mais , o silêncio a que foram confinadas exigindo visibilidade e alternativa de inserção num sistema que sempre as excluiu e as marginalizou. A perspectiva da história social da cultura, o enfoque da história sob o prisma das mulheres vem colaborar para o rompimento da idéia do homogêneo, de continuidade imposto pela cultura ocidental e pelo poder, sugerindo novos modelos e papéis e possibilitando o desocultamento das diferenças e das culturas.

 

 

Para acomodarmos a visão e fazermos um exercício progressivo  de concentração e de fixação do nosso  olhar sobre o fenômeno contraditório da Globalização em uma perspectiva de análise que contemple o enfoque cultural, iniciaremos observando- o, a partir dos anos 60, quando começa a ser percebido enquanto uma  unidade operacional básica, permitindo sugerir já naquele momento a construção da imagem do planeta em uma espécie de “Aldeia Global”  (McLuhan-1962).

As possibilidades de  estreitamente das trocas do mercado em níveis planetários com garantias de um sistema de comunicação mais rápido devido aos avanços tecnológicos, a rapidez e  a simultaneidade das operações financeiras contribuíram não só para alardear uma nova onda de progresso e modernidade, mas para possibilitar a construção de  relações múltiplas seja no campo político, seja no campo social e econômico que colocaram em dúvida muitas das certezas e conquistas realizadas por outras gerações. Entre elas, a título de exemplo  é possível ressaltar: a segurança  de trabalho, a previdência social, as  garantias de acesso à educação e saúde pública...  

  As relações sociais mais expostas pelo poder de amplitude a mídia em todo o globo tornaram mais visíveis as tensões e os conflitos de caráter étnico, de classes e segmentos  sociais e, principalmente das minorias até então marginalizadas demonstrando a violência das  práticas políticas e as formas de exclusão.

  Diante da necessidade e da urgência de  mediar soluções,  as  instituições burguesas até então ardorosamente defendidas, passaram a demonstrar a fragilidade e até mesmo a   incapacidade para  enfrentar as questões e para  propor alternativas  viáveis diante de um mundo  que não é, e nunca foi  homogêneo.

As novas e velhas relações expuseram as contradições e as diferenças das experiências sociais puderam ganhar mais visibilidade exigindo  mudanças. O  comportamento coletivo dos seres humanos habituado em pensar respostas quase sempre   “homogêneas e  centradas”, a partir de organizações nacionais e internacionais, passou a vislumbrar outras possibilidade, outros  caminhos calcados nas diferenças culturais que são responsáveis pela multiplicidade e ao mesmo tempo  pela  especificidade  das sociedades que habitam o planeta. Mais do que nunca a globalização faz-nos ver e pensar as diferenças. Paradoxo?

Esse processo de mundialização tem sido  analisado por variadas perspectivas e temporalidades históricas, resultando conceituações e caracterizações diversas.  Entre elas é possível ressaltar o salto tecnológico, sua imagem mais representativa,  reduzindo os custos do capital a uma circulação com a velocidade luz _ em bits e bites _ , realizando transferências financeiras instantâneas e   transformando as Bolsas de Valores do mundo em uma Única Bolsa onde as apostas são feitas simultaneamente nos quatros continentes - on line – sem que haja a necessidade de manter relação com a substância econômica objetiva da produção de mercadorias. A economia globalizada construiu situações ímpares que, aos poucos converge para uma  desnacionalização colocando em xeque a soberania econômica do Estado e dos limites das fronteiras nacionais..

 

Outra abordagem desse fenômeno pode ser dirigido para a dimensão do político observando as condições do  Estado  e dos partidos políticos que se tornam cada vez mais   frágeis diante da  gerência das decisões estratégias frente aos agentes anônimos da economia global permeados pela lógica dos atores multinacionais[2]. A  soberania do Estado, como espaço de decisão política se vê, em alguns casos, desarticulada frente  ao processo de desterritorialização da economia, pela criação dos blocos regionais _ Mercosul, Nafta_ transformada pela  construção de  novas relações econômicas e políticas em níveis transnacionais.

