México: o criador e a criatura

A reinvenção do país como projeto das redes econômicas globais

 

Mary Shelley escreveu em 1816 o livro “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno”. Nele, um médico, Dr. Victor Frankenstein, forja uma criatura a partir de restos cadavéricos. O organismo ganharia “vida” depois de fortes descargas elétricas. A parábola tem óbvias reverberações no campo da clonagem, da robótica e da inteligência artificial. Mas é no campo das relações econômicas internacionais, que ela pôde encontrar o seu  terreno mais fértil.

 

Tangido pela crise econômica e acossado pelos EUA, o México se tornou objeto de uma  experiência frankensteiniana e se transformou em uma admirável espécime de laboratório. Um exemplo de  cobaia voluntária bem sucedida do projeto de integração global subordinada. País considerado exemplar  por estar desempenhando muito  a contento o novo papel reservado às economias capitalistas subalternas no século XXI.

 

A mutação tem raízes na crise da dívida em 1982, transparece dramaticamente nos anos de desmonte e  ajuste ao NAFTA[1] a partir de 1994, e se  concluí com o  surgimento de um novo produto-país  no ano de 2001[2].

 

Essa reestruturação, em forma de via crucis, tornou-se paradigmática especialmente para “nosotros” latino-americanos. Depois de eleito sob os auspícios da plutocracia e por sobre os restos mortais da democracia americana, George W. Bush escolheu o México para sua primeira visita oficial. Deixava explícito desse modo o quão decisiva é a experiência mexicana para os planos dos grandes oligopólios norte-americanos. O  Governo do atual Presidente, Vicente Fox,  foi nomeado embaixador do Império tendo como missão  promover a Área de Livre Comércio das Américas junto a seus pares latino-americanos[3]. Em outras palavras, o México é o anfitrião, o chamariz e a vitrine do projeto expansionista e privatista que as elites estadunidenses querem impor ao hemisfério.

 

Vê-se cristalinamente: o presente  do México é o futuro previsível das relações EUA-América Latina. Daí a importância de percorrer cada estágio dessa experiência,  analisando as suturas e reordenações feitas ao país. Procedimentos estes que neutralizaram mecanismos de decisão nacional, eliminaram cadeias industriais inteiras, decompuseram e desagregaram economias agrícolas e redes comerciais interdependentes entre si.

 

Anos 80: o México perdido  numa noite suja

O padrão de utilização do Estado, monopolizado pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI)[4], como instrumento cartorial para resguardar posições-chave na economia mexicana para o capital nacional, mostra sinais de falência nos idos de 1983. Esse Estado, fruto de uma revolução anti-oligárquica e anti-imperialista[5], administrava sua legitimidade através de políticas distributivas como: a) a manutenção dos ejidos[6] b)o apoio à pequena iniciativa empresarial  c)o arbítrio de acordos trabalhistas, sempre com caráter paternalista e clientelista.

 

A razão de viver do Leviatã priista, no entanto, era possibilitar  sobrevivência à débil burguesia mexicana. Para isso recorria ao financiamento público facilitado, ao protecionismo contra importados similares, a compras governamentais e ao fornecimento estatal de insumos e de energia (particularmente com base em petróleo).

 

De um lado, esse Estado mantinha o controle sobre as massas populares manuseando benesses e símbolos. Por outro, vertebrava e articulava as elites nacionais. O caráter estratégico e orgânico do Estado para o capitalismo mexicano, em meio à centralização e monopólio absoluto do PRI, impôs um caráter errático e caótico ao processo de desenvolvimento econômico do México. Uma tecnoburocracia gigantesca, com aparelhos autônomos e sobrepostos, favoritismos, cartorialismos, autoritarismo e corrupção foram os fatores que eliminaram qualquer possibilidade de coesão e racionalidade em torno de um “projeto nacional”. 

