Edmilson
Costa*
O mundo vive atualmente um
complexo processo de mutações em cadeia que envolve todos os setores da vida
social. O capitalismo globalizado, nesta sua nova fase, apresenta-se como a
esfinge mitológica, capaz de realizar inovações extraordinárias, mudanças de
paradigmas, desnortear seus adversários e, ao mesmo tempo, guardar a sete chaves o segredo de seu
rejuvenescimento. A nova conjuntura e, conseqüentemente, os novos desafios,
impõem a todos que trabalham pela construção de um mundo novo, a necessidade de
analisar esse tempo com a mente aberta, sem os dogmas que estreitam a visão e
com redobrado esforço para decifrar a nova ordem.
Antes de tudo, é
necessário recolher dos clássicos tudo aquilo que eles contribuíram para
entender o mundo, buscando compreender a exata dimensão da época em que
escreveram e as novas formas em que os fenômenos se apresentam atualmente.
Quando fizeram suas reflexões, os clássicos analisaram a realidade concreta de
sua época e, portanto, não poderiam adivinhar o que viria acontecer no futuro.
Exatamente por terem feito uma análise concreta da situação concreta é que seus
trabalhos ganharam densidade e tornaram-se referência. Além disso, é
importante também não perder de vista
em qualquer análise, a relação entre forma e conteúdo dos fenômenos, para não
cairmos nos modismos efêmeros, nas análises de folhetim.
Quando se trata
do processo de globalização em curso, isso significa compreender que o código
genético do capital continua com seus mecanismos básicos e se reproduz com uma
versatilidade extraordinária, muito embora sua forma de expressar-se tenha mudado de maneira
impressionante. Em outras palavras, neste final do milênio o capital não
só mantém a sua essência, como
incrementa a exploração. Sem o contraponto do socialismo real, retoma
predicados do seu passado mais bárbaro, quando a classe operária ainda não
tinha consciência nem nível de organização capaz de impor limites à sua
voracidade genética. Ao mesmo tempo em que redescobre sua faceta originária,
apresenta-se ao mundo como a expressão da modernidade e, em nome desta, impõe
aos trabalhadores um regime societário vinculado socialmente ao século passado.
Mas essa
contradição em processo não é nenhum mito de sete cabeças. Da mesma forma que
os clássicos desvendaram os complexos paradigmas de sua época, em situação
muito mais difícil que a atual, é tarefa de todos que buscam novos horizontes
realizar um grande esforço para compreender os fenômenos da contemporaneidade.
Essa não é uma tarefa fácil, mas é muito mais frutífero buscar compreender esta
época do que permanecer cabisbaixo diante das dificuldades da conjuntura e
levar vida de lamentações, de omissões ou mesmo bater em fuga envergonhado do
campo do progresso social e dar adeus ao proletariado, como se a única saída
fosse a rendição ao sistema. Nestas páginas procuraremos refletir sobre alguns
pontos fundamentais do capitalismo contemporâneo, procurando contribuir para um
debate sobre os traços fundamentais da atualidade.
É necessário
enfatizar que a globalização é um dado da realidade, ou seja, existe um
processo novo na configuração do capitalismo contemporâneo, que se expressa na reestruturação
produtiva e na especulação financeira de caráter global, dois eixos que marcam
a dinâmica do capitalismo atual e que tem como síntese ideológica o
neoliberalismo. Negar esta realidade, ou seja, negar o processo de
globalização, corresponde ao instinto da avestruz, que imagina superar as
adversidades enterrando a cabeça na areia.
Não enfrentá-la abertamente, a partir do próprio interior do fenômeno,
buscando desvendar seus segredos ou o seu significado teórico, é abandonar o
principal terreno de luta e deixar de combatê-lo na arena do real.
Os marxistas só
terão êxitos nesta empreitada se buscarem compreender o fenômeno a partir do
coração do sistema de poder mundial, onde pulsa ou potencialmente tem condições
de pulsar mais intensamente a luta de classes. É bem verdade que os elos débeis
continuam cumprindo um papel essencial para o debilitamento geral do capital,
enquanto forma global de dominação. Mas a sua crise profunda só poderá
configurar um estatuto terminal quando atingir o núcleo do poder, o coração da
Tríade imperial. Ou seja, a crise geral do capital só estará madura quando atingir os Estados Unidos, a Alemanha e o
Japão.
O processo de
globalização em curso não pode ser visto de maneira errática, como muitos
analistas o tem observado em diversas ocasiões, buscando negá-la ou combatê-la
pelos flancos ou mesmo creditando seu início a períodos históricos sem relação
direta com a época atual. Trata-se de
um fenômeno contemporâneo, fruto do capitalismo organizado e
transnacionalizado. Portanto, não tem nenhuma semelhança com a expansão do
império romano, com as grandes
navegações ou mesmo com a construção do
capitalismo enquanto sistema mundial. A globalização é um fenômeno da época
imperialista mais recente, quando o capital passou a extrair diretamente o
valor fora de suas fronteiras nacionais[2].
Estamos vivendo
uma época em que os velhos ramos de produção oriundos da metal-mecânica, da
química ou do plástico estão em decadência e em seu lugar, como ocorre sempre
nos processos históricos de transição do capitalismo, novos ramos produtivos
oriundos do avanço do conhecimento científico de nossa época, estão ocupando a
hegemonia do sistema produtivo. A indústria do século XXI terá um perfil
inteiramente diferente da indústria que surgiu com a segunda revolução
industrial.
Como
conseqüência dessa mudança estrutural no chão da fábrica, ou seja, com o
desenvolvimento das forças produtivas da reestruturação industrial,
inevitavelmente surgirão novos fenômenos sociais, econômicos, culturais, políticos
e até militares, como sempre ocorre toda vez que o sistema capitalista muda de
patamar. Apenas no que se refere ao mundo do trabalho, teremos no século XXI
uma classe operária com o perfil inteiramente diferente da classe operária
clássica da segunda revolução industrial, na qual estarão incluídos os
cientistas modernos.
Vale lembrar
também que, como tudo na vida está em constante movimento e transformação, as
contradições oriundas da reestruturação produtiva, ou globalização industrial,
terão também componentes inteiramente novos, não imaginados pelos clássicos do
marxismo, até mesmo porque eles não tinham a obrigação de prever o futuro. A
geração atual é que tem obrigação de compreender a época em que vivemos e,
seguindo as pistas estruturais que eles nos legaram, buscar responder as
questões atuais e propor soluções concretas para a ruptura com esta nova fase
do capital.
Também não é
difícil compreender que o processo de circulação do capital na órbita
financeira está em processo de velozes transformações e, mais uma vez, busca
seu autocrescimento na esfera especulativa, num movimento que nega a tradição
clássica de valorização por meio da produção. A ousadia especulativa do capital
tem configurado um novo fenômeno nas relações capitalistas mundiais: a
financeirização da riqueza[3]. Nunca em sua história chegou a uma dinâmica
em que a órbita financeira superasse de forma tão abrangente a produção,
hegemonizando as relações econômicas internacionais e disciplinando a alocação
de recursos até mesmo na esfera produtiva.
O capital
especulativo pode movimentar-se hoje 24 horas por dia. A partir das operações
com satélites, aliadas à informática e à internet, o capital pode estar
presente em qualquer hora do dia e da noite em alguma parte do mundo onde possam realizar-se operações financeiras.
Ganhou a possibilidade de valorizar-se continuamente (muito embora
artificialmente, em termos de longo prazo), rompendo a barreira do espaço-tempo
e fechando assim um ciclo de auto-acrescentamento buscado desde os seus
primórdios. Parece a lenda de Ícaro, aquele mito que buscava a qualquer custo
chegar ao sol, mas quanto dele mais se aproximava mais próxima estava a sua
tragédia. Com asas de cera, à medida que se avizinhava do astro-rei suas asas
se debilitavam até o ponto em que se romperam e ele desabou no mar...
Se as contradições oriundas das mudanças na área produtiva já são expressivas, aquelas que estão sendo produzidas na órbita financeira podem ser consideradas explosivas. A experiência histórica tem nos ensinado que as épocas de euforia financeira são seguidas de crises agudas e, quanto maior a especulação, maior a crise dela resultante. Ora, como hoje há um descolamento sem precedentes entre o setor produtivo e o setor financeiro, pode-se depreender logicamente que as crises decorrentes da globalização financeira serão muito maiores que as crises anteriores. Ou seja, o destino do capital está hoje muito mais em perigo do na época da grande depressão, em 1929.
Há uma crise
sistêmica em curso que vem se intensificando na exata medida da dinâmica
especulativa. Se observarmos a década de 90 poderemos constatar que o primeiro
grande sinal vermelho foi aceso com a crise mexicana, em 1994. Como tratava de
um país especial, fronteira com os Estados Unidos, não foi difícil encontrar
recursos para socorrer o México ou os especuladores da Tríade que por lá se
aventuravam. Posteriormente, veio a crise asiática, agora envolvendo não mais
um País, mas grande parte de um continente. Esta crise contaminou
posteriormente a Rússia e levou pânico aos mercados financeiros mundiais. A
seguir podemos registrar a crise no Brasil e na Argentina. Até agora, o sistema
de poder da Tríade ainda teve fôlego para intervir nesses processos e retomar a
calmaria, mas em algum momento a crise será maior que os mecanismos para
enfrentá-la.
Como em toda
época histórica de transição, o setor hegemônico da burguesia busca implantar
sua ideologia e transformá-la em núcleo referencial para toda a humanidade.
Neste momento, o capital conseguiu implantar em caráter global a ideologia
neoliberal, cujos fundamentos irradiaram-se para todos os setores da vida
social. Apesar de seus argumentos pobres e amarelados pelo tempo, o
neoliberalismo conseguiu penetrar no âmago do senso comum das pessoas, do
núcleo dominante às mais simples, quebrando valores longamente estabelecidos,
como a solidariedade, a busca de soluções coletivas, e em seu lugar implantou o
individualismo mais mesquinho e a lógica do mercado e da iniciativa privada.
