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Manifesto Cibercomunista RICHARD BABROOK COMO OS AMERICANOS ESTÃO SUPERANDO O CAPITALISMO NO
CIBERESPAÇO "A ideologia
desenvolvida na Califórnia se apropria do legado teórico stalinista"
(RICHARD BARBROOK) Um espectro assombra a
Internet: o espectro do comunismo. Refletindo a extravagância da nova mídia,
esse espectro assume duas formas distintas: a apropriação teórica do
comunismo stalinista e a prática cotidiana do cibercomunismo. Sejam quais forem suas
posições políticas professas, todos os usuários da Internet participam com
entusiasmo desse "revival'' esquerdista. Quer seja na teoria ou na
prática, cada um deles anseia pela transcendência digital do capitalismo. Ao mesmo tempo, porém,
nem mesmo o mais convicto esquerdista pode continuar acreditando realmente no
comunismo. Depois da queda do Muro de Berlim e da implosão da União
Soviética, a ideologia comunista ficou totalmente desacreditada. As promessas de
emancipação social se transformaram nos horrores do totalitarismo. Os sonhos
de modernidade industrial levaram à estagnação econômica. Longe de
representar o futuro, o comunismo hoje é visto como relíquia do passado. Mais do que qualquer
outra coisa, a União Soviética foi incapaz de liderar a revolução da
informação. As estruturas políticas e econômicas do comunismo stalinista eram
inflexíveis e fechadas demais para permitir o surgimento de um novo paradigma
tecnológico. Como poderia o partido
totalitarista permitir que todos produzissem mídia sem sua fiscalização? Como
poderia o órgão de planejamento central tolerar que produtores formassem
redes em colaboração, sem autorização sua? Para que a Internet
pudesse surgir, era preciso uma sociedade muito mais aberta e espontânea.
Instigados pelo potencial libertário da convergência digital futura e maior,
os defensores de quase todas as ideologias radicais vêm atualizando suas
posições. Mesmo assim, não se vê nenhuma versão nova da corrente antes
dominante do comunismo stalinista entre as ciberfeministas, os guerrilheiros
da comunicação, os tecnonômades e os anarquistas digitais de plantão. Mesmo
seus acólitos anteriores reconhecem que a União Soviética apresentava os
mesmos erros do fordismo: autoritarismo, conformismo e degradação ambiental
(Hall e Jacques, 1989). Os ideólogos do
neoliberalismo norte-americano aproveitaram essa oportunidade para
reivindicar o futuro em seu nome. Há quase 30 anos eles vêm prevendo que as
novas tecnologias iriam gerar uma civilização utópica: a sociedade da
informação. O casal Toffler, por exemplo, se convenceu há muito tempo de que
a convergência da informática, das telecomunicações e da mídia iria libertar
os indivíduos tanto das garras das grandes empresas quanto do governo
onipresente (Toffler, 1980). Do mesmo modo, Ithiel
de Sola Pool previu que a televisão interativa permitiria que todo o mundo
fizesse sua própria mídia e participasse dos processos decisórios políticos
(De Sola Pool, 1983). Apesar de sua retórica
radical, o interesse maior desses eruditos conservadores era provar que as
tecnologias da informação obrigariam à privatização e à desregulamentação de
toda atividade econômica. Seu futuro pós-fordista era um retorno ao passado
liberal. Quando a Internet se
popularizou, esse fundamentalismo de livre mercado não demorou a ser adaptado
para adequar-se à nova realidade. Numa instância que se tornou célebre, a
revista "Wired" argumentou que o chamado "novo paradigma"
da concorrência não regulamentada entre ciberempreendedores está ampliando a
liberdade individual e encorajando a inovação técnica nos EUA (Barbrook e
Cameron, 1996). À medida que a
Internet se estende pelo mundo, os valores materiais e espirituais do
neoliberalismo americano vão acabar por se impor a toda a humanidade. Na
explicação de Louis Rossetto, o editor fundador da
"Wired":"Este novo mundo (da Internet) se caracteriza pela
presença de uma nova economia global que é inerentemente anti-hierárquica e
descentralista, que desrespeita as fronteiras nacionais e o controle exercido
por políticos e burocratas... e por uma consciência global, interligada em
rede... que está transformando... a política eleitoral falida... num beco sem
saída" (Hudson, 1996: 30) Os literatos
digitais O narcisismo da
ideologia californiana reflete a autoconfiança de uma nação vitoriosa. Com a
Guerra Fria vencida, os EUA deixaram de ter rivais militares ou ideológicos
sérios. Mesmo seus rivais econômicos na União Européia e no Leste asiático já
foram superados. Segundo a maioria dos
comentaristas, o renascimento da hegemonia americana se fundamenta na posição
de liderança que o país ocupa nas novas tecnologias da informação. Nenhum
país tem condições de rivalizar com as "armas inteligentes" das
Forças Armadas americanas. Poucas empresas podem competir com as
"máquinas inteligentes" usadas pelas grandes empresas americanas.