 

O descarte desse projeto só viria  em definitivo quando secassem as fontes externas de financiamento, sob condição de uma repactuação. A crise da dívida externa nos anos 80, que acometeu grande parte da América Latina, vinha como resultado da recessão mundial e de seus efeitos colaterais, a instabilidade cambial e, principalmente, a elevação estratosférica dos juros internacionais. Foi nesse contexto de ofensiva do capital financeiro internacional que se deu o processo de renegociação da dívida externa mexicana

 

A partir daí, sob a tutela do FMI, as elites mexicanas foram adequando o país às conveniências do grande capital: liberalização do mercado financeiro, abertura comercial e desestatização, incluindo privatizações e fim de subsídios. Isso significava modificar as bases de poder do populismo burocrático do PRI em detrimento de “compadrios” com setores corporativos nacionais e em prejuízo de clientelas nos setores médios e populares.[7]

 

O novo rumo, à direita e sem retorno, se consolida com a  eleição do Presidente Salinas de Gortari,  em 1988. E foi sob os cuidados desse Governo que o México foi enfim aceito. Ainda que com sapatos maltrapilhos, ainda que não à direita do todo-poderoso, lugar por direito do Canadá. A comercialização da “alma mexicana” nos moinhos satânicos do grande capital  mais do que recolocar a velha  questão da identidade(“quem são os mexicanos”), a desloca para uma situação limite: o México continuará existindo?

 

Anos 90:  o derradeiro e solitário encontro

O labirinto, com seus infindáveis e enganadores caminhos, é um arquétipo da fragilidade e irrevogabilidade da ação humana. O desenrolar do mito mostra que um tênue fio pode nos livrar do Minotauro - a imprevisibilidade caótica - e nos levar aos braços de  Ariadne, nosso futuro imaginado. Octávio Paz utilizou essa imagem para interpretar a inconclusa identidade mexicana em seu livro “O labirinto da solidão”.

 

Nesse processo de busca, os mexicanos perceberiam menos sua  originalidade do que sua solidão, mais uma caricatura sem rosto do que um  esboço criativo  e promissor.[8] O contraponto da afirmação é a auto-negação, alienação. É descaracterizar-se, converter-se numa criatura montada sem identidade e sem diálogo consigo mesma, perder-se enfim. E o caminho da perdição, no caso mexicano, fica bem ao lado, ao norte do Rio Grande.

 

Os EUA, vitoriosos da Guerra Fria, tinham uma nova projeção geopolítica: a unipolarização do mundo. Esse projeto (“Iniciativa para as Américas”), expresso em 1990 por George Bush, o pai-fundador, tinha o intuito de reagrupar e fortalecer a base regional de sustentação da economia dos EUA para neutralizar e subordinar os dois sub-pólos capitalistas (União Européia e Japão), além de sufocar no nascedouro candidatos a pólos, sub-pólos emergentes ou pólos alternativos (China, Rússia, Índia, Brasil, México e Argentina)[9]

 

Apesar de algumas escaramuças internas, que culminaram no assassinato do candidato oficial do PRI Luis Donaldo Colosio, as elites mexicanas, deram por encerrado, precisamente no ano de 1994, o processo de afirmação nacional. Teriam  à sua frente um novo Presidente, Ernesto Zedilho, de perfil ainda mais tecnocrático, confiável e manobrável, como convém às forças do mercado. A sua administração seria responsável pela consolidação da transição da nação para a condição de província alheia, na melhor das hipóteses um “dominions”[10]. Nessa transferência procuraria garantir um nicho para as novas elites mexicanas sobrevivessem enquanto segmento privilegiado, mesmo que subordinadamente, no “interior” da economia norte-americana a ser englobada pelo Nafta.

 

 

Naturalmente haveria de surgir uma nova justificação e um novo discurso para dar conta dessa transição entre uma burguesia nascida e nutrida pelo Estado e pelo nacionalismo e uma nova elite internacionalizada , vinculada ideológica e economicamente ao grande capital  dos EUA. A metamorfose se expressou na teoria do “regionalismo aberto”[11]. Nela, a defesa dos interesses nacionais mexicanos devia acompanhar as externalidades e se estender paras bordas vizinhas. De acordo com essa versão, os interesses nacionais não desapareciam como referência e foco da responsabilidade política, mas se recolocavam em uma territorialidade ampliada e compartilhada.

 

Essa teoria mostrou ser adequada para conceber a integração de economias equivalentes com pouca variação estrutural. Mas no caso dos EUA e suas cadeias oligopólicas, como imaginar que aceitariam algum compartilhamento de soberania com países que são ou suplementares ou setorialmente concorrentes?. A única complementaridade admitida é entre EUA e Canadá, países siameses com estruturas decisórias econômicas comuns. Na prática, os anos de liberalização comercial e  financeira  tiveram um efeito altamente corrosivo sobre a soberania dos Estados nacionais latino-americanos, e essa  é a premissa primordial e oculta da teoria do regionalismo aberto.

