Mary
Shelley escreveu em 1816 o livro “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno”. Nele,
um médico, Dr. Victor Frankenstein, forja uma criatura a partir de restos cadavéricos.
O organismo ganharia “vida” depois de fortes descargas elétricas. A parábola
tem óbvias reverberações no campo da clonagem, da robótica e da inteligência
artificial. Mas é no campo das relações econômicas internacionais, que ela pôde
encontrar o seu terreno mais fértil.
Tangido pela crise econômica
e acossado pelos EUA, o México se tornou objeto de uma experiência frankensteiniana e se
transformou em uma admirável espécime de laboratório. Um exemplo de cobaia voluntária bem sucedida do projeto de
integração global subordinada. País considerado exemplar por estar desempenhando muito a contento o novo papel reservado às
economias capitalistas subalternas no século XXI.
A mutação tem raízes na crise da dívida em 1982, transparece dramaticamente nos anos de desmonte e ajuste ao NAFTA[1] a partir de 1994, e se concluí com o surgimento de um novo produto-país no ano de 2001[2].
Essa reestruturação, em
forma de via crucis, tornou-se paradigmática especialmente para “nosotros”
latino-americanos. Depois de eleito sob os auspícios da plutocracia e por sobre
os restos mortais da democracia americana, George W. Bush escolheu o México
para sua primeira visita oficial. Deixava explícito desse modo o quão decisiva
é a experiência mexicana para os planos dos grandes oligopólios
norte-americanos. O Governo do atual
Presidente, Vicente Fox, foi nomeado
embaixador do Império tendo como missão
promover a Área de Livre Comércio das Américas junto a seus pares
latino-americanos[3]. Em outras
palavras, o México é o anfitrião, o chamariz e a vitrine do projeto
expansionista e privatista que as elites estadunidenses querem impor ao
hemisfério.
Vê-se cristalinamente: o
presente do México é o futuro
previsível das relações EUA-América Latina. Daí a importância de percorrer cada
estágio dessa experiência, analisando
as suturas e reordenações feitas ao país. Procedimentos estes que neutralizaram
mecanismos de decisão nacional, eliminaram cadeias industriais inteiras,
decompuseram e desagregaram economias agrícolas e redes comerciais
interdependentes entre si.
De um lado, esse Estado
mantinha o controle sobre as massas populares manuseando benesses e símbolos.
Por outro, vertebrava e articulava as elites nacionais. O caráter estratégico e
orgânico do Estado para o capitalismo mexicano, em meio à centralização e
monopólio absoluto do PRI, impôs um caráter errático e caótico ao processo de
desenvolvimento econômico do México. Uma tecnoburocracia gigantesca, com
aparelhos autônomos e sobrepostos, favoritismos, cartorialismos, autoritarismo
e corrupção foram os fatores que eliminaram qualquer possibilidade de coesão e
racionalidade em torno de um “projeto nacional”.
O descarte desse projeto só
viria em definitivo quando secassem as
fontes externas de financiamento, sob condição de uma repactuação. A crise da
dívida externa nos anos 80, que acometeu grande parte da América Latina, vinha
como resultado da recessão mundial e de seus efeitos colaterais, a
instabilidade cambial e, principalmente, a elevação estratosférica dos juros
internacionais. Foi nesse contexto de ofensiva do capital financeiro
internacional que se deu o processo de renegociação da dívida externa mexicana
A partir daí, sob a tutela
do FMI, as elites mexicanas foram adequando o país às conveniências do grande
capital: liberalização do mercado financeiro, abertura comercial e
desestatização, incluindo privatizações e fim de subsídios. Isso significava
modificar as bases de poder do populismo burocrático do PRI em detrimento de
“compadrios” com setores corporativos nacionais e em prejuízo de clientelas nos
setores médios e populares.[7]
O novo rumo, à direita e sem
retorno, se consolida com a eleição do
Presidente Salinas de Gortari, em 1988.
E foi sob os cuidados desse Governo que o México foi enfim aceito. Ainda que
com sapatos maltrapilhos, ainda que não à direita do todo-poderoso, lugar por
direito do Canadá. A comercialização da “alma mexicana” nos moinhos satânicos
do grande capital mais do que recolocar
a velha questão da identidade(“quem são
os mexicanos”), a desloca para uma situação limite: o México continuará
existindo?