Os EUA dominam, sobretudo, a vanguarda da inovação tecnológica: a Internet.
Concretizando o sonho americano, alguns poucos de muita sorte fazem fortunas
enormes, oferecendo as ações de suas empresas de alta tecnologia em Wall
Street (Greenwald, 1998). Muitos outros,
fascinados pelo potencial lucrativo do comércio eletrônico, usam suas
economias para especular nas ofertas públicas de ações de empresas que atuam
na nova mídia (...).Apesar de toda a riqueza que vem sendo gerada pelas
inovações tecnológicas, o abismo entre ricos e pobres continua a crescer nos
EUA (Elliott, 1999). Contrastando com as
formas européias e asiáticas de capitalismo, o neoliberalismo americano
consegue combinar progresso econômico com imobilidade social. Desde a
Revolução Francesa de 1789, os conservadores estão à procura da união de
opostos que é o modernismo reacionário (Herf, 1984). Embora necessárias à
sobrevivência do capitalismo, as implicações sociais do crescimento econômico
sempre assustaram a direita política. A longo prazo, a industrialização
contínua vai enfraquecendo os privilégios de classe. À medida que sua renda
cresce, as pessoas comuns conseguem influir cada vez mais sobre as
preocupações políticas e as atitudes culturais da sociedade. Como resultado,
gerações sucessivas de conservadores vêm enfrentando o dilema de como
reconciliar expansão econômica com estase social. Apesar de suas divergências
ideológicas, todos propõem a mesma solução: a formação de uma aristocracia da
alta tecnologia (Nietzsche, 1961; Ortega y Gasset, 1932). As primeiras versões
dessa fantasia reacionária enfatizavam a divisão hierárquica do trabalho, sob
o fordismo. Ao mesmo tempo em que o sistema industrial destruiu muitos tipos
de trabalho especializado, criou novos "especialismos". Dentro do
fordismo, engenheiros, burocratas, professores e outros profissionais
formavam uma camada intermediária entre a direção das empresas e o chão da
fábrica (Elger, 1979). Diferentemente da maioria dos funcionários, esse setor
da classe trabalhadora tinha renda alta e conseguia escapar da subordinação à
linha de montagem. Temerosos de perder seus privilégios restritos, alguns
profissionais se tornaram defensores acirrados do modernismo reacionário. Em
lugar de lutar pela igualdade social, sonhavam em fundar uma nova
aristocracia - a tecnocracia (...). Durante os anos em que
o fordismo chegou ao auge, a nova classe dominante estava sendo formada,
supostamente, pelos administradores e outros profissionais de grandes
empresas e departamentos governamentais (Burnham, 1945). Mas, quando a
economia entrou em crise, no início da década de 70, os intelectuais de
direita foram obrigados a procurar apoio em outros setores da camada
intermediária. Inspirados por
Marshall McLuhan, não demoraram a descobrir as pessoas, em número cada vez
maior, que estavam desenvolvendo novas tecnologias da informação (McLuhan,
1964). Há quase três décadas os gurus conservadores vêm prevendo que a nova
classe dominante será composta de capitalistas de investimentos, cientistas
inovadores, hackers, gênios, astros da mídia e ideólogos neoliberais - os
"digerati" ou literatos digitais (Bell, 1973, Toffler, 1980 e
Kelly, 1994). Buscando popularizar
suas previsões, eles sempre afirmam que todo profissional de alta tecnologia
tem a oportunidade de integrar-se a essa nova aristocracia. Dentro das
indústrias convergentes, trabalhadores qualificados são essenciais para o
desenvolvimento de produtos originais, tais como programas de software e
criação de sites. Como acontece com muitos de seus pares, a maioria dos
artesãos digitais convive com a insegurança do trabalho por contrato. Ao
mesmo tempo, porém, são mais bem pagos e têm mais autonomia em seu trabalho.