 

Foi sob a alegação de que  a possibilidade mesma da existência das nações depende de  uma adequada conexão ao mercado mundial e aos seus fluxos de capitais, bens e tecnologia, que o Governo mexicano assinou o Acordo de Livre Comércio da América do Norte. A Zona de Livre Comércio composta pelo Canadá, EUA e México, seria um campo recíproco para o intercâmbio comercial, financeiro  e tecnológico. Apelando para as fontes culturais mais recônditas dos mexicanos diziam que não era necessário temer a perda de membranas de proteção e diferenciação. Os novos sacerdotes do mercado globalizado vieram proclamar que a destruição é apenas a garantia da criação e o sacrifício somente a condição para uma nova vida.

 

As elites nativas, dessa vez sem pasmo e assombro, difundiram o mito que o Deus da morte e da vida, Quetzalcóatl,[12] viria não do leste como previsto mas do norte. O Deus  da destruição criativa  voltou e sua ira parece redobrada. O Tio Sam reivindica o México para ajustar(suas) contas. 

 

O Nafta como caldo de cultura do totalitarismo privado

Diz-se que todos os latino-americanos carregam o trauma da Conquista como se fora um estupro. Os mexicanos carregam uma nódoa  ainda maior referindo-se a Malinche, amante nativa de Cortés que  facilitou-lhe a conquista. O que então se pode esperar do neo-expansionismo norte-americano? Apesar das insistentes promessas dos EUA  em garantir   uma operação indolor e sem efeitos maléficos para aqueles que a facilitarem, a incorporação do país ao Nafta significou a violação sistemática da nação mexicana, com todas suas horizontalidades remanescentes, em função de um conluio vertical entre as elites  estadunidenses e  as   mexicanas

 

O Nafta estabeleceu não apenas uma área de livre comércio em abstrato mas um primeiro campo de provas para a imposição do direito instantâneo e “de fato” dos grandes grupos oligopólicos norte-americanos. Trata-se da aplicação antecipada do Acordo Multilateral de Investimentos, o  projeto estratégico do grande capital, que almeja fornecer uma nova racionalidade, universalidade e legitimidade à economia das redes globais. Em termos táticos  e de curto prazo, visa legalizar o desmonte de cadeias econômicas internas e criminalizar  políticas que possibilitem a geração e proteção de investimentos, emprego e renda para nacionais.

 

As novas elites internacionalizadas, tendo como núcleo duro as altas finanças e as grandes corporações norte-americanas, procuram desesperadamente eliminar as antigas e inconvenientes referências de legitimação: o Estado, a nação e a democracia. Precisam tornar respeitável e  necessário tanto o canibalismo econômico quanto a anulação das identidades. E ainda como precaução, pretendem suprimir os últimos resquícios de autonomia esvaziando os sistemas políticos de representação e de administração pública.

 

 Foi sobre o cadáver do antigo Estado Mexicano que  nasceu  a flor de Lácio do totalitarismo privado. Essa cultura produzida “in vitro” pelos EUA, poderá ser estendida ao resto de hemisfério americano e apenas aguarda a preparação do terreno, no bojo das negociações da ALCA- Área de Livre Comércio, para se propagar.

 

Os interesses dos oligopólios privados norte-americanos, traduzidos em uma “lex mercatoria”[13], estão plenamente assegurados no Nafta. Em linhas gerais proporcionam a eliminação de anteparos nacionais de regulação e abrem caminho para uma reorganização em função desses mesmos interesses. A eliminação das articulações econõmicas internas mexicanas, ou seja, a sua  “flexibilização”, foi um pré-requisito indispensável para que se estabelecessem os laços de suplementaridade entre a economia mexicana e a norte-americana.

 

 Os desdobramentos  do Nafta na economia do México confirmam essas análises :

a)MERCADO DE TRABALHO FLEXIBILIZADO E PRECARIZADO:  estabeleceu-se  regras flexíveis no mercado de trabalho possibilitando a manipulação e controle dos custos trabalhistas de acordo as necessidades momentâneas do mercado;

b)MERCADO FINANCEIRO DESREGULADO E INCONTROLÁVEL:  permitiu-se a livre vazão dos fluxos financeiros por meandros  financeiros internos a fim de capturar pequenas correntes de capital para engrossar os caudalosos fluxos especulativos das mega-intituições financeiras;