O labirinto, com seus
infindáveis e enganadores caminhos, é um arquétipo da fragilidade e
irrevogabilidade da ação humana. O desenrolar do mito mostra que um tênue fio
pode nos livrar do Minotauro - a imprevisibilidade caótica - e nos levar aos
braços de Ariadne, nosso futuro
imaginado. Octávio Paz utilizou essa imagem para interpretar a inconclusa
identidade mexicana em seu livro “O labirinto da solidão”.
Nesse processo de busca, os
mexicanos perceberiam menos sua
originalidade do que sua solidão, mais uma caricatura sem rosto do que
um esboço criativo e promissor.[8]
O contraponto da afirmação é a auto-negação, alienação. É descaracterizar-se,
converter-se numa criatura montada sem identidade e sem diálogo consigo mesma,
perder-se enfim. E o caminho da perdição, no caso mexicano, fica bem ao lado,
ao norte do Rio Grande.
Os EUA, vitoriosos da Guerra
Fria, tinham uma nova projeção geopolítica: a unipolarização do mundo. Esse
projeto (“Iniciativa para as Américas”), expresso em 1990 por George Bush, o
pai-fundador, tinha o intuito de reagrupar e fortalecer a base regional de
sustentação da economia dos EUA para neutralizar e subordinar os dois sub-pólos
capitalistas (União Européia e Japão), além de sufocar no nascedouro candidatos
a pólos, sub-pólos emergentes ou pólos alternativos (China, Rússia, Índia,
Brasil, México e Argentina)[9]
Apesar
de algumas escaramuças internas, que culminaram no assassinato do candidato
oficial do PRI Luis Donaldo Colosio, as elites mexicanas, deram por encerrado,
precisamente no ano de 1994, o processo de afirmação nacional. Teriam à sua frente um novo Presidente, Ernesto
Zedilho, de perfil ainda mais tecnocrático, confiável e manobrável, como convém
às forças do mercado. A sua administração seria responsável pela consolidação
da transição da nação para a condição de província alheia, na melhor das
hipóteses um “dominions”[10].
Nessa transferência procuraria garantir um nicho para as novas elites mexicanas
sobrevivessem enquanto segmento privilegiado, mesmo que subordinadamente, no
“interior” da economia norte-americana a ser englobada pelo Nafta.
Naturalmente haveria de
surgir uma nova justificação e um novo discurso para dar conta dessa transição
entre uma burguesia nascida e nutrida pelo Estado e pelo nacionalismo e uma
nova elite internacionalizada , vinculada ideológica e economicamente ao grande
capital dos EUA. A metamorfose se
expressou na teoria do “regionalismo aberto”[11].
Nela, a defesa dos interesses nacionais mexicanos devia acompanhar as externalidades
e se estender paras bordas vizinhas. De acordo com essa versão, os interesses
nacionais não desapareciam como referência e foco da responsabilidade política,
mas se recolocavam em uma territorialidade ampliada e compartilhada.
Essa teoria mostrou ser
adequada para conceber a integração de economias equivalentes com pouca
variação estrutural. Mas no caso dos EUA e suas cadeias oligopólicas, como
imaginar que aceitariam algum compartilhamento de soberania com países que são
ou suplementares ou setorialmente concorrentes?. A única complementaridade
admitida é entre EUA e Canadá, países siameses com estruturas decisórias
econômicas comuns. Na prática, os anos de liberalização comercial e financeira
tiveram um efeito altamente corrosivo sobre a soberania dos Estados
nacionais latino-americanos, e essa é a
premissa primordial e oculta da teoria do regionalismo aberto.
Foi sob a alegação de
que a possibilidade mesma da existência
das nações depende de uma adequada
conexão ao mercado mundial e aos seus fluxos de capitais, bens e tecnologia,
que o Governo mexicano assinou o Acordo de Livre Comércio da América do Norte.
A Zona de Livre Comércio composta pelo Canadá, EUA e México, seria um campo
recíproco para o intercâmbio comercial, financeiro e tecnológico. Apelando para as fontes culturais mais recônditas
dos mexicanos diziam que não era necessário temer a perda de membranas de
proteção e diferenciação. Os novos sacerdotes do mercado globalizado vieram
proclamar que a destruição é apenas a garantia da criação e o sacrifício
somente a condição para uma nova vida.