Como no passado, essa posição social ambígua pode encorajar a ingenuidade e
credulidade em relação ao modernismo reacionário. Perseguindo o sonho
americano, muitos trabalhadores de alta tecnologia nutrem a esperança de
ganhar milhões, fundando sua empresa própria. Em lugar de identificar-se com
seus colegas trabalhadores, anseiam por penetrar nas fileiras dos literatos
digitais, a nova tecnocracia da Internet (Kroker e Weinstein, 1994). À diferença do que
acontecia com as formas anteriores de conservadorismo, esse desejo de
dominação sobre outros já deixou de ser expresso abertamente na ideologia
californiana. Em lugar disso, seus gurus afirmam que o domínio dos
"digerati" vai beneficiar a todos - pois eles são os inventores de
máquinas sofisticadas e os aperfeiçoadores dos métodos de produção. São os
pioneiros que lançam os serviços de alta tecnologia que, com o passar do
tempo, passarão a ser desfrutados por toda a população. Com o tempo, vão
transformar as restrições do fordismo nas liberdades da sociedade da
informação. As conciliações e os acordos da democracia representativa serão
substituídos pela participação pessoal no interior da "Câmara Municipal
eletrônica". Os limites impostos à criatividade pessoal pela mídia
existente serão superados por formas interativas de expressão estética. Até
mesmo os limites físicos do corpo serão transcendidos no ciberespaço. Na
ideologia californiana, a autocracia de poucos, a curto prazo, é necessária
para que se possa alcançar a libertação de muitos a longo prazo (Toffler,
1980, Kelly, 1994, Hudson, 1996 e Dyson, 1997). "Não mais 'os que
têm' e 'os que não têm', mas 'os que têm agora' e 'os que terão mais tarde''
(Rossetto, 1996) (...). Stálin no Vale do
Silício (...) A queda da União
Soviética não pôs fim à influência teórica exercida pelo comunismo stalinista
sobre os intelectuais americanos de direita. Pelo contrário _a missão global
dos Estados Unidos fora confirmada pela vitória americana sobre sua rival
totalitária. Segundo um apologista do neoliberalismo americano, este é hoje a
realização do "fim da história" hegeliano. As guerras e os
conflitos vão continuar existindo, mas já não existe nenhuma forma
alternativa de sistema socioeconômico (Fukuyama, 1992). Para os proponentes da
ideologia californiana, essa premissa narcisista é comprovada pelo domínio
americano sobre o que existe de mais avançado na modernidade econômica: a
Internet. Se outros países também quiserem ingressar na era da informação,
terão que imitar o sistema social peculiar aos EUA. Como seus antecedentes na
Guerra Fria, essa celebração contemporânea do neoliberalismo americano se apropria
de muitas das premissas teóricas do stalinismo. Mais uma vez, a
minoria esclarecida lidera as massas ignorantes no caminho a uma civilização
utópica. Qualquer sofrimento causado pela introdução das tecnologias da
informação se justificaria pela promessa de libertação futura (Hudson,
1996:33). Ecoando o tirano russo, os literatos digitais chegam a ponto de
medir o progresso feito no caminho para a utopia pela quantidade de artefatos
modernos que as pessoas possuem: computadores em casa, bips, telefones
celulares e laptops (Katz, 1997: 71-72). Embora a União
Soviética tenha desaparecido há tempo, os proponentes da ideologia
californiana continuam a apropriar-se do legado teórico do comunismo
stalinista, como pode ser constatado pelas seguintes correlações: Partido de
vanguarda/literatos digitais Plano quinquenal/o
"novo paradigma "Garoto conhece
trator/nerd conhece Internet Terceira
Internacional/Terceira Onda Moscou/Vale do Silício "Pravda"/"Wired" linha
partidária/pensamento único democracia soviética/"Câmaras
Municipais eletrônicas" Sociedade-fábrica/sociedade-colméia Novo homem
soviético/pós-humanos Quebra das regras
stakhanovistas/profissionais temporários, sobrecarregados de trabalho Expurgos/"downsizing"
(demissões em massa) Nacionalismo russo/chauvinismo
californiano (....) A estrada para o
comunismo (...) Em épocas
anteriores, a abolição do capitalismo era imaginada em termos apocalípticos:
levantes revolucionários, mobilizações de massa e ditaduras modernizadoras.