c) LIVRE CONCORRÊNCIA E LIVRE MONOPÓLIO:  liberaram-se os mercados, ainda que residuais, através da eliminação de barreiras comerciais e livre concorrência nas compras governamentais, de forma a premiar os atores mais “competitivos”;

d) CONTROLE DAS PATENTES E ROYALTIES: prescreveu-se uma fiscalização rigorosa sobre patentes e royalties a fim de preservar o “avanço tecnológico”  e a “qualidade” dos produtos e serviços;

e) INVESTIMENTOS LIVRES DE CONTROLES NACIONAIS: determinou-se que é plena a liberdade das redes de investir, desinvestir, comprar, vender, remeter, transferir sem qualquer empecilho ou mecanismo regulador de origem nacional.

 

O novo direito em vigor no México se assemelha a uma procuração pública em que a sociedade repassa, definitivamente, plenos e totais poderes às redes privadas oligopólicas. Essas condições, contudo não seriam impostas integralmente se não fossem acompanhadas de sinais apocalípticos. Em dezembro de 1994, com menos um ano de NAFTA, ocorreu a maxidesvalorização do peso mexicano gerando um rombo de mais de 80 bilhões de dólares, o chamado “efeito tequila”.[14] Naquelas condições, os novos conquistadores não encontraram mais nenhuma dificuldade  para reformatar o país ,  segundo os desígnios imperiais. Chegaram ao ponto de exigirem  como lastreamento da operação,  faturas de exportação futuras do petróleo nacional.

 

A “ajuda” financeira dos organismos internacionais e do Governo norte-americano  foi condicionada à abstenção de ressalvas e de resmungos  por parte dos mexicanos. A adesão  ao Nafta, e aos princípios do Acordo Multilateral de Investimentos  ali embutidos, foi completa. Em suas negociações os senhores do capital se assenhoram também do tempo futuro impondo cláusulas de irreversibilidade,  queimando possíveis  pontes de partida e  naus de saída. Nada mais que o velho estilo de negociação anglo-saxão, pragmático e belicoso,  levado à cabo  a partir de fatos consumados.

 

Os resultados iniciais da experiência

 

Algo vivo por definição apresenta autonomia e animação. O que é um país então quando lhe retiram toda margem de autonomia? Quando o convertem em um eficiente e previsível acessório?  Olhando o México, contudo, percebem-se  claros e intensos sinais de vida econômica. O que significam?

 

O México é o país latino-americano que mais tem atraído investimentos estrangeiros, e que tem tido o maior incremento de exportações, a despeito da recessão norte-americana, especialmente de produtos manufaturados e eletrônicos. Alardeia-se que nasceu um novo tigre latino-americano e que os países restantes devem seguir suas pegadas. Se há estagnação e  fuga de capitais na maioria dos países da América Latina, no México ocorre o contrário. Com o aval e proteção dos EUA, sob o arcabouço do Nafta, se tornou uma das opções mais rentáveis e estáveis para os investimentos privados. As agências avaliadoras de risco atestam  que o produto-país é confiável e lucrativo[15].

 

Esses investimentos representam em parte a ocupação de nichos e mercados residuais(como o de telefonia celular e o de serviços financeiros) na economia mexicana, através de franquias e filiais. Trata-se da otimização das redes comerciais e financeiras norte-americanas alongando e potencializando seu espectro de atuação. Isso não seria possível sem que se desmontassem cadeias produtivas nacionais antes protegidas e subsidiadas pelo Estado. Das estruturas industriais tradicionais do México sobreviveram apenas as cadeias automobilísticas multinacionais,  com índices decrescentes de nacionalização do produto, e o setor petrolífero, cada vez menos petroquímico e cada vez mais primário-exportador.

 

A agricultura comercial  voltada para o mercado interno sofreu duros revezes com a abertura[16]. O vento levou  o tradicional algodão mexicano, convertendo o cinturão do algodão do sul dos EUA (o “cotton belt”) no maior fornecedor local. Até mesmo  o milho, que é originário do México e ingrediente básico no cardápio popular, deixou de vir dos platôs úmidos entre as Sierras Madres.

 

 De onde então jorra a fonte da “riqueza” do  metamorfizado México? Pistas surgem ao se analisar o comércio externo México-EUA. O primo pobre passou a exportar bens de consumo duráveis(eletrônicos especialmente) para o primo rico que, em troca, passou a remeter semi-manufaturados e produtos intermediários(peças e componentes). É nessa balança comercial, aparentemente favorável ao México, que se esconde o mais intenso comércio intra-firma do mundo, praticado pelas multinacionais americanas. Não foi por acaso que as maquiladoras[17] tiveram como berço a fronteira norte, em cidades como Tijuana, Mexicali, Matamoros e Ciudad Juarez. 