No entanto, o
produto social da globalização e de sua ideologia, o neoliberalismo, tem sido o
mais dramático possível. Em pouco tempo esse novo regime de acumulação
desagregou sociedades, tornou os ricos mais ricos e ampliou a pobreza em
praticamente todos os cantos do mundo, especialmente nas nações da periferia,
onde a barbárie social vem esgarçando o tecido social e incrementando a
violência em todos os sentidos.
Para que este
movimento tenha sido realizado foi necessária uma mudança de fundo na
composição das classes dominantes. A velha elite ligada ao antigo capitalismo
monopolista de Estado, construída após os anos 30 e, especialmente, após a
segunda guerra mundial, foi substituída no centro do poder da Tríade por um
novo bloco de forças sociais, mais agressivas e mais reacionárias, que
subordinaram política e economicamente todos os outros setores e impuseram o
neoliberalismo como forma de organização socioeconômica e rentismo como forma
particular de acumulação, subordinando inclusive o setor produtivo à nova
lógica financeira. Este novo bloco da classe dominante está hoje no centro do
poder mundial, buscando configurar o mundo à sua imagem e aplicando uma espécie
de vingança histórica de classe aos trabalhadores.
Diante de uma
situação dessa ordem, com mutações tão profundas em todos os setores, é
necessário repensar uma nova forma de interpretar o mundo, a partir da
constatação de que os fundamentos teóricos oriundos da segunda revolução
industrial, que antes explicavam o imperialismo, necessitam de uma releitura
radical, posto que o capitalismo contemporâneo, apesar de manter na essência o
seu código genético, apresenta-se ao
mundo atualmente com uma qualidade nova e, portanto, precisa de uma nova
interpretação.
Em outras
palavras, os fundamentos do imperialismo que encontramos em Hobson, Hilferding,
Bukárim, Rosa de Luxemburgo e Lênin já não explicam em plenitude esta nova
forma do capital. Torna-se necessário recolher destes clássicos todo aquilo que
ainda permanece atual e avançar na busca de uma alternativa teórica que não só
decifre os segredos da esfinge da globalização, mas especialmente que arme a
nova classe operária com uma teoria capaz de dar sustentação ideológica para a
luta contra o capital em outro patamar.
Estes fenômenos têm sido freqüentemente denominados de
globalização. Qual é a natureza desse novo processo? Que fenômenos novos têm
produzido esta nova fase do capitalismo? Quais as conseqüências deste processo
para a classe operária e para a humanidade em geral? Que perspectivas estão
colocadas para o desenvolvimento histórico da sociedade? O socialismo
continuará sendo uma bandeira viável?
Terá capacidade de ressurgir sem os vícios e deformações do passado
recente e se tornar novamente uma referência da humanidade progressista?
A natureza mais
de fundo da globalização está ligada a uma nova fase do imperialismo, onde o
grande capital busca reconfigurar novamente o mundo à sua maneira, tanto no
plano econômico-financeiro, quanto no político, social, cultural e militar -
num processo semelhante ao que ocorreu no final do século passado com a
formação e posterior fusão dos monopólios bancários e industriais. No bojo
desta ofensiva não só busca consolidar as corporações transnacionais como
destacamentos avançados do sistema, como também pretende abolir direitos e
garantias históricos conquistados pelos trabalhadores no último século e meio,
numa espécie de vingança de classe estratégica.
Em nosso
entendimento, esse processo de reconfiguração do capital tem seu início
concreto num movimento estratégico, que envolveu duas articulações básicas: a
globalização produtiva e a globalização financeira que, por motivos analíticos,
estamos analisando separadamente.
a) A
globalização produtiva
A globalização
produtiva que ora se processa especialmente nos países centrais, mas com
incidência também em alguns países periféricos, é fruto da natureza do próprio
desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo, que necessitam
revolucionar constantemente suas bases materiais, de forma a que o sistema
ganhe dinâmica e desenvolvimento. Ao longo de sua existência, o sistema
capitalista passou por três grandes mudanças ou três grandes revoluções
industriais, cada qual redesenhando o perfil industrial, o perfil das classes sociais e a hegemonia
mundial.
A primeira
ocorreu no século XVIII, com a mecanização das fábricas e resultou no
capitalismo concorrencial e na hegemonia inglesa. A segunda aconteceu no final
do século XIX, a partir da incorporação das grandes inovações tecnológicas
inseridas na produção, da fusão do capital bancário com o capital industrial,
do aparecimento dos monopólios, da intervenção do estado na economia, fatores
que proporcionaram uma nova qualidade ao capitalismo, que a partir de então
passou a viver sua fase imperialista. A liderança dessa nova fase passou das
mãos inglesas para a Alemanha e Estados Unidos.
A terceira
mudança em curso é caracterizada pela introdução de novos ramos industriais no
processo produtivo. Nesta nova configuração ficam em segundo plano os ramos
produtivos ligados à metal-mecânica, à química, ao plástico e, em seu lugar
estão assumindo a liderança produtiva novos setores industriais, tais como a
microeletrônica, a informática, a engenharia genética, a biotecnologia, a
telemática, a robótica, aliados a certo grau de inteligência artificial no
interior das plantas fabris. A nova produção, oriunda desta mudança,
proporcionará enormes ganhos de produtividade aos países que internalizarem
essa nova base técnica.
Um dado novo na globalização produtiva é que ele já se processa dentro de um quadro de internacionalização da produção, com a burguesia passando a extrair diretamente o valor em escala global. As duas grandes mudanças anteriores foram realizadas de maneira assimétrica nos países centrais, ou seja, cada País marcou à sua maneira a inserção na industrialização. No entanto, o processo atual se desenvolve de maneira simétrica nos países centrais, em função da internacionalização da produção e da remonopolização da burguesia nos anos 90. Em função da padronização produtiva global, até mesmo os países periféricos que têm em sua base territorial filiais das corporações transnacionais estão vivenciando esta mudança nos nichos de desenvolvimento lá instalados.
A
globalização produtiva é liderada pelas corporações transnacionais, que
funcionam nesta fase como destacamentos avançados da Tríade imperial no
interior de cada um desses países, não só buscando a valorização do capital,
mas também influenciando a política econômica desses países. Estas corporações,
com suas redes de filiais espalhadas pelo mundo, têm a possibilidade de se
aproveitar dos mais preciosos recursos minerais a preços baixos, de mão-de-obra
barata e articular a produção em escala global, rompendo assim com os estreitos
limites da produção nacional e com eventuais carências de matérias-primas e
mão-de-obra.
Em outras
palavras, a internacionalização da produção transformou o mundo numa imensa
reserva de matérias-primas e mão-de-obra à disposição das corporações
transnacionais. Estes conglomerados elaboram a produção em escala mundial, quer
segmentando a construção de peças, de acordo com o menor custo de produção,
quer fabricando o produto inteiro no país onde há mão-de-obra e matérias-primas
mais baratos. Por exemplo, no caso de um automóvel, podem fabricar o chassi e o
motor no Brasil, os paralamas no México,o sistema elétrico na Coréia e a
montagem final nos Estados Unidos. Ou simplesmente pode-se fazer o produto
total na Ásia, como ocorre com os tênis Nike, para depois vendê-lo no mercado
mundial.
De acordo com os
dados do Centro das Nações Unidas para o Estudo das Transnacionais (desativado
por pressões dos Estados Unidos, em 1993 e posteriormente incorporado à UNCTAD,
com uma equipe menor), em 1994 existiam cerca de 37 mil transnacionais no
mundo, muito embora as 100 maiores são as que realmente hegemonizam o sistema
econômico, tendo em vista que concentram um terço do investimento externo e
possuem ativos no valor de US$ 3,2 trilhões, sendo 40% fora dos países de
origem[4].
Isso significa que o patrimônio dessas corporações é maior que o Produto
Interno Bruto da grande maioria das nações do planeta, o que por si só pode dar
uma idéia do imenso poder de barganha que possuem junto às nações da periferia.
Em função da
privatização do conhecimento com o aparecimento dos monopólios e sua hegemonia
quase que completa nos tempos da globalização, as corporações transnacionais
concentram a maior parte da pesquisa e desenvolvimento em praticamente todas as
áreas do saber científico. Isso significa o controle das inovações tecnológicas
e a ampliação do poder de mercado. Mas o problema maior dessa conjuntura no
campo tecnológico é que cada vez mais se alarga o fosso tecnológico entre as
nações centrais, onde se estabelecem as matrizes das corporações
transnacionais, e as nações da periferia, que são obrigadas a comprar pacotes
tecnológicos prontos, aprofundando assim a dependência e as relações de
subordinação Norte-Sul.
Esta
reestruturação produtiva, aliada à grande inserção de ciência na produção,
tende a promover uma violenta subversão das chamadas vantagens comparativas. A
intensa qualificação da mão-de-obra, a produção de matérias-primas em
laboratórios são elementos que podem formatar um quadro onde os fatores de
produção tendem a não mais se constituir em instrumento de competitividade por alocação
de recursos. Um dos desejos históricos do capital é produzir sem a necessidade
do trabalho vivo e elaborar seus próprios insumos. Por isso alavanca a
tecnologia, buscando desesperadamente se desvencilhar de sua contradição
originária, num processo semelhante ao Sísifo mitológico. É bem verdade que
pela lógica do sistema, a eliminação do trabalho vivo e a produção de suas
próprias matérias-primas inviabilizaria o sistema enquanto tal. Portanto, antes
que isso possa acontecer o próprio sistema entrará em colapso.
