Estado
Globalizado
· cidadania high tech: afirmação e negação da tecnologia
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Dr. Vinício Martinez (Univem)
Hoje em dia, talvez a cidadania tenha-se tornado a categoria social e política mais difícil, ardilosa, complexa ou complicada para se tratar e definir. Nesse curso, pensando a cidadania ou modalidades de cidadania, poderíamos indicar os tipos clássicos que ainda configuram a reflexão, como: cidadania ativa, participativa, formal, eleitoral, democrática, popular, social e tantas outras configurações ou adjetivações possíveis. Porém, para o texto, penso em um modelo que me parece mais indicativo do tipo de poder, comando, mando e organização política global: um tipo de cidadania que amplia ou se retrai, conforme se aproxime dos pólos de referência.
De qualquer forma, sugere-se que o miolo, a parcela de vida e ação política das massas esteja bastante esvaziado, isto é, a cidadania existe em plenitude somente no ápice da pirâmide política, decaindo ao nível da representação (democracia representativa) e, praticamente, desaparecendo nas bases, onde predomina um misto de apatia, desinteresse, populismo, desinformação. É uma avaliação pejorativa da política, sem dúvida, mas que nos aponta a indicação de que a política está seguindo um curso de polarização crescente: portanto, ao contrário do que o próprio título sugere, teríamos uma cidadania pejorativa e não global[1].
Essa modalidade pode ser denominada de cidadania ampliada ou de cidadania globalizada, ainda que de forma mais limitada, pois podemos entender como o conjunto de condições objetivas (individuais ou globais) que conformam, respaldam explicam as condições que projetam os conteúdos políticos individuais no nível global. Caso típico dos líderes nacionais ou regionais com prestígio e inserção internacional, como o sub-comandante Marcos, líder zapatista no México: este que seria um caso ainda mais típico, entretanto, se tomarmos a revolução zapatista como o emblema da cidadania ampliada pelo uso político e intenso da tecnologia, especialmente a Internet, e por isso também entendida como cidadania global ou globalizada (plugada!). Bush e Saddan, seguidos de Tony Blair, especialmente em decorrência da Guerra do Golfo 2, a mais espetacular das guerras, a guerra de imagens bombásticas (com transmissão e entonação ao vivo, com tomadas presenciais de bombas iluminadas que caem de um céu escuro) entoam os exemplos ou símbolos mais negativos atuais (inimigos nº 1 e nº 2 do mundo), pois só angariam impopularidade: Osama Bin Laden, sobretudo no Brasil, é fonte de comicidade, piadas e ironia[2] – a mais forte, rápida e eficaz forma de reação pacífica que solapa toda fonte e reserva de legitimidade, deferência, credibilidade, identidade e respeito público[3]. A lógica também se aplica a diretores ou responsáveis por ONGs transnacionais, movimentos de antiglobalização ou, ainda, movimentos sociais, ecológicos ou populares que agem, reagem e trazem os símbolos e significados em si mesmos – para além da representação ou mera apostação ideológica porque se realiza na prática, como o Greenpace ou a Anistia Internacional.
De um passado político mais remoto, podemos retomar a figura do inglês Thomas Paine, autor de Os direitos do homem, que atua de forma marcante na Revolução Americana e, depois, na Revolução Francesa (cidadania revolucionária cosmopolita): na Internet, veja-se, por exemplo, http://www.terra.com.br/voltaire/politica/rousseaupaine.htm. Mais recentemente, há inumeráveis casos, autores e situações, mas vale citar os nomes de Lênin, Trotsky e Stalin que, nos momentos de maior expressão de suas lideranças políticas pessoais, ressoaram pelo mundo afora – Trotsky foi assassinado no México!
Bem mais próximo de nós, a regra ainda se aplica a Yasser Arafat, o líder palestino (versus o líder de Israel, Ariel Sharon, acusado há décadas de extermínio e limpeza étnica), que conseguiu, graças a uma habilidade política pessoal (e ainda que posando de santo, como na célebre foto na Casa Branca recebendo os cumprimentos de Bill Clinton) transformar suas reivindicações religiosas em apelos mundiais pela liberdade, pela defesa ou reconhecimento da soberania do Estado da Palestina e pela luta intransigente pelo direito humano da autodeterminação do povo palestino. Em suma, tudo isso constitui exemplos de ação/reação no espectro micro e macro, pois o foco aplicado ao emprego da própria política depende da avaliação de marketing, da imagem, da censura latente da opinião pública nacional e internacional – com ações/reações que tendem cada vez mais a ser cada vez menos reativa, impulsiva, intempestiva, descalibrada ou descabida (a Líbia saiu de cena, deixou o palco, a arena, o cenário, o campo de demonstração faz tempo, e ainda que pesasse contra os vários incidentes bélicos e diplomáticos com os EUA – financiando a Al-Qaeda? Kadafi, a antiga face do mal, perdeu toda sua visibilidade e isso contando que chegou a rivalizar com Fidel Castro).
Como acentua , a política na globalização é virtual, e só será realizada (a melhor expressão é atualizada) quando confrontada ao uso crescente dos recursos tecnológicos, e isso desde um passado nem tão presente, mas sempre indicando o futuro:
“O fundamentalismo é um filho da globalização, e reage contra ela ao mesmo tempo em que a utiliza. Em quase toda parte os grupos fundamentalistas fizeram um amplo uso das novas tecnologias da comunicação. Antes de chegar ao poder no Irã, o aiatolá Khomeini pôs em circulação filmes e gravações de seus ensinamentos. Militantes hindutwas fizeram intenso uso da Internet e do correio eletrônico para criar um “sentimento de identidade hindu (...) A força motora das revoluções de 1989 foi a democracia, ou a autonomia. E a difusão da democracia (...) foi fortemente influenciada no período recente pelo avanço das comunicações globais” (Giddens, 2000, p. 59-78).