 

Os atrativos são conhecidos: os salários mexicanos são em média 10 inferiores aos norte-americanos, os impostos são reduzidos, a fiscalização é discreta e os lucros e os investimentos podem passear à vontade antes de voltar ao sólido terreno pátrio. Era o que faltava para proporcionar grande competitividade às cadeias produtivas norte-americanas: maior descentralização geográfica da produção para áreas de baixo custo operacional e sob total controle institucional.

 

O sucesso da economia mexicana correspondeu à disponibilização do seu território, com seus recursos naturais, suas estruturas econômicas e sua população,  para um replanejamento  praticamente unilateral  por parte das empresas norte-americanas. Os fatores econômicos internos foram remontados como múltiplas áreas de enclave. Cada fragmento econômico por si e o grande capital norte-americano por todos.

 

Está sendo composto um novo papel econômico para os países latino-americanos. Um papel que está muito além da “nova divisão internacional do trabalho”, como se convencionou chamar o processo descentralização das multinacionais em direção à periferia a partir de  1950. A exemplo do México, esses países são chamados a se reterritorializar  no interior de uma moldura transnacional onde existiriam apenas como esboços em uma tela arbitrariamente desenhada e redesenhada de acordo com as necessidades cambiantes e momentâneas do mercado.

 

As grandes redes econômicas norte-americanas pretendem criar um hemisfério à sua imagem e semelhança, ou seja uma mega-rede  flexível que colecione as mais variadas habilidades e competitividades, os mais distintos fatores econômicos, isto é, conjuntos de mão-de-obra, reservas de matérias-primas, estruturas comerciais, industriais e financeiras e mercados.

 

Motins no Império

Se o México já é parte inerente do território imperial, um novo “dominion”, qualquer contestação à ordem local se torna crime de sedição, de lesa-majestade . Consta que Dom Pedro Alvarado,  intendente de Cortés, proclamou em 1523, aos povos que ainda resistiam ao sul da Península de Yucatán, uma sentença: “Se aceitam submeter-se ao rei de Espanha serão cumulados de favores, exceto o favor de serem livres, se preferem  a guerra, serão tratados como traidores.”[18]

 

A burguesia e a tecnocracia mexicanas se submeteram na expectativa de tais favores, enquanto os rebelados zapatistas[19] fizeram questão de serem combatidos como traidores do Império. A deterioração do tecido social mexicano em meio à corrosão dos mecanismos políticos institucionais,  tornou a luta armada  um espaço legítimo de articulação e representação de interesses. A marcha do Exército Zapatista de Chiapas até a capital, em março desse ano, acabou ocupando um imenso vácuo político e por isso agregou milhares de pessoas no seu curso. Emblemáticamente multiplicam-se novos grupos armados nas outras províncias do país[20]

 

Em que outro lugar do mundo um movimento guerrilheiro pode vir publicamente se manifestar em frente ao Palácio do Presidente, sob aclamação de mais de 100 mil pessoas? Essa pergunta leva a outra: que autoridade, então, pode ter um Governo que apenas gerencia o desmonte do país em nome das grandes redes?

 

 Ao simulacro do México falsamente cosmopolita não adianta opor o simulacro anterior do México-nação indivisa. Um, em nome da globalização e da modernidade tecnológica, salva apenas as elites despatriadas. O outro, em nome do nacionalismo, salva apenas elites tecnocráticas e cartoriais.

 

Os múltiplos Méxicos excluídos, com suas regiões, etnias e segmentos sociais, querem se afirmar enquanto  um novo povo  em construção e em marcha. Uma nova nação plural, justa e democrática que seja   o feliz experimento de uma  globalização alternativa.

Bibliografia

 

1.                 CANO W,” Soberania e Política Econômica na América Latina”             São Paulo, Editora UNESP,1999.

2.                 DUPAS G.,”Políticas de bloco no continente americano” São Paulo, in Política Externa editora Paz e Terra, número 02, setembro/outubro/ novembro de 2000.

3.                 FERRO M,”História das Colonizações”,São Paulo, Editora Cia das Letras, 1999.

4.                 FIORI J.L.,”O cosmopolitismo de cócoras”, São Paulo, in Revista do Instituto de Estudos Avançados, número 39, maio/agosto de 2000.