As elites nativas, dessa vez
sem pasmo e assombro, difundiram o mito que o Deus da morte e da vida,
Quetzalcóatl,[12] viria não
do leste como previsto mas do norte. O Deus
da destruição criativa voltou e
sua ira parece redobrada. O Tio Sam reivindica o México para ajustar(suas)
contas.
Diz-se que todos os
latino-americanos carregam o trauma da Conquista como se fora um estupro. Os
mexicanos carregam uma nódoa ainda
maior referindo-se a Malinche, amante nativa de Cortés que facilitou-lhe a conquista. O que então se
pode esperar do neo-expansionismo norte-americano? Apesar das insistentes
promessas dos EUA em garantir uma operação indolor e sem efeitos
maléficos para aqueles que a facilitarem, a incorporação do país ao Nafta
significou a violação sistemática da nação mexicana, com todas suas
horizontalidades remanescentes, em função de um conluio vertical entre as
elites estadunidenses e as
mexicanas
O Nafta estabeleceu não
apenas uma área de livre comércio em abstrato mas um primeiro campo de provas
para a imposição do direito instantâneo e “de fato” dos grandes grupos
oligopólicos norte-americanos. Trata-se da aplicação antecipada do Acordo
Multilateral de Investimentos, o
projeto estratégico do grande capital, que almeja fornecer uma nova
racionalidade, universalidade e legitimidade à economia das redes globais. Em
termos táticos e de curto prazo, visa
legalizar o desmonte de cadeias econômicas internas e criminalizar políticas que possibilitem a geração e
proteção de investimentos, emprego e renda para nacionais.
As novas elites
internacionalizadas, tendo como núcleo duro as altas finanças e as grandes
corporações norte-americanas, procuram desesperadamente eliminar as antigas e
inconvenientes referências de legitimação: o Estado, a nação e a democracia.
Precisam tornar respeitável e
necessário tanto o canibalismo econômico quanto a anulação das
identidades. E ainda como precaução, pretendem suprimir os últimos resquícios
de autonomia esvaziando os sistemas políticos de representação e de
administração pública.
Foi sobre o cadáver do antigo Estado Mexicano que nasceu
a flor de Lácio do totalitarismo privado. Essa cultura produzida “in
vitro” pelos EUA, poderá ser estendida ao resto de hemisfério americano e
apenas aguarda a preparação do terreno, no bojo das negociações da ALCA- Área
de Livre Comércio, para se propagar.
Os interesses dos
oligopólios privados norte-americanos, traduzidos em uma “lex mercatoria”[13],
estão plenamente assegurados no Nafta. Em linhas gerais proporcionam a
eliminação de anteparos nacionais de regulação e abrem caminho para uma
reorganização em função desses mesmos interesses. A eliminação das articulações
econõmicas internas mexicanas, ou seja, a sua
“flexibilização”, foi um pré-requisito indispensável para que se
estabelecessem os laços de suplementaridade entre a economia mexicana e a
norte-americana.
Os desdobramentos do Nafta
na economia do México confirmam essas análises :
a)MERCADO DE TRABALHO
FLEXIBILIZADO E PRECARIZADO:
estabeleceu-se regras flexíveis
no mercado de trabalho possibilitando a manipulação e controle dos custos
trabalhistas de acordo as necessidades momentâneas do mercado;
b)MERCADO FINANCEIRO
DESREGULADO E INCONTROLÁVEL:
permitiu-se a livre vazão dos fluxos financeiros por meandros financeiros internos a fim de capturar
pequenas correntes de capital para engrossar os caudalosos fluxos especulativos
das mega-intituições financeiras;
c) LIVRE CONCORRÊNCIA E
LIVRE MONOPÓLIO: liberaram-se os
mercados, ainda que residuais, através da eliminação de barreiras comerciais e
livre concorrência nas compras governamentais, de forma a premiar os atores mais
“competitivos”;
d) CONTROLE DAS PATENTES E
ROYALTIES: prescreveu-se uma fiscalização rigorosa sobre patentes e royalties a
fim de preservar o “avanço tecnológico”
e a “qualidade” dos produtos e serviços;
e) INVESTIMENTOS LIVRES DE
CONTROLES NACIONAIS: determinou-se que é plena a liberdade das redes de
investir, desinvestir, comprar, vender, remeter, transferir sem qualquer
empecilho ou mecanismo regulador de origem nacional.