A globalização
produtiva cria uma contradição com a própria lógica de reprodução do sistema,
pois tensiona de maneira radical a tendência entre a automação e a produção de
mais-valia. “Pode-se imaginar uma economia localizada, que adote intensivamente
a automação, com a utilização de reduzida mão-de-obra. Esta economia poderá
escoar seus produtos para outros países e, no processo de circulação, se
apropriar da mais-valia produzida em outras economias, em virtude da vantagem
relativa de maior produtividade. Essa economia teria, temporariamente, a
dominância sobre as outras economias. Não se pode imaginar, porém, esta
situação estendida a todos os países capitalistas, pois isso inviabilizaria, em
função da impossibilidade de realização do sobrevalor, a continuidade de
operação do sistema[5]”.
Do ponto de vista da classe operária, quais as principais
conseqüências da reestruturação produtiva? Este processo aprofunda uma velha
contradição do capitalismo, expressa no caráter social da produção e na apropriação
privada de seus resultados. Com a inserção cada vez maior da ciência no
processo produtivo, cria-se uma enorme potencialidade produtiva, que não pode
ser viabilizada em função da demanda das massas. Ou seja, no momento em que o
sistema capitalista tem mais possibilidade de produzir, é exatamente neste
momento em que não encontra a demanda agregada para atingir seus objetivos, uma
vez que o ritmo de acumulação do período globalizante é extraordinariamente
maior que o ritmo de crescimento do poder aquisitivo das massas.
Esta
contradição, que no período anterior do capitalismo monopolista de Estado, não
atingia os Estados Nacionais de maneira simétrica, agora se apresenta com um
caráter global, em função da internacionalização da produção e da restruturação
produtiva. Estabelece-se agora com muito mais intensidade a velha contradição
produção-consumo e aprofunda-se assim a fase que aponta para um ciclo mundial
de crise na esfera produtiva, possivelmente muito mais grave que no período
anterior, tendo em vista que, em sendo global, a crise atingirá a todas
economias que internacionalizaram seus processos produtivos, pois não poderão
escoar sua produção para outras regiões como faziam no passado. Como não se
pode vender ainda mercadorias para a lua, marte ou júpiter, a crise terá que ser resolvida no planeta
terra, pelos próprios habitantes da terra.
A inserção da
ciência na produção aprofunda a tendência de substituir trabalho vivo por
trabalho realizado. Como esse fenômeno está sendo verificado também nas áreas
de serviços, tradicionais absorvedores de mão-de-obra, a tendência é a
ampliação do desemprego, o que deverá estreitar ainda mais os mercados internos
e a possibilidade de realização da produção. Ressalte-se que o desemprego atual
pode ser considerado estrutural, uma vez que o ciclo do emprego está se
tornando inelástico às vicissitudes da conjuntura econômica. Esse fenômeno
ocorre justamente em regiões onde a cultura e a organização da classe operária
tendem a oferecer grande resistência a
essa conjuntura. Uma coisa é subtrair direitos e garantias em áreas onde a
miséria é parte do cotidiano da vida das pessoas; outra é retroagir para a
barbárie trabalhadores com elevado nível de consciência e organização e um
padrão de vida duramente conquistados e longamente usufruídos.
A reestruturação
produtiva cria também a sua contraface, o pólo dialético que abre um novo
horizonte de possibilidades para a ruptura com o velho modo de produção. A nova
classe operária oriunda deste processo terá um perfil completamente diferente
da atual classe operária. Tratar-se de um operário altamente qualificado,
polivalente, e com nível de instrução bem maior que os seus companheiros da
segunda revolução industrial, o que deverá reduzir a distância entre o trabalho
manual e o trabalho intelectual[6].
Desta nova classe operária farão parte operários altamente especializados,
inclusive os cientistas dos novos ramos produtivos.
Além desses aspectos, a mudança de perfil da
classe operária terá repercussões profundas no interior das plantas fabris, no
movimento operário nacional e em sua organização internacional. Em todas as
grandes mudanças da época capitalista foram exatamente os setores mais
avançados dos trabalhadores aqueles que mais rapidamente compreenderam a
necessidade de mudanças e que efetivamente lideraram as transformações. Não se
trata mais dos operários tayloristas, que apenas cumpriam cegamente funções
rotineiras, mas de uma nova classe, que retomou a iniciativa no chão da fábrica
e realiza um trabalho mais criador, mesmo dentro da alienação global do
sistema. Ninguém deverá ficar surpreso se dentro de alguns anos, cientista assalariados, analistas de
sistemas, engenheiros ou ferramenteiro eletrônicos (o construtor de chips),
liderarem o movimento operário e buscarem as transformações necessárias para a
construção de um novo sistema sócio-econômico.
A dinâmica
especulativa que envolve o capitalismo atual está ligada, de um lado, à
desregulamentação das atividades das finanças a partir dos governos Reagan e
Tatcher e mantém laços bastante próximos com o processo de formação do
euromercado, além de também estar ligada ao desenvolvimento das próprias forças
produtivas do capitalismo, tais como a generalização dos satélites, a
universalização dos computadores pessoais e o desenvolvimento das fibras
óticas. Estas descobertas possibilitaram ao sistema financeiro a interconexão mundial on line, dinamizando de maneira extraordinária as relações entre os
diversos mercados financeiros mundiais e os mais variados tipos de
investidores-especuladores.
O
desenvolvimento dos negócios na área financeira, aliado à possibilidade de
aplicações 24 horas por dia e incrementado pela diversificações dos
instrumentos financeiros, transformaram o mundo num imenso cassino,
principalmente em função da rapidez do retorno financeiro e da remuneração mais
elevada que na área produtiva. Esta dinâmica, impulsionada pelo novo bloco
dominante do capital, transformou a atividade financeira na principal arena de
negócios do capitalismo contemporâneo. Para se ter uma idéia, o mercado
especulativo movimenta diariamente cerca de 1,9 trilhão de dólares[7],
quantia cerca de 10 vezes maior que os recursos que giram na área produtiva, um
panorama sem precedentes na história do capitalismo. Cálculos de várias fontes
indicam que atualmente existe no mercado especulativo uma massa de recursos de mais de US$ 64 trilhões de dólares.
Vale ressaltar
que, quanto mais se alarga o palco das operações, quanto mais se diversifica a
variedade de aplicações, mais essa conjuntura realimenta o frenesi
especulativo, configurando um processo de retroalimentação que vai impondo a
hegemonia financeira sobre a órbita produtiva. Ou seja, as aplicações
especulativas e seus derivativos vêm transformando o mercado financeiro num
instrumento desindutor do investimento global baseado na produção, invertendo
de forma sem precedentes a lógica da acumulação baseada na lei do valor.
Estão ligados
por esse frenesi não apenas o mercado de títulos, o mercado de futuros, o
mercado de ações, mas também o mercado
cambial, fato que completa o circulo da especulação, incrementando assim a
financeirização da riqueza, que consiste em um processo de valorização fictícia
do capital, tanto por parte dos especuladores tradicioinais, quanto dos fundos
de investimentos, fundos de pensões e até mesmo por um significativo percentual
dos recursos das empresas produtivas. Em outras palavras, a defesa da riqueza
está se dando muito mais na área financeira do que na produtiva, numa espécie
de festival especulativo de ganhos fáceis e rápidos.
Mais
precisamente, a globalização financeira, que deveria unificar os mercados
financeiros mundiais, gerando capitais disponíveis para impulsionar as forças
produtivas, está fazendo justamente o contrário, ou seja, em função da
possibilidade de lucros em curto espaço de tempo, a área financeira está
concentrando o lócus da atividade da
atividade capitalista, relegando a um segundo plano a atividade produtiva. Esta
situação é tão grave que atualmente um percentual cada vez mais crescente dos
lucros das empresas produtivas estão sendo obtidos na órbita financeira. Isso
significa que o capital especulativo está levando para o interior da própria
empresa produtiva a disputa pela alocação de capitais, numa ousadia nunca
percebida.
Por mais
paradoxal que pareça, um dos atores que bancam, em última instância, esse
delírio especulativo são os países da periferia que se renderam à globalização
neoliberal. Isso ocorre porque grande parte dos capitais especulativos está
alocada nos mercados financeiros dos países periféricos (ironicamente chamados
de emergentes). Para que esses países obtenham capitais externos são obrigados
a elevar suas taxas de juros internas a um patamar bem maior que as taxas de
juros internacionais. Com isso fecham os seus balanços de pagamentos,
normalmente deficitários em função da abertura econômica e do pagamento da
dívida externa, mas em contrapartida acumulam uma dívida interna que
inviabiliza o desenvolvimento econômico, tendo em vista que o pagamento dos
juros dessa dívida absorve cada vez mais um percentual maior do PIB.
Dito de outra
forma, esta transferência de recursos do setor público para o privado e,
especialmente, para o capital especulativo internacional, é uma das formas mais
perversas de apropriação da mais-valia e uma radicalização nos métodos de saque
histórico que os países centrais impõem à periferia. Não se trata mais do
período em que se utilizava as caravelas com suas canhoneiras para extorquir as
riquezas das colônias, nem do período em se capturava o valor por meio da troca
desigual, agora o capital financeiro transformou as nações da periferia em
reféns dos especuladores internacionais e ampliou a extorsão.
Para se ter uma
idéia de como esse saque é perverso, torna-se necessário exemplificar um caso
emblemático, o Brasil. Em 1994, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso
assumiu o poder, a dívida pública interna era de R$ 62,5 bilhões (nessa época
existia uma paridade entre o dólar e o real - 1 dólar valia um real); ano
passado (1999) esta dívida já tinha atingido R$ 513 bilhões (U$ 301 bilhões),
num aumento impressionante de cerca de 720% no período, ou uma média anual de
crescimento de 52,3%. A contrapartida desse enorme endividamento é um pagamento
de juros, que no mesmo período somou cerca de R$ 250 bilhões (U$ 147 bilhões).