5.                 FIORI J.L.,” Brasil no espaço”, Petrópolis, Editora Vozes, 2001.

6.                 FIORI J.L.org., “Estado e moedas no desenvolvimento das nações”, Petrópolis, Editora Vozes, 1999.

7.                 FUENTES C., “México y los cambios de nuestro tiempo”, Ciudad de    Mexico, Editora Fondo de Cultura Econômica, 1992.

8.                 GARZON NOVOA L.F., “Alca:soy loco por ti América”, Petrópolis, in Revista de Cultura Vozes nº 03, maio-junho de 2001

9.                 GREENSPAN A., “Testimonio ante el Comité de Relaciones Exteriores del Senado de los EUA” in Pensamiento Iberoamericano enero-junio de 1995

10.             PICARD A. A, “El TLCAN:objetivos y resultados 7 años después” 2001, Ciudad de Mexico, ed. RIMALC, 2001.

 

11.             ROS J., “La Crisis Mexicana y la Reforma de la Política Macroeconómica” in Pensamiento Iberoamericano 27-enero-junio de 1995

12.             SANTOS M., “Por uma outra globalização”, Rio de Janeiro, Editora Record, 2000

 

13.             TAVARES M.C.e FIORI J.L.orgs., “Poder e dinheiro”, Petrópolis, Editora Vozes,1998.

 

14.             TAVARES M.C.(org), “Celso Furtado e o Brasil”, São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo,2000.

 

15.              TODOROV T,”A Conquista da América”, São Paulo, Editora Martins  Fontes, 1983.

 

 

Luis Fernando Novoa Garzon

sociólogo, professor da Universidade Paulista-Campinas, mestrando em ciências políticas na UNICAMP

l.novoa@uol.com.br

 

 

 

 

 



[1] North America Free Trade Agreement, Acordo de Livre Comércio da América do Norte entre os EUA, Canadá e México a partir de  1º de janeiro de 1994.

 

[2] Até mesmo o Presidente do Banco Central (o “FED”) norte-americano, Alan Greesnpan, confirma o experimento e se sente deveras satisfeito com os seus resultados : “O México está passando por uma importante metamorfose em direção a um significativo progresso na sua estrutura econômica e financeira” Cf. Alan Greenspan, “Testimonio ante el Comité de Relaciones Exteriores del Senado de los EUA”in Pensamiento Iberoamericano enero-junio de 1995, pag.164 a 164.

[3] Um exemplo mais que revelador dessa delegação é o  Plano Puebla-Panamá/2001.O Governo Fox está negociando junto aos países da América Central um plano de integração comercial e de infra-estruturas   que se prevê a ampliação das redes de maquiladoras em direção ao Panamá.

 

[4] Partido Revolucionário Institucional foi o agrupamento político herdeiro (e coveiro) da Revolução Mexicana de 1910. Manteve-se no poder, usando e abusando de clientelismo, tráfico de influências, manipulação da opinião, corrupção, repressão e extermínio, até o ano de 2000.

 

[5] A Revolução de 1910 procura refazer a história do México em nome da “nação”; por isso, representou um ataque frontal às bases econômicas coloniais: o latifúndio e o imperialismo europeu e norte-americano, bem como às oligarquias rurais e rentistas vinculadas. O assassinato das principais lideranças populares como Emiliano Zapata e a ausência de organização popular autônoma favoreceram a lenta degeneração do processo revolucionário, ainda que dentro de uma dinâmica de avanços e recuos.

 

[6] Terras de usufruto comunitário, reminiscência organizacional indígena institucionalizada no contexto da Revolução de 1910. 

 

[7] Essa “quebra de compromissos” produzirá naturalmente uma cisão interna no PRI. Cuatemoc Cárdenas, filho do maior símbolo do populismo mexicano, o ex- presidente Lázaro Cárdenas, cria o Partido Revolucionário Democrático que se proclama “fiel depositário das bandeiras  nacionalistas e populares”, em oposição ao PRI.