 

Os partidos políticos nacionais  parecem convergir para uma perda de identidade ideológica  traduzida pela limitação de ação junto as massas  devido aos programas  partidários pouco diferenciados no enfrentamento dos problemas sociais. As questões mais críticas da sociedade como a   crise do desemprego,  da  ampliação da miséria,  da concentração de renda e exclusão, da violência rural e urbana  tornam-se quase um consenso, seja da oposição como da situação. Aliás, uma situação semelhante foi vivenciada durante a  ascensão do  fascismo, nos anos 30, quando esse assumiu em seus discursos, as bandeiras que eram  exclusivas das esquerdas. Dimensões socializantes com profundas bases   junto ao  proletariado levaram  os partidos fascistas a  enfrentarem a oposição dos partidos comunistas e chegarem ao poder[3] .

Estaremos, nesses contexto global sendo  incapazes de olhar esta realidade e perceber alternativas? As experiências das práticas partidárias anteriores mais uma vez ficarão inertes para  uma  distinção  e  uma  ação mais consciente e cidadã ? À mercê de “retrocessos políticos”, do receio da possibilidade de reversão do padrão do Estado Representativo  conduzidos por estratégias de mídia virtualizada  não nos imobilizará ? Por acaso não estaremos sendo  impedidos de criar  uma  outra lógica que rompa com as mesmices  de modo a perceber as fragilidades do sistema?

Sabemos que o olhar é a origem do saber mas que  a visão não é  uma reflexão passiva. Nosso  olhar só permite absorver aquilo que fomos ensinados a ver[4] o que nos instiga a insistir nessa apreensão da realidade com um esforço que supere uma visibilidade formal. Para tanto torna-se necessário aguçar nossa percepção  do olhar e caminhar por outras condições de captar a realidade e se possível for trocar de óculos, mesmo que isso nos traga de início um certo desconforto.

 O filme Madrix, é um desse exemplos. Com todos os seus efeitos especiais, perspectivas inovadoras de pensar um certo tempo futuro não conseguiu superar e  desvencilhar-se da alternativa do herói – o esperado virtual- , o sempre  salvador da  humanidade aguardado para conduzir a sociedade em crise . Não teríamos outra saída? Mais uma vez investiríamos na idealização do sujeito?

O mundo globalizado exige a colocação de  novos paradigmas para a sociedade civil que se  cosmopolitiza de uma  maneira cada vez mais intensa Ao mesmo tempo, devido a aceleração tecnológica e o ritmo alucinante de vida  calcada cada vez mais na individualização  que constrói no presente um “ estado de inquietação”  que obscurece as potencialidades do futuro  impedindo uma maior a reflexão para se cunhar  soluções  e alternativas coletivas . E  mesmo quando elas surgem  a sociedade percebe que logo se tornam obsoletas e superadas diante de uma  realidade difícil de apreender devido ao circunstancial que sempre introduz  novas performances  ( Hobsbawn, 1995).

Diante desse contexto, os olhares das ciências sejam elas as  exatas, biológicas e, principalmente as   ciências sociais se inquietam. São levados a formular outras questões pela necessidade de explicar as relações com a natureza, com  o mundo, com a sociedade e com os indivíduos. Novas abordagens e críticas revendo os sistemas explicativos racionalizantes e  universalistas voltados para o estudo de macroestruturas passaram a ser colocados em pautas[5].  

A ênfase na historicidade, nas diferenças dos sujeitos, das  culturas são os parâmetros a partir dos quais os pesquisadores procedem a revisão dos sistemas explicativos abstratos nas ciências humanas, numa espécie de inquietação “salutar” visando dar maior visibilidade para a vida concreta dos seres humanos em sociedade ( Dias, 1998, p.224).

 Ao garantirem  as  especificidades, a coexistência de  múltiplas temporalidades  e de sujeitos com seus discursos narrativos, esses estudiosos passaram a  colocar em evidência práticas sociais que passaram a ser analisadas e  interpretadas no quadro do processo históricos ampliando significativamente a compreensão da totalidade. A categoria da - “flexibilização”-  conceito formulado para explicar a existência de possibilidades constantemente criadas e recriadas para atender  as demandas sejam sociais, econômicas e  políticas -   passou a ser apontada e sugerida por  alguns teóricos como solução para as constantes crise do sistema capitalista. Seria  uma dimensão a essa questão da multiplicidade,  a criação de categorias tais como: a  argentinização, mexicanização e agora brasilização[6], conceitos dados pelas regionalidades? 