Pouco vai à TV CNN, mas Dalai Lama, literalmente, não sai da Internet. Todo dia circula uma corrente (que você não deve quebrar) em defesa de algo, com texto escrito em seu nome, numa clara mistura de marketing e meio de angariar credibilidade e crédulos em prol de alguma causa – hoje, a libertação do Tibete já é secundária: sua pregação tenta afirmar-se como humanista, cosmopolita, pluricausal, transnacional.
Nesse contexto, percebe-se uma cidadania que já se fez como rizoma, horizontalmente, crescendo em lateralidade, nivelamento, sendo expansiva e até panfletária (a menos pior forma de organização política: sem se preocupar em ser a melhor?) e que, conclusivamente, logicamente, proporcionalmente, deveria agora se aprofundar como pilão, raiz profunda, e que lhe dê sustentação, estabilidade e alcance. Infelizmente, percebe-se de modo claro como o entendimento da política e a tecnologia ainda estão muito distantes do cotidiano, do imaginário, da realidade das pessoas – e mesmo que o acesso às tecnologias esteja bem mais difundido do que pareça (é comum ouvir-se a expressão: “— as favelas, periferias e zonas agrícolas estão recheadas[4] de antenas parabólicas e de celulares”).
É uma cidadania high tech que, ironicamente, se vê afirmada e negada pela mesma tecnologia que a investiu de modernidade, a exemplo da reconhecida exclusão digital ou dos mísseis guiados por satélite, nessa que tem sido chamada de a primeira guerra pós-moderna: com a trituração ao vivo dos quatro mil anos de história da humanidade desenvolvidos em Bagdá.
Essa cidadania virtual que deverá acentuar cada vez mais o que também se convencionou chamar de ciberativismo, um tipo de requisição política em que grupos, indivíduos, coletividades ou simples hackers ativistas ou simpatizantes de alguma causa invadem e destroem sites considerados oposicionistas, adeptos de causas adversárias ou simplesmente porque não são simpáticos às causas. É o caso exemplar da guerra do Iraque x EUA, em que os dois lados foram bombardeados virtualmente:
Hackers contrários e favoráveis à guerra do Iraque
estão espalhando suas mensagens através da invasão de sites de web, em uma
demonstração de "ciberativismo", levando palavras de ordem e a velha
lata de tinta spray para uma nova era (...) "Este é o futuro do
protesto", disse Roberto Preatoni, fundador da Zone-H, empresa estônia que
monitora e registra ataques de hackers. Desde que a guerra no Iraque começou na
semana passada, a empresa registrou mais de 20 mil ataques em sites de internet
(...) A vítima mais notável foi a Al Jazeera, emissora de TV sediada no Catar
que ofendeu muitos ocidentais esta semana quando colocou no ar imagens de
soldados britânicos e norte-americanos mortos e prisioneiros de guerra (...) O
site em árabe (www.aljazeera.net)
conseguiu entrar novamente no ar hoje, mas o acesso à versão em inglês continuou
impossível, resultado dos repetidos ataques desde a segunda-feira (...) Do
outro lado do front cibernético, centenas de empresas e sites governamentais
britânicos e norte-americanos foram invadidos por mensagens pacifistas,
disseram especialistas em segurança (...) Especialistas em segurança de
internet não acreditam nas acusações de que governos patrocinem esse tipo de
iniciativa — os hackers são tipicamente associados a grupos privados ou
indivíduos (Reuters, 28/03/2003).
.
E por mais que peça pelo cessar fogo, tanto nas batalhas virtuais
quanto nas reais, pois os danos pessoais, morais, materiais são imensos, temos
sempre de nos lembrarmos que as histórias dos regimes e das políticas fascistas[5]
são feitas exatamente pela queima das informações, das fontes dessas
informações e dos próprios informantes e agentes ou sujeitos da informação.
Temos sempre de lembrar do sombrio episódio nazista da queima dos livros
subversivos, sobretudo livros considerados comunistas ou semitas.
Hoje, alguns crêem:
"As pessoas não tolerariam grupos que queimassem livrarias. Elas não
deveriam tolerar o equivalente on-line", disse Ian Brown, diretor da
Fundação de Pesquisa em Política da Informação, uma organização britânica”
(Reuters, 28/03/2003).
De fato, será que as pessoas não tolerariam a queima ou saques de
livrarias e da cultura que elas guardam? Esse ciberativismo, tal qual
demonstrado, não configura as mesmas tentativas de aniquilamento das
divergências culturais e religiosas[6]?
Bibliografia
Alves, G. & Martinez, V. Dialética do Ciberespaço: trabalho, tecnologia e política no capitalismo global. Bauru-SP : Editora Document Arminda, 2002.
Guerra dissemina ataques de hackers ativistas a sites na web. Agência Reuters, em Londres (Reino Unido), 28/03/2003 - 18h52.
Guiddens, A. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro : Record, 2000.
[1] Cabe a nossa própria atitude política ou tomada de posição definir qual modelo, teoricamente, deveria prevalecer.
[2] Especialmente, veja-se Revolução e Cultura (Ianni, 1983).
[3] É evidente que a análise só é válida quando tomamos esses traços como valores públicos necessários e positivos.
[4] Quem diria que estão coroadas?
[5] As ditaduras militares têm o mesmo escrutínio de confiscar e destruir a cultura, em prol do “bem maior”.
[6] Não se esquece aqui o avanço aliado sobre as reservas petrolíferas.