A conseqüência desse montante de pagamento é a redução das verbas orçamentárias
para a área da educação, saúde, saneamento básico, entre outros itens da agenda
social.
Todavia, o deslocamento contínuo entre a órbita
financeira e o setor produtivo não deverá durar eternamente, pois haverá
necessariamente, como já aconteceu em períodos anteriores, um momento de um
ajuste de contas entre a produção real na economia e a especulação financeira,
ocasião em que essa riqueza fictícia será esterilizada, com conseqüências
graves para os especuladores e para o conjunto da economia capitalista. A crise
financeira do México, a crise asiática, a crise da Rússia, do Brasil e da
Argentina são apenas a ponta do iciberg de
um processo mais fundo que está se gestando e que terá seu epicentro terminal
quando atingir o coração do sistema capitalista, os Estados Unidos da América,
a Alemanha e o Japão, os líderes da Tríade imperial.
Enquanto a globalização segue seu curso, os países
centrais procuram reorganizar-se para uma nova partilha econômica do mundo,
semelhante ao que ocorreu por ocasião da segunda grande mudança no capitalismo.
O primeiro destes grandes movimentos é a consolidação e/ou formação dos blocos
econômicos na Europa, na Ásia e na América; o
segundo grande movimento, que é conseqüência do primeiro, é a disputa
surda pela hegemonia mundial, especialmente após a queda da União Soviética e
dos países do Leste Europeu. O terceiro é uma espécie de recolonização
sofisticada da periferia capitalista. Não se trata mais de ocupar os países e
transformá-los em colônias como no passado, mas de dominá-los mediante os
próprios instrumentos criados pelos países centrais, como o FMI e o Banco
Mundial.
À exceção da Europa, onde esse processo está mais
desenvolvido, inclusive com a possibilidade de implantação de uma moeda única,
a formação dos blocos econômicos está em construção tanto na América quanto na
Ásia. Na América, com uma hegemonia incontestável dos Estados Unidos, está em
discussão a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), com resistência de
vários países, inclusive do Brasil. Nesta região, o governo americano tenta
substituir o NAFTA, bloco que englobava EUA, Canadá e México, mas que não se
desenvolveu plenamente neste último país. Agora os Estados Unidos querem um
mercado mais amplo, onde possam exercer mais diretamente sua hegemonia e
impedir eventuais acordos paralelos entre países latinoamericanos e europeus ou
asiáticos.
Prevista para 2005, a ALCA está sendo vista com reservas
por vários países latinoamericanos porque há um temor bastante real de que a
formação da ALCA seja uma espécie de abraço
de urso por parte dos Estados Unidos. Em setembro de 2000, os presidentes
da América do Sul estiveram reunidos em Brasília, com o objetivo de traçar uma
estratégia de negociação conjunta com os norte-americanos, de forma a barganhar
uma melhor inserção na formação desse mercado. É uma manifestação ainda tímida
porque vem exatamente de governos com elevado grau de subserviência aos EUA,
mas indica que setores burgueses locais temem que a construção de um mercado
único nas Américas, hegemonizado absolutamente pelos Estados Unidos, atinja
seus próprios interesses.
A formação de um mercado comum na Ásia também vem
encontrando alguns problemas, uma vez que o Japão, líder econômico da região,
vive uma crise econômica há vários anos, o que o impede de influenciar mais
decisivamente na formação deste bloco. Além disso, existe a questão da China,
cuja economia vem obtendo um crescimento médio anual acima de 10% nos últimos
12 anos. Caso prossiga nesta performance,
em mais uma década transformar-se-á na principal economia da região, isso sem
contar que é a nação mais populosa do planeta. Portanto, está em curso uma
disputa por hegemonia na Ásia, o que certamente dificultará a formação deste
bloco.
Teoricamente, a formação dos blocos econômicos deve
funcionar como espaços supranacionais de acumulação, a partir dos quais poderá
desenvolver-se o processo de concorrência do novo padrão industrial
globalizado. Em outros termos, os mega-blocos seriam uma forma de gerir a
interdependência dos países centrais a partir de cada bloco, de hierarquizar as
preferências comerciais e as reciprocidades entre essas nações, na tentativa de
buscar uma regulação macroeconômica num patamar superior, em busca uma
estabilidade econômica mundial.
Mas em função
das próprias contradições entre os blocos, pode também ser um espaço de poder
econômico que irá acirrar a concorrência, criando enormes tensões no comércio
mundial. Além disso, essa
macro-organização da burguesia, do ponto de vista do capital em si, se expressa na remonopolização burguesa em
caráter mundial, mediante um processo de fusões e aquisições que vem se
desenvolvendo de maneira acelerada nos países centrais[8].
Este processo não está ainda plenamente configurado, tendo em vista não só os
problemas decorrentes da formação dos blocos econômicos, mas principalmente
devido às próprias contradições interblocos.
Enquanto os países centrais buscam reorganizar-se para
melhor se posicionar diante da globalização em curso, há uma tentativa dos
Estados Unidos de transformar a antiga ordem bipolar do período em que existia
a União Soviética em ordem unipolar, na qual despontariam como potência
hegemônica indiscutível. Para tanto, vem procurando de todos as formas impor
pela diplomacia e/ou pela força militar essa liderança. Para tanto, tem buscado
transformar o Conselho de Segurança das Nações Unidas em instrumento de sua
política nacional e se utilizado de todo o peso que detém nos organismos
multilaterais para cumprir esta meta. Em alguns casos tem até buscado
transformar sua legislação interna em direito internacional.
Foi assim que, sob a proteção do Conselho de Segurança da
ONU, invadiu o Iraque, destruiu a infra-estrutura do País, e até hoje continua
impondo o bloqueio econômico àquele País, muito embora várias nações aliadas
desejem o fim do bloqueio em função de seus interesses específicos. No entanto,
quando a diplomacia não é funcional, os Estados Unidos esquecem as aparências e
passam a operar exclusivamente a partir de seus próprios interesses
estratégicos. Foi o caso da invasão da Iugoslávia. Temendo problemas no
Conselho de Segurança, os Estados Unidos se utilizaram a OTAN (Organização do
Tratado do Atlântico Norte), instituição na qual os norte-americanos tem
hegemonia absoluta, para atacar um País soberano. Esta ação pode ser
emblemática porque representa o passo decisivo para imposição da hegemonia a
qualquer custo, uma espécie de teste para sentir as reações dos aliados.
No entanto, há interesses divergentes no seio da Tríade
imperial. As economias do Mercado Comum Europeu juntas, com sua moeda única, se
assemelham, em termos de poder econômico, à economia americana e dificilmente
os europeus irão aceitar pacificamente uma hegemonia forjada por meio do poder
militar. Além disso, os próprios oligopólios europeus têm interesses nos
mercados mundiais, inclusive na América, o que certamente sinaliza um processo
de disputas acirradas de hegemonia no seio da Tríade. Além disso, caso a China
mantenha o nível de seu crescimento, será também um pólo fundamental de
contestação ao poder solitário americano.
O terceiro grande
movimento está ligado às novas relações que estão sendo forjadas entre os
países centrais e os países da periferia, em função da globalização. A
tendência principal, especialmente na América Latina, é a tentativa dos Estados
Unidos de buscar uma espécie de recolonização sofisticada, onde não se
utilizariam mais os instrumentos clássicos da colonização passada, porém novos
instrumentos mais sofisticados, de caráter econômico e financeiro, como o FMI,
Banco Mundial, BID e outros, ou mesmo a dolarização da região, com os quais poderia
se obter resultados econômicos mais
vantajosos que na colonização clássica, sem necessitar formalmente acabar com a
soberania desses países.
As duas últimas décadas têm sido pródigas de exemplos de
como está se desenvolvendo de maneira contundente e meticulosa uma estratégia
de recolonização sofisticada. Desde o início da década de 80 que os países da
região vêm sendo obrigados (evidentemente com o aval das classes dominantes
locais, tradicionalmente subservientes) a desestruturarem suas economias para
atender aos interesses do grande capital internacional, especialmente o
norte-americano. Primeiro foi a questão da dívida externa, que gerou uma
transferência de recursos digna dos tempos de Pizarro e Cortez. Nos anos 90 a
política neoliberal vem completando esse processo, ampliando a subordinação das
economias nacionais aos interesses do capital especulativo internacional.
Em termos concretos, a política econômica dos países da
região já não é desenvolvida de maneira
soberana, mas segue rigorosamente o receituário imposto pelo Fundo Monetário
Internacional, pelo Banco Mundial e pelos banqueiros internacionais, deixando
nula a margem de manobra para os governos locais fazerem algum tipo de política
que não seja a do capital especulativo internacional. Um exemplo característico
desse novo processo de recolonização sofisticada é a discussão sobre a
dolarização em vários países com
problemas estruturais, fruto inclusive da própria ação do capital
internacional. Trata-se na verdade de um balão de ensaio, mas é com certeza
parte da estratégia norte-americana transformar as nações da região em estados
yanques informais, pois ao perder o monopólio da moeda perde também os últimos
vestígios da soberania.
O neoliberalismo
é síntese de todo esse processo de mudanças profundas que estão ocorrendo no
sistema capitalista; funciona como uma espécie de gerenciador ideológico,
político, econômico, social e cultural dessa nova fase do imperialismo.
Trata-se de uma ideologia primitiva para os tempos atuais, com postulados do
século XVIII, época do capitalismo concorrencial, mas com um apelo espantoso ao
senso comum. A ideologia neoliberal procura manipular os sentimentos mais
atrasados das massas, revigorando os preconceitos, açulando o individualismo,
distorcendo o significado das coisas, reduzindo os fenômenos à sua aparência,
de forma a ganhar os corações e mentes para o jogo do livre mercado e da livre
iniciativa.