 

O contexto atual com suas conjunturas carecem de maiores  reflexões e principalmente de novos focos de abordagens. Um exame crítico do funcionamento do sistema ideológico e do poder fora dos parâmetros até então traçados pelas construções científicas hegemônicas e universais (J.W.Scott,  1998, p.300) se coloca como uma proposta viável . Trata-se de encontrar uma outra racionalidade cognitiva?

Diante da lógica racionalista em que vivíamos e fomos educados a olhar o mundo, sempre  centrado e organizado em níveis hierárquicos e  distinções de classe, se   instala a  idéia do “ caos   social ” levando os indivíduos diante da suposta crise, a uma busca de  identidade. Nessas buscas  surgem também as explicações  transcendentais,  os apelos fanáticos  torneados de radicalismo, sem dispensar, a procura  do auto conhecimento que ausente de  uma  reflexão das experiências do vivido, introduzem, geralmente, soluções as curto prazo , idealizadas como podemos constatar no consumo da  literatura de auto ajuda que  quase sempre caminha junto e para a   ficção, sem qualquer fundamento de realidade. O  fim da história chegou até mesmo  ser apregoado nessas últimas décadas do século XX.

Para isso apontar para uma abordagem simbólica  buscando  universos significativos na interpretação da  Cultura  torna-se o nosso propósito de modo a  captar  não só o centro mas as periferias do sistema numa mediação que revele e explique as diversidades de um fenômeno que pretende ser visto como global.

 A temática da Cultura

 

Neste diálogo sobre a  “Globalização – Dimensões da Crise Brasileira -   Identidade e  Cultura” somos levados a uma busca de indícios explicativos não só pela curiosidade que a própria investigação suscita mas também por estarmos submetidos, de certa forma a uma mesma experiência  pessoal e coletiva frente a um  tempo e as conjunturas.

Optamos pela   ênfase cultural dos estudos históricos de modo que o nosso olhar se fixe nas representações, nas imagens,  na visão de mundo das comunidades, nos significados transformados em sistemas simbólicos buscando, com isso,  uma outra perspectiva de  análise diante  das  múltiplas  possibilidades de olhares,  de focar e de construir os  objetos (Desan, 1992).

 

 Neste caso,  enfatizamos o papel da  cultura, da história cultural. Modismo ou não,  trata-se de   uma leitura possível dessa realidade complexa em que vivemos nesse fim de século XX e até mesmo um desafio para os  cientistas sociais diante dos velhos modelos explicativos e  das posturas teórico- metodológicas que acabavam impondo regras e criando obstáculos.

 

Uma crítica das formulações explicativas da realidade  não ocorrem sem debates e sem tensões, como podemos, por exemplo, ressaltar a que se deu  entre os historiadores da cultura  e os críticos literários. Após discussões conceituais sobre a análise do discurso conseguiram  encontraram uma relação de homologia  entre o discurso historiográfico e o discurso literário que só veio enriquecer  as possibilidades de abordagens da própria história[7].

 

 A obra literária deixou de ser um mero reflexo do contexto e a história, o seu pano de fundo. Os estudos culturais aproximaram o discurso historiográfico do discurso literário, na medida que ambos passaram a ser considerados manifestações culturais de um certo período onde  os vários discursos que compõem a história de um povo podem ser analisados fora de uma mera relação de causa e efeito.

 

Nessa perspectiva é que propomos refletir sobre a globalização ficando  atentos as questões culturais e as mudanças ocorridas no próprio  campo de trabalho do historiador. Refletindo sobre o tipo de discurso histórico e  da narrativa construída, das funções do saber histórico, como ressaltou  Roger Chartier [8](1994, p.98) e,  também  ao trabalho com as fontes e a  documentação poderemos contribuir para ampliar as vertentes explicativas e do  conhecimento científico e da atuação do profissional da história.