O novo direito em vigor no
México se assemelha a uma procuração pública em que a sociedade repassa, definitivamente,
plenos e totais poderes às redes privadas oligopólicas. Essas condições,
contudo não seriam impostas integralmente se não fossem acompanhadas de sinais
apocalípticos. Em dezembro de 1994, com menos um ano de NAFTA, ocorreu a
maxidesvalorização do peso mexicano gerando um rombo de mais de 80 bilhões de
dólares, o chamado “efeito tequila”.[14]
Naquelas condições, os novos conquistadores não encontraram mais nenhuma
dificuldade para reformatar o país
, segundo os desígnios imperiais.
Chegaram ao ponto de exigirem como
lastreamento da operação, faturas de
exportação futuras do petróleo nacional.
A “ajuda” financeira dos organismos internacionais e do Governo norte-americano foi condicionada à abstenção de ressalvas e de resmungos por parte dos mexicanos. A adesão ao Nafta, e aos princípios do Acordo Multilateral de Investimentos ali embutidos, foi completa. Em suas negociações os senhores do capital se assenhoram também do tempo futuro impondo cláusulas de irreversibilidade, queimando possíveis pontes de partida e naus de saída. Nada mais que o velho estilo de negociação anglo-saxão, pragmático e belicoso, levado à cabo a partir de fatos consumados.
Algo vivo por definição
apresenta autonomia e animação. O que é um país então quando lhe retiram toda
margem de autonomia? Quando o convertem em um eficiente e previsível acessório? Olhando o México, contudo, percebem-se claros e intensos sinais de vida econômica. O que significam?
O México é o país latino-americano
que mais tem atraído investimentos estrangeiros, e que tem tido o maior
incremento de exportações, a despeito da recessão norte-americana,
especialmente de produtos manufaturados e eletrônicos. Alardeia-se que nasceu
um novo tigre latino-americano e que os países restantes devem seguir suas
pegadas. Se há estagnação e fuga de
capitais na maioria dos países da América Latina, no México ocorre o contrário.
Com o aval e proteção dos EUA, sob o arcabouço do Nafta, se tornou uma das
opções mais rentáveis e estáveis para os investimentos privados. As agências
avaliadoras de risco atestam que o
produto-país é confiável e lucrativo[15].
Esses investimentos
representam em parte a ocupação de nichos e mercados residuais(como o de
telefonia celular e o de serviços financeiros) na economia mexicana, através de
franquias e filiais. Trata-se da otimização das redes comerciais e financeiras
norte-americanas alongando e potencializando seu espectro de atuação. Isso não
seria possível sem que se desmontassem cadeias produtivas nacionais antes
protegidas e subsidiadas pelo Estado. Das estruturas industriais tradicionais
do México sobreviveram apenas as cadeias automobilísticas multinacionais, com índices decrescentes de nacionalização
do produto, e o setor petrolífero, cada vez menos petroquímico e cada vez mais
primário-exportador.
A agricultura comercial voltada para o mercado interno sofreu duros
revezes com a abertura[16].
O vento levou o tradicional algodão
mexicano, convertendo o cinturão do algodão do sul dos EUA (o “cotton belt”) no
maior fornecedor local. Até mesmo o
milho, que é originário do México e ingrediente básico no cardápio popular,
deixou de vir dos platôs úmidos entre as Sierras Madres.
De onde então jorra a fonte da “riqueza” do metamorfizado México? Pistas surgem ao se
analisar o comércio externo México-EUA. O primo pobre passou a exportar bens de
consumo duráveis(eletrônicos especialmente) para o primo rico que, em troca,
passou a remeter semi-manufaturados e produtos intermediários(peças e
componentes). É nessa balança comercial, aparentemente favorável ao México, que
se esconde o mais intenso comércio intra-firma do mundo, praticado pelas
multinacionais americanas. Não foi por acaso que as maquiladoras[17]
tiveram como berço a fronteira norte, em cidades como Tijuana, Mexicali,
Matamoros e Ciudad Juarez.