 

[8] “En el Valle de México el hombre se siente suspendido entre el cielo y la tierra y oscila entre poderes y fuerzas contrárias, ojos petrificados, bocas  que devoran. El mexicano se siente arrancado del seno de esa realidad, a un tiempo creadora y destructora, Madre y Tumba.(...) La história de México es la del hombre que busca su filiación, su origen.(...) Nuestra soledad tiene las mismas raíces que el sentimiento religioso. Es una orfandad, una oscura consciência de que hemos sido arrancados del Todo y una ardiente búsqueda: una fuga y un regresso, tentativa por restablecer los lazos que nos uniam a la creación.”cf.  Octávio Paz, “El Laberinto de la Soledad” 1998, Fondo de Cultura Econômica, pag 22 e 23.

 

[9] Cf. Luis Fernando Novoa Garzon,”Alca soy loco por ti América”,in Revista de Cultura Vozes nº 03, maio-junho de 2001, pag 07 a 14.

[10]  “Dominions” correspondem às antigas colônias de povoamento inglesas, consideradas extensões naturais dos mercados industrial, comercial e financeiro da Inglaterra.No século XVIII apesar de não terem acompanhado o ciclo de industrialização inglês, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelãndia,  caudatáriamente se beneficiaram dele. (cf. José Luis Fiori, “ De volta à questão da riqueza de algumas nações”, in Estados  e Moedas no Desenvolvimento das Nações, 1999, Editora Vozes, pags. 16 e 17.)

 

[11] Em contraposição aos  processos de integração regional latino-americanos, inspirados no modelo europeu, que visavam combater  as assimetrias norte-sul, ampliando a escala industrial e criando uma área protecionista ampliada, a “regionalização aberta” priorizava  o acoplamento da região aos grandes fluxos globais de capitais através de acordos de livre comércio.

 

[12]  Quetzalcóatl, deus asteca, era representado com tez clara e barba e por isso se supunha que a chegada dos espanhóis confirmava a profecia de sua volta pelo leste. O papel sangrento e destrutivo do deus foi convincentemente encenado pelos espanhóis com sua rudeza, cavalos e armas de fogo quando as tropas  de Cortês  invadiram a ilha de Cozumel  em 1519. O perplexo Imperador Montezuma mandou que se lhes entregasse os tesouros do templo de Quetzalcóatl, o que só fez  aguçar a gana dos “ emissários divinos”.(cf. Marc Ferro, “História das Colonizações”,1999, Companhia das Letras, pag.51 a 57 )

[13]Direito não estatal, fruto de um planejamento privado de cooperações econômicas em escala transnacional.

 

[14] A internacionalização do sistema financeiro sem qualquer traço de regulação ou controle cambial, converteu o capital especulativo de curto prazo em principal sustentáculo das contas nacionais mexicanas. A orgia de títulos do tesouro mexicano (os  tesobonus) a juros altos,  sustentava artificialmente o país atraindo hot money enquanto  a produção econômica se estagnava. A quebra previsível e programada do sistema financeiro mexicano ocorreu em dezembro de 1994. Da paridade cambial foi-se à decimalidade cambial: 1 peso passava a valer 0,10 centavos de dólar.Cf. Jaime Ros,”La Crisis Mexicana y la Reforma de la Política Macroeconómica” in Pensamiento Iberoamericano 27-enero-junio de 1995, pag 153 a 157.

 

[15] Segundo  analistas da Financeira Global Invest, da mega-corporação Citigroup, e da agência de investimentos privados do Banco Mundial.a “International Finance Corporation”  o México atrai novos fluxos de investidores especialmente “por sua estrutura de política econômica confiável, sua moeda estável e sua participação no Acordo de Livre Comércio para a América do Norte (Nafta)”. Gazeta Mercantil, 6 de julho de 2001.

[16] Cf. Alberto Arroyo Picard, “El TLCAN:objetivos y resultados 7 años después” 2001, Ciudad de Mexico, ed.RIMALC,pag 7 a 10.

 

[17] Empresas que maqueiam a produção montando  componentes importados e  re-exportando o produto final, com baixos custos. As plataformas de exportação asiáticas têm um funcionamento similar

 

[18] Cf. Leo Pomer “América;histórias,delíriose  outras magias”1980, Brasiliense, pag 14.

 

[19]O Exército Zapatista de Libertação Nacional é um grupo guerrilheiro com base social camponesa e indígena,  lançou sua primeira ação, “liberando” áreas em Chiapas, justamente no dia em que o México adere ao NAFTA, em 1º de janeiro de 1994.

 

[20] São  17  novos agrupamentos armados em combate no país, destes o mais consistente é o representado pelas  as Forças Armadas Revolucionárias do Povo(FARP).