 

Assim, sem o receio de cometer heresia por andar em outros  campos do conhecimento,  uma  nova fase de investigação voltada para as práticas culturais originada nas discussões sobre os fundamentos da história social, podem e devem vir  à tona para responder a  crise de paradigmas, de identidade e de perspectivas .

 

 Diante das novas questões que se colocam e, com o firme propósito de não querer homogeneizar as respostas,  não perderemos, pois  de vista as coisas  minuciosas que podem e devem ser observadas nas relações informais da vida cotidiana, das mentalidades, explicitadas principalmente na busca das singularidades, conforme nos ensinou Sergio Buarque de Holanda.

 

 Dar maior visibilidade aos grupos étnicos, as mulheres, os gays, os camponeses e tipos de trabalhadores são perspectivas que ganham cada vez mais terreno no âmbito dos estudos sociais. Thompson assim o fez ao analisar a classe operária inglesa no séc. XVII; Robert Dartom, ao destrinchar o grande massacre dos gatos à luz dos esquemas simbólicos,  da maneira como as pessoas comuns de uma comunidade conferem sentido ao mundo e Foucault  ao desnudar a tecnologia do poder nas teias de significados, historicizando- as  no tempo.

 

Temos outras referências pontuais  nessa busca das singularidades e que para tanto exige outros olhares e leituras. As observações  acuradas  de  Machado de Assis, um homem do seu tempo que percebia as coisas miúdas do cotidiano de uma sociedade fechada, patriarcal que esforçava-se por torna-se moderna, fornece  uma dessas ricas possibilidades para compreender hoje o mundo que  pretende ser global. Em suas crônicas e contos escritos nos periódicos da época nos demonstrava a importância de um olhar, o dos  míope: 

Enquanto o telégrafo nos dava notícias tão graves, coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus para ver coisas miúdas, coisas que escapam ao maior número, coisas de míope. A vantagem dos míopes  é enxergar onde as grandes   vistas não pegam” ( Jornal, “A Semana, 11/11/1900)[9]

 

Mais sensíveis os estudiosos partem para  trocas de experiências. Uma avalanche de trabalhos interdisciplinares, percorrendo os espaços da cultura e das práticas do vivido criaram a  denominada  “reconciliação”, uma vertente, que se distingue nos meios acadêmicos norte americanos e que ganha também prestígio entre nós.

 

Caracteriza-se  pela  pluralidade,  pela diversidade teórica e temática,  pois abarca não só estudos literários que perpassam as operações da linguagem e da análise do discurso, como a utilização de métodos  antropológicos e sociológicos que  transformam a forma de  análise  captando as diferenças que todas as  sociedades revelam no conjunto das estruturas fundamentais e que esboçam relações múltiplas de vida em determinado momento, lugar e   formas de distribuição de poder.

 

Nesta oportunidade de reflexão sobre Globalização, estamos, assim   apontando para um outro olhar que deve  ater-se aquilo que passa desapercebido e que está, muita vezes,  oculto na rede dos significados, nas construções emblemáticas, nas imagens criadas .

 

No entanto, introduzir nos debates globais a questão cultural, a questão das singularidades com toda a sua diversidade exige  a presença de uma teoria interpretativa da cultura que permita pontuar as explicações e  fazer conexões que possam  fazer parte do nosso suprimento teórico  possibilitando a gestação de   novas problemáticas e respostas .

 

O “ Pantanal conceitual de cultura”, um ecletismo desvairado

 

Explorar algumas tendências das reflexões teóricas sobre cultura que se adensaram já a partir dos anos 70 nos remete, como ponto de partida para o “ pantanal conceptual” sobre a  cultura e o papel desempenhado na vida social .

Revigorando o estudo da cultura Clifford Geertz [10]desencadeou uma fértil discussão que perpassou à diversas áreas do conhecimento. Utilizando-se do trabalho de Clyde Kluckhohn,  em uma introdução a Antropologia,   colocou um pouco de  água na fervura das prolongadas  discussões sobre a definição  de “cultura”   ao  expor a sua  abrangência[11]. Como modo de vida, legado social, forma de pensar e de se comportar, de aprendizagem comum, mecanismos  para regulamentação, conjunto de técnicas, produção de artefatos e uma teoria antropológica podem ser encontrados nesse extenso elenco.