Os atrativos são conhecidos:
os salários mexicanos são em média 10 inferiores aos norte-americanos, os
impostos são reduzidos, a fiscalização é discreta e os lucros e os
investimentos podem passear à vontade antes de voltar ao sólido terreno pátrio.
Era o que faltava para proporcionar grande competitividade às cadeias
produtivas norte-americanas: maior descentralização geográfica da produção para
áreas de baixo custo operacional e sob total controle institucional.
O sucesso da economia
mexicana correspondeu à disponibilização do seu território, com seus recursos
naturais, suas estruturas econômicas e sua população, para um replanejamento
praticamente unilateral por
parte das empresas norte-americanas. Os fatores econômicos internos foram
remontados como múltiplas áreas de enclave. Cada fragmento econômico por si e o
grande capital norte-americano por todos.
Está sendo composto um novo
papel econômico para os países latino-americanos. Um papel que está muito além
da “nova divisão internacional do trabalho”, como se convencionou chamar o
processo descentralização das multinacionais em direção à periferia a partir
de 1950. A exemplo do México, esses
países são chamados a se reterritorializar
no interior de uma moldura transnacional onde existiriam apenas como
esboços em uma tela arbitrariamente desenhada e redesenhada de acordo com as
necessidades cambiantes e momentâneas do mercado.
As grandes redes econômicas
norte-americanas pretendem criar um hemisfério à sua imagem e semelhança, ou
seja uma mega-rede flexível que
colecione as mais variadas habilidades e competitividades, os mais distintos
fatores econômicos, isto é, conjuntos de mão-de-obra, reservas de
matérias-primas, estruturas comerciais, industriais e financeiras e mercados.
Se o México já é parte
inerente do território imperial, um novo “dominion”, qualquer contestação à
ordem local se torna crime de sedição, de lesa-majestade . Consta que Dom Pedro
Alvarado, intendente de Cortés,
proclamou em 1523, aos povos que ainda resistiam ao sul da Península de
Yucatán, uma sentença: “Se aceitam submeter-se ao rei de Espanha serão
cumulados de favores, exceto o favor de serem livres, se preferem a guerra, serão tratados como traidores.”[18]
A burguesia e a tecnocracia
mexicanas se submeteram na expectativa de tais favores, enquanto os rebelados
zapatistas[19] fizeram
questão de serem combatidos como traidores do Império. A deterioração do tecido
social mexicano em meio à corrosão dos mecanismos políticos
institucionais, tornou a luta
armada um espaço legítimo de
articulação e representação de interesses. A marcha do Exército Zapatista de
Chiapas até a capital, em março desse ano, acabou ocupando um imenso vácuo político
e por isso agregou milhares de pessoas no seu curso. Emblemáticamente
multiplicam-se novos grupos armados nas outras províncias do país[20]
Em que outro lugar do mundo
um movimento guerrilheiro pode vir publicamente se manifestar em frente ao
Palácio do Presidente, sob aclamação de mais de 100 mil pessoas? Essa pergunta
leva a outra: que autoridade, então, pode ter um Governo que apenas gerencia o
desmonte do país em nome das grandes redes?
Ao simulacro do México falsamente cosmopolita não adianta opor o
simulacro anterior do México-nação indivisa. Um, em nome da globalização e da
modernidade tecnológica, salva apenas as elites despatriadas. O outro, em nome
do nacionalismo, salva apenas elites tecnocráticas e cartoriais.
Os múltiplos Méxicos excluídos,
com suas regiões, etnias e segmentos sociais, querem se afirmar enquanto um novo povo em construção e em marcha. Uma nova nação plural, justa e
democrática que seja o feliz
experimento de uma globalização
alternativa.
1.
CANO
W,” Soberania e Política Econômica na América Latina” São Paulo, Editora UNESP,1999.
2.
DUPAS
G.,”Políticas de bloco no continente americano” São Paulo, in Política Externa
editora Paz e Terra, número 02, setembro/outubro/ novembro de 2000.
3.
FERRO
M,”História das Colonizações”,São Paulo, Editora Cia das Letras, 1999.