Como se trata de velhos dogmas sepultados pelo tempo, o
neoliberalismo procura manipular os conceitos, a linguagem e até mesmo as
palavras de ordem da esquerda para confundir a população e implementar seus
objetivos estratégicos. Para tanto,
conta com os meios de comunicação de massa, que se transformaram nos principais
difusores desta ideologia. Diariamente, o jornal, o rádio e, especialmente, a
televisão realizam uma batalha ideológica contumaz no sentido transformar o
neoliberalismo na referência para o modo de vida da humanidade.
Dessa forma, a desregulamentação da economia, as
privatizações e a ofensiva contra direitos e garantias dos trabalhadores são
propagandeados como reformas estruturais, o corte nos gastos públicos, o aperto
no crédito e a retirada do Estado da economia, são vistos como ajustes
estruturais e a própria palavra liberdade, tão cara às forças de esquerda,
especialmente da América Latina, é manipulada para servir aos interesses do
capital[9].
Até mesmo invasões militares de países soberanos, como ocorreu recentemente com
a Iugoslávia, são realizadas em nome dos direitos humanos e da democracia.
No que se refere à política propriamente dita, a
ideologia neoliberal não tem nenhum escrúpulo: desde que o governante no poder
cumpra as metas estabelecidas pelas elites financeiras dos países centrais, esse dirigente é não só
tolerado como seu governo defendido nos fóruns internacionais e na mídia.
Assim, o neoliberalismo pode se utilizar de um bêbado moribundo na antiga União
Soviética, como Yeltsin; de um dançarino de tanto brega na Argentina, como
Menem; de um nissei histriônico e fascista, como Fujimori no Peru; de um
corrupto sofisticado no México, como Salinas de Gortari; ou ainda um
intelectual que deu adeus ao proletariado, como Fernando Henrique Cardoso no
Brasil.
Em outras palavras, para os neoliberais, que hoje podem
ser considerados os fundamentalistas do Ocidente, não importa os meios ou os
métodos para atingir seus objetivos. O importante é garantir a hegemonia do
neoliberalismo em todos os setores da vida social, pois só assim poderão
reconfigurar o mundo à sua maneira. Este fenômeno está na raiz da intolerância
e da agressividade com que procuram desqualificar seus adversários. No entanto,
se analisarmos mais pormenorizadamente, poderemos detectar uma enorme
insegurança dos defensores desta teoria, pois sempre que esta doutrina é
confrontada com o real, perde substância. É por isso que eles sempre têm uma
resposta na ponta da língua para os constantes fracassos dos seus programas.
Quando algo não dá certo... é porque não se aplicou em plenitude o receituário
neoliberal. Isso se assemelha muito às novas seitas evangélicas, que prometem o
paraíso para seus fiéis e, quando estes não o alcançam... é por que não tiveram
fé suficiente.
Quais são, então, os fundamentos do neoliberalismo? Este
espaço é exíguo para uma abordagem mais completa do problema, portanto
procuramos apenas traçar suas linhas fundamentais. Esta ideologia tem uma
relação doutrinária com os liberais do século XVIII e uma relação operacional
com os neoliberais deste século, especialmente Hayek e Friedman. O primeiro,
desde o final dos anos 40, já contestava a regulação do mercado por parte do
Estado, o poder das entidades sindicais e a proteção social do Welfare State[10];
já o segundo praticamente montou o programa neoliberal implementado a partir
dos governos Reagan e Tatcher. A partir da âncora do livre mercado e da livre
iniciativa, propôs a desregulamentação da economia, a abertura das fronteiras e
a livre competição internacional, o ajuste das contas públicas, reformas nos
sistemas monetários, a redução dos impostos para os ricos e, especialmente, a
retirada do Estado da economia, o qual só deveria garantir os contratos e a
ordem neoliberal[11].
Estes postulados, que operaram no período do capitalismo
concorrencial, não possuem nenhuma aderência à realidade, serve apenas à
mistificação e a ampliação do poder do grande capital. Ora, como se pode falar
em livre competição entre as grandes corporações transnacionais, com seu
gigantesco poder econômico e financeiro, e as outras empresas mais frágeis?
Como se pode liberar uma economia periférica e deixar ao sabor da livre
concorrência a disputa no interior dos seus mercados entre as transnacionais e
as empresas nacionais? Como uma
economia encilhada na armadilha do capital especulativo pode gerar empregos e
fazer políticas sociais? Por que privatizar empresas lucrativas do setor
público? Qual a lógica que explica
menores impostos para os ricos? Por que ajustar as economias de acordo com os
interesses do capital financeiro e não de acordo com os interesses da nação?
No passado, a ideologia liberal foi um instrumento do
império inglês para que os países abrissem seus mercados para os produtos
manufaturados britânicos e consolidasse a hegemonia inglesa. Da mesma forma, a
ideologia neoliberal é um instrumento do setor mais reacionário e mais
parasitário do bloco de classes dominantes dos países centrais, especialmente
dos Estados Unidos, para subordinar as nações aos seus interesses econômicos
financeiros[12]. Livre
mercado, livre iniciativa, desregulamentação, reformas, ajustes, saída do
Estado da economia são apenas cortina de fumaça para encobrir o saque das
riquezas nacionais, a superexploração dos trabalhadores. Todos os países da
periferia que se renderam ao neoliberalismo ficaram mais pobres, perderam
grande parte de seu patrimônio, e tornaram-se mais endividados. Do ponto de
vista social, ocorreu uma enorme concentração de renda entre a parcela mais
rica da população, um desemprego crônico, uma queda nos salários dos
trabalhadores e a ampliação da barbárie social – esse é o resultado do
neoliberalismo na periferia capitalista.
A partir da eleição de Ronald Reagan e Margareth Tatcher
o mundo passou por uma radical contra-revolução monetarista[13],
que mais tarde se tornaria conhecida
como neoliberalismo. Os governos Reagan-Tatcher, no bojo da crise do
keynesianismo da década de 70, aproveitaram
o vazio ideológico para reconfigurar o sistema capitalista dentro de
novas regras. Implementaram mecanismos para garantir o livre mercado e
fortalecer a livre iniciativa, desregulamentar a economia, afastar o Estado do
sistema econômico, realizar as privatizações, atacar o movimento operário e
estimular a livre competição individual. Por estarem no centro hegemônico do
planeta, irradiaram esta ideologia para os quatro cantos do mundo e ganharam
grande parte da intelectualidade e das elites locais para o neoliberalismo.
Como num castelo de cartas, os governos nacionais foram
aderindo às novas regras do capital e os meios de comunicação multiplicando
avassaladoramente o fetiche neoliberal.
Mas o serviço ainda não estava completo: as economias centrais, quase
todas, já estavam enquadradas no novo figurino, mas alguns países com peso
importante na economia mundial ainda não tinham aderido completamente à nova ideologia,
como o Brasil. Num grande esforço para
formalizar as experiências monetaristas mundiais e buscar uma
convergência mundial para as novas idéias e programas econômicos, organizou-se
em Washington, em novembro de 1989, um grande encontro, o “Latin American
Adjustment: How Much Has Happened?” para discutir os rumos das chamadas
reformas e a estratégia para a próxima década.
Este encontro
reuniu funcionários do governo norte-americano, dos organismos internacionais
como o Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial e Banco Interamericano de
Desenvolvimento, além de diversos economistas latino-americanos. Apesar de
informal, suas conclusões
transformaram-se em normas para o grande capital e, especialmente, para
as relações entre os países periféricos e os organismos internacionais[14]
e passaram a ser conhecidas como o Consenso de Washington.
A ordem a partir
daí, particularmente na América Latina, foi a radicalização das reformas e sua
implementação naqueles países que não as tinham operado internamente, como o
Brasil. Poucos anos depois, um fato inesperado vinha consolidar o ciclo
avassalador do neoliberalismo: a queda do muro de Berlim e a desagregação da
União Soviética e dos países do Leste Europeu. Sem o contraponto socialista, o
neoliberalismo sentiu-se sem travas para hegemonizar completamente a economia
mundial. Praticamente todos os países do mundo passaram a operar sobre a nova
ótica do capital.
Um balanço
desses 20 anos de contra-revolução conservadora nos permite afirmar que o
neoliberalismo constituiu-se num grande retrocesso para a humanidade, em
praticamente todos os setores da vida social. Mas a contrapartida dessa
conjuntura é a desmoralização generalizada das políticas neoliberais, até mesmo
em círculos que até pouco tempo advogavam esta ideologia como redenção para a
humanidade. A ferocidade ideológica e regressividade social geraram um produto
social tão deformado, que está forjando situações sociais insustentáveis nas
grandes metrópoles e assustando até mesmo as elites burguesas. A corrupção
generalizada, o saque das riquezas nacionais, a violência urbana, a ampliação
da pobreza entre as populações das cidades e do campo, a descrença generalizada
nas instituições forjadas há séculos pelo capital, estão criando níveis de
resistência que, embora ainda embrionários, apontam no sentido de que está se
gestando nessas sociedades novos sujeitos políticos, capazes de apresentar
alternativas de mudanças.
Que conclusões teóricas poderemos conceber, a partir do
balanço desses 20 anos de retrocesso? A primeira das conclusões a que poderemos
chegar é a de que nenhuma conquista está garantida no capitalismo. Ao contrário
do que acreditavam os colaboradores de classe ou os ingênuos, o capital não se
civilizou após a segunda guerra mundial, com o Welfare State. Pelo contrário,
foi só perceber a conjuntura defensiva do movimento operário que resolveu tirar
a máscara e expor com rudeza explícita a ferocidade original do capitalismo,
demonstrando que os clássicos tinham razão ao afirmar que o capital, enquanto
tal, não perde a sua essência exploradora.
A segunda conclusão é a de que, apesar dos duros golpes e
derrotas, o capitalismo não se transformou numa opção consensual para a
humanidade, nem tampouco destruiu a perspectiva de uma sociedade sem exploração.