 

Desta maneira a opção pela perspectiva de uma análise que contemple o estudo da(s) cultura(s) na sociedade exige que se faça uma escolha. Isso se dá , devido a presença a um ecletismo desvaraido, plagiando a metáfora criada e usada pelos modernistas paulistas nos anos 20, que se instala  diante da busca de uma  conceituação sobre o que é cultura que não pode perder nada e tudo engloba. Partindo de uma  maneira, do modelo antropológico que reina supremo nas abordagens culturais associado mais precisamente ao estudo da linguagem, encontramos assim,  colaborações pertinentes que já demonstraram algumas saídas promissoras.

 

A perspectiva defendida por Clifford Geertz, (A Interpretação das Culturas, 1989)  trabalha com a história cultural ressaltando o ponto de vista etnográfico,  modalidade antropológica da história que  vê a expressão individual no âmbito de um idioma geral”.

 

Assume  ele, o conceito de   cultura,   como ciência explicativa  cujo objetivo primordial é ler, é decifrar o significado construído pelos contemporâneos. A pergunta não é o que informa o texto, ou a representação, mas como funciona.  Para ele a  cultura seria uma  composição psicológica por meio das quais os indivíduos geram seu comportamento, sua crença, forma de agir e de ser aceito pelo membros de uma sociedade.

 

Formula a teoria da cultura  como  sistema simbólico, organizador das estruturas e de  princípios ideológicos  que constrói o fluxo de comportamento, da ação social, produzindo artefatos e estados de consciência– “ O homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, sendo cultura como essas teias e a sua análise .”(Geertz, 1989,.15).

     

A decifração do significado, mais que a inferência de leis causais é assumida como   tarefa da antropologia cultural, seu campo de atuação e experiência.

 

            Outro grande colaborador na área da cultura é Roger Chartier, intelectual incorporado a 4ª geração dos Annales,[12]. Enfatizou  ele ser as “relações econômicas e sociais como campos de prática cultural e produção cultural”( Lynn Hunt, 1995, p.9-10)

 

Sua investigação não pressupõe um universo simbólico comum e unificado,( questiona o modo interpretativo geertziano) mas se preocupa com as  interpretações das diferenças, na apropriação e uso das formas culturais pela  comunidade, onde é constante a existência de luta e conflito.

 

Defendendo uma a história que seja  sensível às desigualdades e  voltando-se para a diferença distancia-se da comunidade- unidade. Ressalta também que se os historiadores sempre foram críticos diante dos documentos-fontes e que  devem estar também alertas as formas de le-los, pois foram escritos no passado com diferentes intenções e estratégias _ daí preocupar-se com a história da leitura[13]( as dependências da diversidade dos  fatores, tais como idade do leitor, inovações tipográficas).

 

Outro historiador seduzido pela perspectiva cultural é  E. Hoobsbawn( 1995. P18-21) , que sem perder sua tradição marxista, fornece uma  concepção conciliadora   na medida em que  vê a cultura como a  principal responsável pela  construção de fluxos comportamentais que geram artefatos e estado de consciência que emergem da maneira do seu uso e  que  movimentam a ação social  engendrando, portanto no vivido formas distintas de ver e de ser . Sua concepção se aproxima de Geertz.

 

Diante desses pressupostos, passamos a  focar  mais especificamente o Brasil no quadro da globalização. País de comprovada diversidade cultural  devido as raízes nativas, ibéricas e africanas  que aprenderam a conviver em uma mesma territorialidade . Um   “policulturismo”  nos revela as diferenças e ao mesmo tempo uma capacidade incrível  de conviver com elas – a  desordem do progresso x modelo universal do moderno  e  a compreensão de  uma categoria de análise já apontada acima como  de  “ brasilização” ( Ulrich Beck, 1999)  que apesar de receber críticas pontuais (Giddens, 1999)., pode indicar uma abordagem rica pela possibilidades que ela oferece, principalmente para explicar nosso contraditório processo histórico que faz conviver práticas de relações sociais arcaicas e modernas.