4.
FIORI
J.L.,”O cosmopolitismo de cócoras”, São Paulo, in Revista do Instituto de
Estudos Avançados, número 39, maio/agosto de 2000.
5.
FIORI
J.L.,” Brasil no espaço”, Petrópolis, Editora Vozes, 2001.
6.
FIORI
J.L.org., “Estado e moedas no desenvolvimento das nações”, Petrópolis, Editora
Vozes, 1999.
7.
FUENTES C., “México y los cambios de nuestro
tiempo”, Ciudad de Mexico, Editora
Fondo de Cultura Econômica, 1992.
8.
GARZON
NOVOA L.F., “Alca:soy loco por ti América”, Petrópolis, in Revista de Cultura
Vozes nº 03, maio-junho de 2001
9.
GREENSPAN A., “Testimonio ante el Comité de
Relaciones Exteriores del Senado de los EUA” in Pensamiento Iberoamericano
enero-junio de 1995
10.
PICARD A. A, “El
TLCAN:objetivos y resultados 7 años después” 2001, Ciudad de Mexico, ed. RIMALC,
2001.
11.
ROS J., “La Crisis Mexicana y la Reforma de la
Política Macroeconómica”
in Pensamiento Iberoamericano 27-enero-junio de 1995
12.
SANTOS
M., “Por uma outra globalização”, Rio de Janeiro, Editora Record, 2000
13.
TAVARES
M.C.e FIORI J.L.orgs., “Poder e dinheiro”, Petrópolis, Editora Vozes,1998.
14.
TAVARES
M.C.(org), “Celso Furtado e o Brasil”, São Paulo, Editora Fundação Perseu
Abramo,2000.
15.
TODOROV T,”A Conquista da América”, São
Paulo, Editora Martins Fontes, 1983.
sociólogo, professor da Universidade
Paulista-Campinas, mestrando em ciências políticas na UNICAMP
[1] North America Free Trade Agreement, Acordo de Livre Comércio da América do Norte entre os EUA, Canadá e México a partir de 1º de janeiro de 1994.
[2] Até mesmo o Presidente do Banco Central (o “FED”) norte-americano, Alan Greesnpan, confirma o experimento e se sente deveras satisfeito com os seus resultados : “O México está passando por uma importante metamorfose em direção a um significativo progresso na sua estrutura econômica e financeira” Cf. Alan Greenspan, “Testimonio ante el Comité de Relaciones Exteriores del Senado de los EUA”in Pensamiento Iberoamericano enero-junio de 1995, pag.164 a 164.
[3] Um exemplo mais que revelador dessa delegação é o Plano Puebla-Panamá/2001.O Governo Fox está negociando junto aos países da América Central um plano de integração comercial e de infra-estruturas que se prevê a ampliação das redes de maquiladoras em direção ao Panamá.
[4] Partido Revolucionário Institucional foi o agrupamento político herdeiro (e coveiro) da Revolução Mexicana de 1910. Manteve-se no poder, usando e abusando de clientelismo, tráfico de influências, manipulação da opinião, corrupção, repressão e extermínio, até o ano de 2000.
[5] A Revolução de 1910 procura refazer a história do México em nome da “nação”; por isso, representou um ataque frontal às bases econômicas coloniais: o latifúndio e o imperialismo europeu e norte-americano, bem como às oligarquias rurais e rentistas vinculadas. O assassinato das principais lideranças populares como Emiliano Zapata e a ausência de organização popular autônoma favoreceram a lenta degeneração do processo revolucionário, ainda que dentro de uma dinâmica de avanços e recuos.
[6] Terras de usufruto comunitário, reminiscência organizacional indígena institucionalizada no contexto da Revolução de 1910.
[7] Essa “quebra de compromissos” produzirá naturalmente uma cisão interna no PRI. Cuatemoc Cárdenas, filho do maior símbolo do populismo mexicano, o ex- presidente Lázaro Cárdenas, cria o Partido Revolucionário Democrático que se proclama “fiel depositário das bandeiras nacionalistas e populares”, em oposição ao PRI.