Está se gestando em várias partes do mundo e, especialmente, na América Latina,
uma contra-ofensiva popular que vem se expressando de várias formas. Em alguns
momentos se expressa por meio do voto, como na Venezuela, outras mediante a
insurreição popular, como no Equador,
em outras através da luta armada, como na Colômbia, ou ainda por meio da
luta direta das massas, como o Movimento dos Sem Terra no Brasil ou os
movimentos camponeses e indígenas de vários países da América Latina.
A impressão que se tem é que o neoliberalismo tornou mais
aberta a luta entre capital e trabalho, processo que no período anterior estava
camuflado, quer mediante o Welfare State, quer mediante a convivência e
aceitação do movimento operário e de algumas de suas conquistas históricas por
parte do capital. A agressividade do neoliberalismo colocou em cheque todos os
direitos e garantias dos trabalhadores, diversificou as formas de exploração e
desmoralizou as instituições. Portanto, é natural que a contra-ofensiva popular
também responda a esta conjuntura com as mais diversificadas formas de luta.
Pelo que podemos observar até aqui, estamos diante de um
conjunto de fenômenos novos. Resta saber se estes configuram uma mudança de
patamar na história do capitalismo ou se trata apenas de uma evolução natural
das forças produtivas capitalistas. Entendemos que se trata de uma nova fase do
capitalismo, semelhante à que ocorreu no final do século passado com a fusão
dos capitais bancário e industrial. A globalização produtiva alterou o lócus de extração do valor, a partir do
qual a burguesia passou a capturar a mais-valia fora de suas fronteiras
nacionais. No período anterior, a burguesia se apropriava da mais-valia nos
países da periferia mediante a troca de mercadorias ou pela exportação de
capital, agora passou a explorar diretamente os trabalhadores nestas regiões, o
que altera de maneira significativa o processo de acumulação do capital. Os
velhos oligopólios tornaram-se transnacionais e transformaram-se em
destacamentos avançados desta nova fase do imperialismo, não só por estar
presente fisicamente em todos os continentes, mas especialmente porque, em
função do seu poder econômico, podem influenciar diretamente as políticas
locais.
A exemplo também do período anterior, a reestruturação
produtiva marca também uma dinâmica nova nas forças produtivas do capitalismo.
Os velhos ramos de produção, típicos da segunda revolução industrial estão
sendo relegados a um plano secundário e novos setores produtivos passam a
hegemonizar a dinâmica do capital. Essa nova indústria está se consolidando
velozmente e mudando radicalmente o perfil das forças produtivas capitalistas.
Do ponto de vista patrimonial, o processo de fusões de aquisições em curso nos
países centrais não só se assemelha ao passado, como indica a constituição de
uma burguesia cosmopolitizada, se não ainda em termos mundiais, pelo menos do
ponto de vista regional, quebrando assim, em grande parte, o elo nacional da
burguesia e dando um aspecto novo à luta de classe.
O comércio intracorporações, que atualmente responde por
cerca de 40% do comércio mundial, subverte radicalmente as chamadas vantagens
comparativas, pois abre a possibilidade de se construir relações comerciais
entre as nações baseadas exclusivamente nos interesses das corporações
transnacionais. Nestas novas relações matriz-filial o subfaturamento e o
superfaturamento implementado por parte destas empresas não só violam a lei do
valor, como tornam-se um instrumento poderosíssimo de transferência ilegal de
recursos da periferia para o centro
Na área financeira, as mudanças são ainda mais profundas.
O novo bloco de classe que assumiu o poder no final da década de 70 impôs ao
mundo a lógica da especulação como espaço privilegiado para a acumulação do
capital e subordinou todas as outras atividades econômicas à dinâmica
especulativa. O movimento especulativo no mercado financeiro mundial ganhou uma
magnitude nunca antes observada, movimentando uma quantidade de recurso cerca
de 10 vezes maior do que aqueles que giram na órbita produtiva. Nem mesmo os
mais delirantes especuladores sonhavam com uma situação desta. Essa lógica é
tão perversa que força as próprias empresas produtivas a aplicarem uma parte de
seus recursos no mercado financeiro, de forma a obterem lucros mais compatíveis
com o conjunto da atividade econômica.
No bojo desse frenesi especulativo, os negócios bancários
de velha intermediação entre
aplicadores e tomadores de empréstimos tornaram-se coisa do passado. Um
conjunto de novas instituições não bancárias assumiu a liderança dos negócios e
criou uma quantidade tal de novos instrumentos financeiros e derivativos, que
hoje pode-se especular com mercadorias reais nas bolsas de futuro, com o câmbio
de qualquer nação, com o mais variado leque de títulos públicos e privados ou
até mesmo com o salto das pulgas, se acaso alguém estiver interessado nesse
tipo de aposta. Não há mais fronteiras para a especulação: ganha-se e perde-se
bilhões de dólares do dia para a noite e os capitais mudam de países à
velocidade da luz, como se o capital especulativo tivesse encontrado o
calcanhar de Aquiles para seu auto-acrescentamento eterno.
A articulação da reestruturação produtiva e da
globalização financeira com o neoliberalismo completam o ciclo de mudanças na
lógica operativa do capital, pois o neoliberalismo é a expressão ideológica
deste processo.Tornou-se hegemônico no mundo e vem refundando todos os
estatutos da dominação, numa espécie de vingança tardia de classe contra o
trabalho vivo e, no interior do mundo do trabalho, também uma vingança contra
as organizações sindicais, bem como contra os direitos e garantias conquistados
pelos trabalhadores.
Portanto, em nosso entendimento, esta nova era marca uma
fase qualitativamente nova na história do capitalismo, pois os fenômenos que
procuramos identificar não se referem apenas à evolução natural do capitalismo,
mas constituem um processo novo, semelhante ao que ocorreu na primeira e na
segunda revolução industrial. Desta forma, estamos num ambiente em que as
teorias que expressavam os fenômenos relativos à segunda revolução industrial
não mais respondem plenamente à conjuntura objetiva da globalização.
Portanto, é necessário entender o capitalismo
contemporâneo com a cabeça aberta, sem os dogmas e estereótipos que geralmente
marcam as pessoas que não gostam de encarar o novo. Vladimir Lênin, o maior
quadro teórico deste século, teve a coragem e a grandeza de verificar que a
época imperialista diferia do capitalismo concorrencial descrito magistralmente
por Marx. Portanto, merecia não só um novo diagnóstico, mas uma nova teoria
para que se pudesse compreender a época dos monopólios. Tanto Marx quanto Lênin
escreveram sobre o seu tempo; não tinham obrigação nem estavam interessados em
adivinhar o futuro. Mas o lastro no qual desenvolveram suas teorias, o método
dialético, é uma fonte fértil para que os marxistas de nossa época dêem
prosseguimento à sua obra teórica. O objetivo deste ensaio não é criar uma nova
teoria do imperialismo, mas levantar um debate sobre estas novas questões e
indicar alguns traços fundamentais de nossa época.
Elegendo a obra de Lenin, O imperialismo, fase superior do capitalismo, como síntese
paradigmática da interpretação do imperialismo oriundo da segunda revolução
industrial, procuraremos analisar os eixos fundamentais daquela obra para
aferir se ainda possui aderência à realidade atual. Lênin elencou cinco traços
fundamentais que caracterizavam a nova fase do capitalismo: 1) a concentração
da produção e do capital e o aparecimento dos monopólios, os quais desempenham
um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do capital industrial com o
capital bancário e o aparecimento da oligarquia financeira; 3) a exportação de
capitais, ao contrário da exportação de mercadorias; 4) a formação das
associações monopolistas que partilham economicamente o mundo entre si; 5) a
partilha territorial do mundo entre as potênciais mais importantes. Lênin
caracteriza ainda que o imperialismo não era uma nova formação sócio-econômica,
mas a fase superior do capitalismo, em que se aguçariam todas as contradições
do capital. Nesse sentido, Lênin afirmava que esta fase seria marcada pelo
capitalismo parasitário, em decomposição e agonizante, a ante-sala do
socialismo[15]. Vejamos
como se apresenta cada uma dessas características no mundo atual:
A concentração
da produção e do capital continuam sua marcha histórica, como Marx já havia
identificado anteriormente, baseado na própria lógica da acumulação. No
entanto, o que distingue a época atual do período de Lênin é que as corporações
transnacionais passaram a extrair diretamente, e de maneira generalizada, o valor fora de suas fronteiras nacionais,
tornando-se exploradoras diretas tanto no centro quanto na periferia
capitalista, ao contrário do que acontecia anteriormente quando se apropriavam
da mais-valia mediante a exportação de mercadorias ou a exportação de capitais.
Em conseqüência
da globalização, o grande capital passa novamente por uma remonopolização
global, através de um processo intenso de mega-fusões e incorporações em todos
os estamentos do capital – industrial, bancário e de serviços. Isso poderá
redefinir uma nova partilha econômica do mundo, possivelmente em função da área
de influência da Tríade imperial a partir de suas regiões de origem, e dar um
caráter novo à luta pela hegemonia entre os blocos do grande capital. Em outras
palavras, diante dos novos fenômenos oriundos da globalização, impôs-se
novamente a necessidade de uma remonopolização global, de forma a que o grande
capital pudesse unificar novamente sua estratégia, não só para reorganizar-se
diante da globalização para impor uma nova disciplina ao mundo do trabalho, mas
principalmente para contrarrestar a tendência decrescente da taxa de lucro que
caracterizava a conjuntura após a segunda guerra mundial. Ou seja, a qualidade
desse processo não é movida simplesmente por uma nova fusão do capital bancário
com o capital industrial, mas por uma configuração inteiramente nova, que
envolve praticamente todas as fases do ciclo do capital.