 

Tomando como referenciais a presença de  múltiplas representações  e a existência dos  significados construídos na sociedade brasileira  podemos entender alguns estudos mais recentes, inclusive  sobre  a cultura na  América, onde  é possível afirmar  que não houve um processo de miscigenação tendo como principio organizador  a cultura européia. As culturas índias e negras, através do uso da razão, mantiveram suas especificidades ao  dissimularem práticas, compreenderem as diferenças e construírem  respostas ao europeu ,na condição de informantes, participando  assim e com certa autonomia cultural de uma racionalidade comunicativa ( Theodoro, 1992, p.12-13).  Precisamos apenas  retomar as formulações refazendo o caminho com outro olhar de modo a perceber que a nossa identidade passa necessariamente pela grande diversidade que fomos e ainda  somos.

 

Assim ao pensarmos na existência dessa  diversidade cultural, nas representações propostas pelo poder ou pela força de  grupos, nas  construções das identidades sociais e culturais engendradas torna-se possível realizar novas explicações e com isso (re)construir a identidade(s). Desvelando as modalidades do fazer-crer,  as formas da crença, torna-se possível revelar “ uma história das forças simbólicas, uma história da aceitação e  rejeição pelos dominados dos princípios inculcados, das identidades impostas que visam assegurar e perpetuar sua dominação” ( Chartier,  1994, p.108).

 

Uma contribuição da história  das mulheres

 

Nessa conjuntura a história das mulheres pode oferecer valiosas contribuições  seja no campo teórico seja metodológico.  Enquanto uma questão, fora colocada  no cerne de uma história das mulheres que tomou  fôlego a partir dos anos 70 nos Estados Unidos e no Brasil.  Pensando em garantir a especificidade e a diferença dos sujeitos , no caso as mulheres, até então restritos ao anonimato e ao silêncio intencional, buscou-se uma explicação mais concreta na hermenêutica que   recebeu um grande impulso com as pesquisas de historiadoras que  passaram a investigar o cotidiano, as relações de gênero, a família, as práticas sociais femininas e  as instituições.[14]

 

Ao tomar as mulheres como objeto de análise,  percebendo sua inserção da sociedade foi possível construir concretamente os sujeitos, saindo da abstração e  da idealização que reforçavam estereótipos e com isso denunciar as formas de ocultamento do poder e o  desvelamento das relações de dominação .

 

Ao trabalhar, por exemplo,  com as  mulheres ferroviárias, no cotidiano nos anos 30-40 foi possível revelar não só as práticas sociais mas as estratégias do Estado Novo em construir dispositivo simbólicos que reforçavam o  próprio  discurso masculino que aliás foi interiorizado pelas próprias mulheres na construção de uma identidade nacional que mais uma vez selecionava e modelava sua inserção no espaço público em São Paulo [15].

 

 As constantes figuras do imaginário masculino, ocupando sempre o lugar e o centro das decisões,. as representações da inferioridade feminina,  repetidamente mostrada e colocada às margens acabaram instalando-se no pensamento e nos corpos dos homens e mulheres reforçando as imagens da mulher de família no espaço privado e de mulher pública. Como aquela de todos.

 

A distância entre o masculino e feminino pode ser datada historicamente a partir das representações e discursos médicos que criaram uma  anatomia e  fisiologia da diferença que inscrita nas práticas sociais e nos fatos organizaram a realidade.

 

Assim, se olharmos processo contraditório da globalização vivenciados por todos nós e,  tomarmos a cultura como referência e categoria de análise, seja a partir da análise da teia de  significados como um sistema simbólico que organiza as estruturas e princípios ideológicos , controlando o fluxo comportamental, seja observando a construção das  representações coletivas que incorporam nos indivíduos às divisões do mundo social bem com as diferenças de gênero possamos entender que, nos brasileiros,   não vivemos uma crise de identidade, mas talvez um processo de desvelamento das  construções simbólicas permitindo uma melhor compreensão das representações elaboradas.

 

Ser mulher na grande diversidade cultural das sociedades não é apenas assumir a maternidade  como uma alegoria feminina para representar a República, nem mesmo o símbolo ideal para a humanidade geradora de filhos para a pátria, nem a rainha submissa e domesticada no  espaço hierarquizado do lar ( Carvalho,1990,p.75-87).