[8] “En el Valle de México el hombre se
siente suspendido entre el cielo y la tierra y oscila entre poderes y fuerzas
contrárias, ojos petrificados, bocas
que devoran. El mexicano se siente arrancado del seno de esa realidad, a
un tiempo creadora y destructora, Madre y Tumba.(...) La história de México es
la del hombre que busca su filiación, su origen.(...) Nuestra soledad tiene las
mismas raíces que el sentimiento religioso. Es una orfandad, una oscura
consciência de que hemos sido arrancados del Todo y una ardiente búsqueda: una
fuga y un regresso, tentativa por restablecer los lazos que nos uniam a la
creación.”cf. Octávio Paz, “El
Laberinto de la Soledad” 1998, Fondo de Cultura Econômica, pag 22 e 23.
[9] Cf. Luis Fernando Novoa Garzon,”Alca soy loco por ti América”,in Revista de Cultura Vozes nº 03, maio-junho de 2001, pag 07 a 14.
[10] “Dominions” correspondem às antigas colônias de povoamento inglesas, consideradas extensões naturais dos mercados industrial, comercial e financeiro da Inglaterra.No século XVIII apesar de não terem acompanhado o ciclo de industrialização inglês, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelãndia, caudatáriamente se beneficiaram dele. (cf. José Luis Fiori, “ De volta à questão da riqueza de algumas nações”, in Estados e Moedas no Desenvolvimento das Nações, 1999, Editora Vozes, pags. 16 e 17.)
[11] Em contraposição aos processos de integração regional latino-americanos, inspirados no modelo europeu, que visavam combater as assimetrias norte-sul, ampliando a escala industrial e criando uma área protecionista ampliada, a “regionalização aberta” priorizava o acoplamento da região aos grandes fluxos globais de capitais através de acordos de livre comércio.
[12] Quetzalcóatl, deus asteca, era representado com tez clara e barba e por isso se supunha que a chegada dos espanhóis confirmava a profecia de sua volta pelo leste. O papel sangrento e destrutivo do deus foi convincentemente encenado pelos espanhóis com sua rudeza, cavalos e armas de fogo quando as tropas de Cortês invadiram a ilha de Cozumel em 1519. O perplexo Imperador Montezuma mandou que se lhes entregasse os tesouros do templo de Quetzalcóatl, o que só fez aguçar a gana dos “ emissários divinos”.(cf. Marc Ferro, “História das Colonizações”,1999, Companhia das Letras, pag.51 a 57 )
[13]Direito não estatal, fruto de um planejamento privado de cooperações econômicas em escala transnacional.
[14] A internacionalização do sistema financeiro sem qualquer traço de regulação ou controle cambial, converteu o capital especulativo de curto prazo em principal sustentáculo das contas nacionais mexicanas. A orgia de títulos do tesouro mexicano (os tesobonus) a juros altos, sustentava artificialmente o país atraindo hot money enquanto a produção econômica se estagnava. A quebra previsível e programada do sistema financeiro mexicano ocorreu em dezembro de 1994. Da paridade cambial foi-se à decimalidade cambial: 1 peso passava a valer 0,10 centavos de dólar.Cf. Jaime Ros,”La Crisis Mexicana y la Reforma de la Política Macroeconómica” in Pensamiento Iberoamericano 27-enero-junio de 1995, pag 153 a 157.
[15] Segundo analistas da Financeira Global Invest, da mega-corporação Citigroup, e da agência de investimentos privados do Banco Mundial.a “International Finance Corporation” o México atrai novos fluxos de investidores especialmente “por sua estrutura de política econômica confiável, sua moeda estável e sua participação no Acordo de Livre Comércio para a América do Norte (Nafta)”. Gazeta Mercantil, 6 de julho de 2001.
[16] Cf. Alberto Arroyo Picard, “El
TLCAN:objetivos y resultados 7 años después” 2001, Ciudad de Mexico,
ed.RIMALC,pag 7 a 10.
[17] Empresas que maqueiam a produção montando componentes importados e re-exportando o produto final, com baixos custos. As plataformas de exportação asiáticas têm um funcionamento similar
[19]O Exército Zapatista de Libertação Nacional é um grupo guerrilheiro com base social camponesa e indígena, lançou sua primeira ação, “liberando” áreas em Chiapas, justamente no dia em que o México adere ao NAFTA, em 1º de janeiro de 1994.