A exportação de capitais hoje difere significativamente
do período da segunda revolução industrial e mesmo no período de ouro do
Walfare State. No período inicial do imperialismo, a exportação de capitais era
destinada à construção de estradas de ferro, minas, portos e outros
equipamentos de infra-estrutura, sem que houvesse grandes inversões na área
fabril, até mesmo porque não era interessante para os países líderes desse
processo a industrialização da periferia. Isso pode ser constatado pelo fato de
que apenas alguns desses países conseguiram realizar sua industrialização,
assim mesmo muito tardiamente. Somente com a internacionalização da produção é
que os capitais migraram para a
construção de plantas fabris em alguns países da periferia, mas aí já se
tratava de um processo novo, onde a internacionalização da produção conduzia a
burguesia a extrair o valor diretamente nestas regiões.
Ouro aspecto que chama a atenção na exportação de capital
atual é o fato de que cerca de 80% do investimento direto externo não está
direcionado aos países da periferia, mas aos países centrais, ressaltando-se
ainda que vem decrescendo a participação dos países periféricos neste tipo de
investimento[16]. Se a
exportação de capital está se desenvolvendo centralmente entre os próprios
países imperialistas, a relação de subordinação e de trocas desiguais deve ter
uma nova leitura, e não ficar restrita à tradicional subordinação entre os
países imperialistas do passado e suas colônias ou nações satélites. É bem
verdade que a subordinação é a lógica da relação centro-periferia, mas o
montante de recursos dessas operações direciona o centro do fenômeno para
outras regiões e não para a periferia.
Todavia, o aspecto mais importante a exportações de
capitais hoje não se verifica na esfera produtiva, mas essencialmente na órbita
financeira. A partir do final dos anos 60, constata-se crescentemente a
privatização da liquidez internacional, ao contrário do período anterior,
quando a maioria dos empréstimos era oriunda de entidades financeiras
internacionais. Essa privatização foi fruto de um movimento do capital
norte-americano no sentido de burlar as leis restritivas a saídas de capitais
do País. Para tanto, os bancos começaram a criar títulos com valor em dólar
americano, mas emitidos fora dos EUA, mecanismo que foi crescendo como uma bola
de neve e formando um peculiar mercado de moedas, que posteriormente
transformaria e Europa e, especialmente, Londres, no principal centro
financiador das atividades mundiais[17].
A internacionalização do capital bancário consolidou-se
com a criação dos consórcios internacionais e das agências insulares nos
paraísos fiscais. “Este conjunto de fatores provocou uma verdadeira explosão
dos negócios bancários, o que se incrementou com o aumento dos preços do
petróleo praticados pela OPEP. Os bancos, já experientes neste tipo de serviço,
iniciaram uma extraordinária reciclagem dos petrodólares, ampliando de maneira
acentuada os empréstimos para o terceiro mundo[18]".
O Mercado de eurodólares começou a descobrir que era mais vantajoso emprestar
para nações do que para empresas e assim transformou-se no principal
financiador das operações de dívida externa desses países, gerando um débito
gigantesco e aprisionando essas nações nas malhas dos interesses bancários
desregulados.
Mas é importante ressaltar que, com o mercado de
eurodólares, processa-se uma mudança profunda na exportação de capitais, que
viria consolidar-se e incrementar-se com a desregulamentação dos governos
Reagan-Tatcher. “Para ampliar seus lucros a oligarquia financeira mudou o seu
centro de gravidade, reduzindo os investimentos diretos em função do capital de
empréstimos, o que amplia o caráter parasitário do imperialismo”[19].
Se o centro de gravidade da exportação de capitais já estava alterado com a
formação da dívida externa dos países da periferia, a desregulamentação veio
intensificar de maneira extraordinária esse processo, que hoje se constitui de
mera especulação com o dinheiro.
Outro dado novo na exportação de capitais é o fato de que
as instituições multilaterais, formadas na Conferência de Bretton Woods,
romperam com seus estatutos originários e se transformaram pura e simplesmente
em instrumentos do neoliberalismo, respaldando o frenesi financeiro em curso no
mundo e impondo políticas destrutivas nos países da periferia. Desde a crise da
dívida externa, a partir de 1982 com a moratória mexicana, que o Banco Mundial
e, principalmente, o Fundo Monetário Internacional transformaram-se numa
espécie de Comitê Político-Financeiro do bloco de forças sociais que passaram a
hegemonizar a economia mundial e que têm na especulação financeira o lócus de sua atividade econômica.
A
partilha econômica e territorial do mundo também se desenvolve de maneira
bastante diferenciada do período inicial do imperialismo. No que se refere à
territorialidade, há uma tentativa desesperada dos Estados Unidos no sentido de
se transformar numa potência hegemônica incontestável e, a partir desta
posição, tirar o máximo proveito da nova ordem econômica internacional e realizar
uma recolonização sofisticada dos países da periferia, onde o aspecto central
seria o controle absoluto destas economias, se possível com a instituição da
dolarização generalizada. Trata-se de uma recolonização que não inclui a
ocupação geográfica no sentido clássico (a não ser em regiões rebeldes, ou
ainda onde for determinante os interesses americanos, como na Amazônia, por
exemplo), mas busca o controle econômico-financeiro dessas regiões.
Ainda com relação à partilha territorial, está em curso,
com uma série de problemas, a formação dos blocos econômicos nas principais
regiões econômicas do mundo. Estes blocos refletem, de um lado, os problemas e
contradições da luta interburguesa, e de outro, uma surda luta de resistência
contra a tentativa norte-americana de construir uma ordem unipolar, tendo a
nação yanque como centro. Como se trata de um processo em construção, não se
pode visualizar ainda o desfecho definitivo. Mas, de qualquer forma, a partilha
territorial do mundo hoje tem aspectos radicalmente divergentes dos tempos dos
primeiros monopólios.
Do ponto de vista econômico, a partilha definitiva também
será resultado da luta surda pela hegemonia em curso nos países centrais. Mas o
processo intenso de mega-fusões e incorporações que vem sendo realizada
especialmente na década de 90 indica uma remonopolização da burguesia e a
tentativa de cosmopolitização, se não plena pelo menos regional. A configuração
do controle dos mercados, tanto no que diz respeito ao investimento produtivo
quanto financeiro, vai depender não só do sucesso da globalização produtiva,
mas principalmente do resultado do processo de financeirização da riqueza
imposto pelo bloco de forças no poder nos países centrais e da periferia.
Finalmente, a tendência à decomposição e ao parasitismo,
identificado por Lenin como sendo uma das características da oligarquia
financeira mantém a sua essência, mas foi
aprofundada de maneira extraordinária e revela aspectos novos e
relevantes. A oligarquia financeira ampliou o seu parasitismo e muitos Estados
imperialistas transformaram-se em nações rentistas[20],
o que lhes permite ampliar o poder regulador e orientador dessa nova fase do
capital. A transferência de recursos dos países da periferia para os países
centrais nas duas últimas décadas, por conta principalmente dos mecanismos
financeiros impostos pela nova elite no poder, pode ser considerada muito maior
que toda a extorsão realizada no período colonial, o que por si só dá uma
dimensão do rentismo institucionalizado de nossa época.
Como se sabe, a financeirização da riqueza ou o rentismo
institucionalizado, é uma expressão degenerada da acumulação de capitais e
demonstra um aprofundamento sem precedentes do parasitismo da nova burguesia. A
“valorização” da riqueza pela via financeira cria uma contradição entre a
velocidade de expansão da órbita financeira, o crescimento do setor produtivo e
o poder aquisitivo das massas, tornando assim a defesa da riqueza por esta via
uma aventura sem futuro, pois haverá inevitavelmente um momento de ruptura
desse processo para compatibilizá-lo com a economia real, o que deverá ter
conseqüências dramáticas tanto para especuladores quanto para a ordem econômica
capitalista.
O século XX pode ser considerado uma época de mudanças extraordinárias
para a humanidade, um século revolucionário, muito embora com um final trágico.
Nestes 100 anos o mundo conheceu pela primeira vez em sua história um novo modo
de produção e uma nova formação social, que abolia a propriedade privada dos meios
de produção e instituía uma sociedade governada pelos produtores. Mas também
foi testemunha de uma tragédia histórica: a queda da União Soviética e dos
países do Leste Europeu e a restauração capitalista nesses. Além disso, o
sistema capitalista reestruturou-se com uma vitalidade impressionante, capaz de
impor novamente à humanidade regras e normas que se imaginava sepultadas pela
história.
O século começa com uma grande revolução no México, em
1910, quando os camponeses cumprem uma jornada revolucionária, que abala todas
as estruturas sócio-econômicas do País, muito embora, por suas limitações
ideológicas, não tenham completado o ciclo revolucionário. Somente a partir de
1917, com a revolução bolchevique, abre-se efetivamente um ciclo novo na
história da humanidade. A partir daí parecia que o mundo estava em marcha para
o socialismo. Essa visão consolidou-se com a derrota do nazismo, para a qual a
União Soviética teve um papel preponderante, quando cerca de um terço da
humanidade passou a viver em sistemas diferentes do capitalismo. A marcha
progressista prosseguiria com as lutas de libertação nacional e a
descolonização das décadas de 50 e 60 e as lutas de libertação nacional em todo
o mundo, inclusive com a criação de uma primeira nação socialista nas Américas
– Cuba, além de outras nações em transição para o socialismo na África.
O ciclo progressista que se iniciou em 1917 seguiu
vitorioso até a revolução sandinista, em 1979, mas fechou-se bruscamente no
final da década de 80, com a queda do Muro de Berlim, e especialmente no início
da década de 90, com a desagregação do bloco socialista do Leste europeu. O
capitalismo, ao contrário do que imaginavam os clássicos e os revolucionários
de todo o mundo, não foi a bancarrota. Pelo contrário, no final do século XX
conseguiu demonstrar ainda uma enorme vitalidade, não só ao derrotar as
primeiras experiências socialistas, mas também ao realizar uma reestruturação
produtiva e uma nova configuração financeira, que vêm produzindo uma mudança de
qualidade neste velho modo de produção.