 

 Ser mulher é uma identidade a ser construída a partir de um olhar crítico,  talvez,  o olhar do míope machadiano,  mais intencional,  concentrado que  aperta os olhos para não dispensar e assim poder  situá-la  objetivamente diante de sua própria  presença, em relação a seu modo de ser, da sua comunidade. E com isso  poder  questionar a  sua   invisibilidade, a  sua ausência de direitos, o seu desempenho em papéis prescritos a que  sempre foi destinada e os fundamentos de sua própria existência.

 

Um olhar mais apurado e concentrado  sobre o fenômeno da globalização que recupere as singularidades e a diversidade cultural, como no  discurso  literário que pensa a historicidade do texto ,  percorrer e sintonizar as diferenças  abrindo um outro campo de possibilidades . É preciso apenas, que elas as diferenças  sejam captadas por um outro olhar.  Como a de nossa personagem que no meio de suas tarefas e  mesmice cotidianas pode ver-se e conscientizar-se das alternativas e do devir:

 

“ Ela pisando nas pontas dos pés e parando diante da porta o escritório do seu marido, bateu lentamente, com movimentos leves e  sutis, preocupada em  não perturbar  receosa, sempre, de interromper  algo sério. Queria lhe oferecer um cafezinho, porém sabia que do seu escritório, igual ao seu pai,: vinha o humor do dia...

  “ Onde tinha vivido? A coisa tinha sido preparada. De repente sentiu a necessidade de repensar sua vida lucidamente, num enfoque diferente.”(  Grazia Livi, “As letras do meu nome”, 1996, p154)[16]

 

 

Bibliografia

 

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[1] Professora de História  da UNESP. Palestra proferida no Curso de Extensão promovido pelo Deptº de Ciências Políticas e Econômicas da UNESP, campus de Marília em junho de 1999

[2] As fortunas se concentram em mãos de poucos. A revista Forbes de 1996 identificou apenas 200 homens mais ricos do mundo, sendo,  sete norte americanos, onde destaca-se Bill Gates, um saudita, um alemão e um chinês.

[3]  Nicos Poulantzas, Fascismo Y Ditadura. Porto , Portucalenses, 1972, p.94. Antonio Gramsci. em sua autocrítica, “porque fomos vencidos?”  numa carta dirigida à Voce della Gioventu de Milão, descoberta em 1973, colocava a questão da vitória do fascismo não somente como “ uma reação armada do capitalismo, segundo ingênua análise da II Internacional”, mas uma estratégia especialmente armada para seduzir a pequeno burguesia e que desarticulou os partidos proletários minando  suas bases e palavras  de ação diante de alguns operários que se tornaram fascistas Ver trabalho de  Maria Antonietta Macciochi, “ Gramsci e a questão do Fascismo”, ( mimeo), 1988.

[4]  Ver reflexões de Joan Scott em “ A Invisibilidade da Experiência”, In: Projeto História, Revista do Programa de Estudos  de Pós-Graduação  em História da PUC .São Paulo: EDUC, nº 16, fev/98, p.297-325

[5] Autores como Jacques Derrida, Michel Foucault, Jurgen Habermas, Giles Deleuze  que abriram novos caminhos na contracorrente dos grandes sistemas de explicação da linguagem e do pensamento foram incorporados no Brasil pelos  trabalhos de   Maria Odila Silva Dias  ao tratar da hermenêutica do cotidiano e  de  Nicolau Sevcenko ao explicar a urbanização e a modernização em São Paulo nos anos 20.

[6] Termo cunhado pelo sociólogo Ulrich Beck “O Admirável Mundo do Trabalho”, de 1998, para lançar uma “ plataforma  conceitual” para as políticas de combate ao desemprego em massa na Europa onde o autor   associa com as condições de  feminilização do trabalho, uma vez que as mulheres sempre  enfrentaram no seu cotidiano  a diversidade de  papéis, de experiências e atividades seja no mundo do privado, seja no público.