Contrastando com essas idéias, o cibercomunismo que existe hoje é uma
experiência cotidiana nos EUA, algo que não tem nada fora do comum. Os
usuários da Internet adotam espontaneamente maneiras mais prazerosas e
eficientes de trabalhar em conjunto. Em lugar de destruir a economia de mercado,
os americanos empreenderam o processo lento de superação do capitalismo
(Hegel, 1873: 141-142; Marx, 1961: 98-114). Nesse movimento
dialético, neoliberais adeptos da alta tecnologia aperfeiçoam as relações de
produção existentes, desenvolvendo o comércio eletrônico - o trabalho
enquanto produto comercializável. Reagindo contra esse encerramento do
ciberespaço, ativistas de esquerda destroem a propriedade sob forma de
informação na comunidade on line - o desperdício como presente. Para os nostálgicos da
certeza ideológica, essas visões contraditórias da Internet são
irreconciliáveis.No entanto, é preciso que ocorra a síntese desses opostos
dialéticos, por razões pragmáticas. Os usuários da Internet frequentemente se
beneficiam mais do trabalho em conjunto com a circulação de presentes do que
fariam se tomassem parte no comércio eletrônico. Vivendo numa sociedade
próspera, muitos americanos já não se sentem motivados unicamente por
recompensas monetárias (...). O processo dialético
de superação do capitalismo é marcado pelas sínteses em evolução da doação e
do produto comercializável na Internet. Durante essa transição, não se pode
tomar como pressuposto nem a revelação, ou abertura, nem o encerramento do
trabalho coletivo. Quando não é encontrado o híbrido correto dos dois, os
indivíduos que trabalham num projeto coletivo podem partir rapidamente para
destinos mais agradáveis no ciberespaço.Às vezes eles buscam recompensas
monetárias. Em muitas ocasiões, preferem a liberdade do trabalho autônomo.
Dependendo das circunstâncias, ambos os desejos precisam ser parcialmente
satisfeitos, num misto bem-sucedido de doação e produto comercializável. Nos últimos 200 anos,
os vínculos estreitos de parentesco e amizade ao mesmo tempo inibiram e
fundamentaram os relacionamentos impessoais necessários para o crescimento
econômico acelerado. O moderno sempre coexistiu com o tradicional. Hoje, na
era da Internet, a troca de produtos comercializáveis está sendo tanto
intensificada quanto impedida pela circulação de presentes. O moderno é
obrigado a fundir-se em síntese com o hipermoderno.Os gurus da ideologia
californiana destacam a sobrevivência da hierarquia social dentro dessas
relações produtivas híbridas na Internet. Ciberempreendedores bem-sucedidos
iniciam suas carreiras doando gratuitamente seus produtos mais desejáveis. Se
sua marca for largamente adotada, eles esperam ganhar dinheiro fornecendo
serviços e produtos de suporte a seus usuários. Alguns poucos literatos
digitais de sorte podem se tornar muito ricos, vendendo ações a especuladores
de Wall Street (Cusumano e Yoffie, 1998; Leonard, 1999). No entanto, mesmo
nessa síntese conservadora de presentes e produtos comercializáveis, o
direito autoral já deixou de ser a condição prévia da produção de
informações. Hoje, cada consumidor é conquistado com artigos promocionais.
Incapazes de resistir às possibilidades técnicas da convergência digital,
alguns ideólogos neoliberais aceitam o desaparecimento do direito autoral,
que se dará com o tempo (Barlow, 1994). Como o plágio não vai demorar a
surgir por toda parte, os ciberempreendedores terão que adotar outras
maneiras de tornar a Internet comercializável: serviços em tempo real,
publicidade e merchandising on line. A aristocracia de alta tecnologia só
pode proteger seus privilégios se continuamente oferecer presentes às massas
(...). BIBLIOGRAFIA 1. Hall, S. and Jacques, M. (eds.) "New Times: The Changing Face
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"Salon". 24. Barlow, J.P. "The Economy of Ideas: A Framework for
Rethinking Patents of Copyrights in the Digital Age". "Wired", nº 3, págs. 84-90, 126-129, www.eff.org/pub/intellectual_property Trechos do ensaio "Cibercomunismo: Como os
Americanos Estão Superando o Capitalismo no Ciberespaço", de Richard
Barbrook. O texto integral em inglês pode ser consultado no
endereço eletrônico:
http://www.nettime.org/nettime.w3archive/199909/msg00046.html Retirado da Folha de São Paulo, Suplemento MAIS!,
de 03/10/1999 Tradução de Clara Allain. |