No entanto, o ciclo de euforia dos capitalistas que se
abriu com as derrotas da década de 90 está se esgotando, pois o núcleo central
de sua ideologia, o neoliberalismo, está cada vez mais intensamente sendo
contestado não só por expressivos setores da população, mas até por segmentos
burgueses que antes o apoiavam entusiasticamente. O produto social destas duas
décadas, por sua agressividade contra o movimento operário, por sua arrogância
contra os valores humanos e sociais, pela imensa concentração de renda e
ampliação da barbárie social, tornou mais aberta e mais clara luta de classe.
Além disso, a desmoralização das instituições burguesas e a manipulação
indiscriminada dos meios de comunicação, estão servindo para desmistificar ilusões
e criar entre as massas um sentimento de independência política, muito embora
não se tenha ainda uma síntese que as oriente no sentido da buscas de mudanças
profundas no sistema.
Objetivamente, o sistema capitalista está potencialmente
mais fraco que no período do imperialismo clássico. As modificações que o
sistema vem sofrendo nesta nova fase aprofundaram todas as suas contradições,
podendo-se afirmar que hoje estamos muito mais próximos do socialismo, em
caráter global, do que no período em que Lenin escreveu “O Imperialismo”. A
globalização produtiva, com seu imenso potencial, tende à crise pela
superprodução de mercadorias, oriunda da superacumulação de capitais. Caso os
capitalistas da área produtiva queiram regular a produção, desviando recursos para
a órbita financeira, e assim evitando a superprodução, não poderão
desvencilhar-se da armadilha das contradições, uma vez que a fuga para frente
na órbita financeira, apenas incrementará a crise nesta área. Por qualquer dos
ângulos que se possa observar a economia contemporânea, há uma perspectiva de
crise em larga escala. Isso não significa que o capitalismo está no fim, mas
indica que o volume de contradições é tão grande que a crise poderá originar
uma situação revolucionária.
Estes momentos históricos de transição são pródigos de
acontecimentos inesperados, tanto no campo social quanto político. Ora, numa
situação dessa ordem, a tendência principal é a de que, quanto maior for a
crise, maiores possibilidades terão as classes populares para disputar a
hegemonia com a burguesia. A reestruturação produtiva está criando uma classe
operária mais moderna, mais especializada e com muito mais iniciativa no
interior das plantas fabris. Esta classe será a vanguarda da luta pelas
transformações, não só pelo seu papel no interior da produção, mas porque a
nova conjuntura necessitará de sujeitos políticos mais preparados e com peso
suficientes para assestar golpes decisivos aos inimigos de classe.
Além disso, a diversidade de formas de exploração, a
agressividade social do neoliberalismo e a desmoralização das instituições
seculares estruturadas pelo capitalismo podem abrir possibilidades para que as
classes populares encaminhem suas lutas de forma diferente. Um dos fatores que
mais se destaca nesta nossa época é a clara limitação das lutas institucionais.
Afinal não se pode combater esta nova fase do imperialismo com as armas da fase
anterior. A via institucional, como caminho privilegiado para as mudanças, está
esgotada, mantida esta institucionalidade do grande capital. Privilegiar apenas
esse caminho significa optar pela frustração periódica, pois a cada embate
político, como no caso das eleições, a burguesia utilizará todo o seu poder
econômico, bem como os métodos de manipulação para impor os seus interesses,
restando às forças progressistas apenas a lamentação e a perplexidade.
Por isso é importante verificar a experiência das lutas
dos últimos anos. Uma característica de destaque atualmente é o fato de que
somente aqueles que estão lutando de forma diferente, contra um inimigo que se
utiliza métodos também diferentes, é que estão conseguindo vitórias. Foi a luta
direta das massas que transformou o Movimento dos Sem Terra, no Brasil, no
principal pólo de oposição ao neoliberalismo e na única instituição a derrotar
sucessivamente o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Foi a luta
direta das massas que construiu na Colômbia um poder paralelo, que vem
assestando golpes cada vez mais duros à oligarquia reacionária daquele País.
Foi a luta direta das massas que possibilitou a insurreição no Equador que,
apesar de derrotada, abriu um enorme espaço para as massas atuarem
politicamente e buscaram novamente as transformações no país. Foi a luta direta
das massas que transformou um pequeno Estado do México em referência de
resistência naquele País, sendo que até hoje o governo não conseguiu derrotar o
movimento zapatista. Existem muitos mais exemplos na conjuntura atual, mas
estes bastam para configura uma via luta contra o neoliberalismo.
Em síntese, apesar da derrota da primeira experiência do
socialismo, o sistema capitalista não se transformou num referencial para a
humanidade, nem destruiu a possibilidade de construção de uma sociedade sem
classes. Há a possibilidade real de que a crise oriunda do fracasso do
neoliberalismo abra uma nova e prodigiosa situação revolucionária, onde a
questão do socialismo reapareça como uma vitalidade bem maior da que ocorreu
com o aparecimento dos monopólios, só que agora livre das deformações e dos
desvios que ocorreram no recente passado socialista.
Além disso, por mais paradoxal que
pareça, a reestruturação produtiva está construindo as bases para uma sociedade
da abundância, uma vez que o desenvolvimento das forças produtivas incrementará
de maneira extraordinária a produtividade do trabalho. No entanto, como todos
sabemos, o sistema capitalista não tem nenhum compromisso com o progresso
social e, portanto, não será capaz de satisfazer as necessidades materiais da
população. Mesmo assim, essas forças produtivas sofisticadas proporcionam os
elementos objetivos para a sociedade da abundância de bens e serviços. Caso se
conquiste as transformações estruturais do capitalismo no decorrer de uma crise
mundial do sistema, já se tem as bases materiais para a construção da sociedade
comunista.
* Edmilson Costa, é doutor em Economia pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp), ex-diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo
e atualmente coordenador do Instituto de Pesquisas Econômicas, Sociais e
Administrativas da Universidade do Grande ABC, em São Paulo, onde leciona
Economia e Metodologia da Pesquisa Científica. É autor de O Imperialismo, (Global Editora, 1986); A Política Salarial no Brasil (Boitempo Editorial, 1997); e Um projeto para o Brasil
(Tecno-Científica, 1998), além de artigos publicados no Brasil e no exterior.
[1] Este ensaio é uma releitura de um conjunto de trabalhos que o autor publicou sobre o tema, entre os quais “O Imperialismo”, Global Editora, 1986; “Reflexões sobre o capitalismo contemporâneo”, Revista Análise, PUC-RS, 1993; “O capitalismo contemporâneo e a crise dos Estados nacionais” in "O Leviatã", 1996.;“A encruzilhada da globalização ou a necessidade de reinventar a utopia”, Cadernos CPV e Brasil Revolucionário, 1998; “Contribuição para o debate sobre a globalização”, texto para o XI Congresso do PCB; Curso sobre “Globalização e Mercosul”, realizado na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, 1997; além de reflexões mais atuais sobre a globalização e a nova fase do imperialismo.
[2] A extração da valor fora das fronteiras nacionais foi profundamente estudada por Charles-Albert Michalet, em Capitalismo Mundial. São Paulo: Paz e Terra, 1984, muito embora o trabalho de Michalet não esteja vinculado ao processo de globalização atual.
[3] Este é o título de uma trabalho pioneiro no Brasil de Braga, José Carlos de Souza. A financeirização da riqueza – a macroestrutura financeira e a nova dinâmica dos capitalismos centrais. Texto para discussão. Fundap, 1991.
[4] Dados citados em Chesnais, François. A Mundialização do Capital. São Paulo: Xamã, 1996.
[5] Resoluções do X Congresso do PCB, 1993.
[6] Inozentsev, N. O capitalismo contemporâneo, novas realidades e contradições. Venda Nova–Amadora: Manuel Xavier Editores, 1975.
[7] Kurtzman, Joel. A morte do dinheiro – como a economia eletrônica desestabilizou os mercados mundiais e criou o caos financeiro. São Paulo: Atlas, 1995.
[8] O processo de remonopolização global já era indicado em ensaio que elaboramos em 1992 e que posteriormente foi publicado em 1993, em Reflexões Sobre o Capitalismo Contemporâneo (Revista Análise, vol. 4, No. 1. PUC-RS. Porto Alegre, 1993). “Em nível do capital, haverá um processo de refusão das burguesias, mediante fusões e incorporações de grandes conglomerados industriais e financeiros, levando inevitavelmente a uma remonopolização mundial, novas partilhas de mercado e uma maior cosmopolitização burguesa, hierarquizada a partir do seu pólo hegemônico”.
[9] Petras, James. Neoliberalismo en América latina – la izquierda devolve el golpe.
Rosario, Argentina: Homo Sapiens Ediciones, 1997.
[10] Anderson, Perry. Balanço do neoliberalismo in Pós-neoliberalismo, organizado por Emir Sader e Pablo Gentili. São Paulo: Paz e Terra, 1995.
[11] Friedman, Milton. Capitalismo e liberdade. Coleção “Os Economistas”. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
[12] Petras, op. cit.
[13] Este é o título de um livro pioneiro de René Villareal, A Contrarevolução Monetarista. Rio de Janeiro: Record, 1984. São Paulo: Record, 1984.
[14] Batista, Paulo Nogueira. O Consenso de Washington – a visão neoliberal dos problemas latino-americanos. In Cadernos da dívida externa. São Paulo, 1995.
[15] Lênin, Vladimir. Imperialismo, fase superior do capitalismo. Lisboa: edições Avante, 1975.
[16] Chesnais, François. A Mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996
[17] Moffit, Michel. O dinheiro do Mundo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.