 

[7] Daí nasceu o movimento crítico do “ new historicism[7], originado nos Estados Unidos, em 1988, baseando-se nas noções da teoria dos discursos de Foucault e do relativismo desconstrucionista de Jacques Derrida que  veio corroborar para a integração da literatura no âmbito dos signos sociais de modo a restaurar a historicidade do texto e a textualidade da história. Ver a discussão que Clifford Geertz, antropólogo que trabalha com a história cultural, faz sobre o “ paradigma dos Annales” reforçando uma antropologia histórica e uma preocupação com os textos históricos em uma  dimensão literária. Ver Aletta Biersack, “ Saber Local, História Local: Geertz e Além”, In: Lynn Hunt, A Nova História cultural, 1992, p.98-130

[8] Ver a análise realizadas por Roger Chertir em “ A História Hoje: dúvidas, desafios, propostas. In: Estudos Históricos”, Rio de janeiro, vol,7, n.13, 1994, p.97-113

[9] Citado por Nicolau Sevcenko, em História da Vida Privada no Brasil. República: da belle Époque à Era do Rádio. V.3. São Paulo, Cia. das Letras, 1998, p.7

[10] Sua obra pontual , “ A Interpretação das Culturas” ( Prêmio Sorokin da Associação Sociológica Americana, 1974) foi resultado de estudos empíricos, a partir da   área antropológica que  teve uma repercussão imediata junto aos estudiosos das ciências sociais.

[11] A definição de cultura engloba: o modo de vida global de um povo; o legado social que o indivíduo adquire do seu grupo; uma forma de pensar; uma abstração do comportamento; uma teoria elaborada pelo antropólogos, sobre a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente; um celeiro de aprendizagem comum; um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes; comportamento apreendido; um mecanismo para regulamentação normativa do comportamento; um conjunto de técnicas para se ajustar tanto ao ambiente externo como em relação aos outros homens; um precipitado da história, ou ainda uma peneira, um mapa,  uma matriz, uma ferramenta qualquer. Ver em Clifford Geertz, A Interpretação das Culturas, Rio de janeiro, LTC, 1989, p.14

 

[12] Revista de História Econômica e Social fundada em 1929 por Marc Bloc e Lucien Febre que  nos anos 80 efetuou um brusco desvio para a história da cultura, das funções semióticas da  linguagem e das mentalidades

[13] Ver de Roger Chartier, “ Tetxo, Impressão , Leiturasa” In:  In: Uma nova Historia Cultural, op. Cit. P.211-238

[14] Trabalhos como o de M. Odila Leite da Silva Dias, “ Quotidiano e Poder em S. Paulo no Século XIX”, São Paulo,  Brasiliense,1984; Rachel Soihet, “ Condição Feminina e Formas de violência. Mulheres Pobres e ordem Urbana ( 1890-1920) Rio de Janeiro, Forense, Universitária, 1988;M. Tereza Caiuby C. Bernardes, “ Mulheres de ontem? Rio de Jjaneiro no séc. XIX”, São Paulo, T. A Queirós, 1988; June Hahner, “ A Mulher Brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937”, São Paulo, Brasiliense, 1978;Teresa Laurentis, “ A tecnologia do Gênero” In: H. Buarque de Holanda (org) Tendências e Impasses. O feminismo como crítica da Cultura”. Rio de  Janeiro, Rocco, 1994; Miriam Moreira Leite, “ Outra Face do feminismo: Maria Lacerda de Moura”. São Paulo, Ática, 1984;E. M. Lopes, “A  educação da Mulher: a feminização do magistério”. In: teoria e educação, n.4, 1991 Marina Maluf, “Ruídos da Memória”, São Paulo, Siciliano, 1995;Marina Massi, “ Vida de mulheres, cotidiano e imaginário. Rio de Janeiro, Ímago, 1992; Eni Samara, “ As mulheres, o poder e a família – São Paulo, sé. XIX”. São Paulo, Marco Zero/ANPUH, 1989.

[15] Ver LidiaM. V. Possas, “ Mulheres , Trens e trilhos. Beirando uma história do impossível. Tese de doutorado, USP, 1999

[16] Gostaria de agradecer a Tullo Vigevani e a Flavia Arlanch , colegas do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da UNES por terem apontado questões importantes que  me levaram a  reelaborar  alguns aspectos deste artigo e também por seus esclarecedores comentários.