A PROTEÇÃO SOCIAL DO TRABALHADOR NO MUNDO GLOBALIZADO –
O DIREITO DO
TRABALHO NO LIMIAR DO SÉCULO XXI(*)
Márcio Túlio Viana(**)
e-mail: tgviana@gold.com.br
"Ouço o
ruir de todo o espaço, vidros em pedaços e muros desabando,
e o tempo numa
única e lívida chama final" (James Joyce)
"O futuro
já não é como antigamente" (Renato Russo)
1. Introdução
Talvez
já se possa clonar um homem. Talvez haja algum bem no cigarro[1].
Bebês já nascem em provetas. Um corpo pode estar em dois lugares ao mesmo
tempo.[2]
Verdades
intocáveis, eternas, absolutas, hoje são repensadas, criticadas, destruídas.
Até as ciências renunciam à pretensão
de indicar soluções unívocas. A única
certeza geral é a incerteza de tudo. Conceitos, valores e idéias voam em
pedaços pelos ares, como se vivêssemos um novo big bang.
O
mundo é sempre mais fragmentado, contraditório, desigual. O Estado perde força. O capital derruba fronteiras. Aumenta o
desemprego, renasce o subemprego e o sindicato se enfraquece. As leis que
protegem o trabalhador já parecem um campo minado: a cada passo podem explodir
a seus pés.
O
que esperar desse caos? Que vida terão nossos filhos? Para onde vai a economia?
O que a ideologia esconde? Qual o futuro do direito? Haverá, de fato, um
futuro? Diria Brecht: "tantas perguntas, poucas respostas..." Nossa proposta é mostrar que há uma ordem no
caos e que não há esperança sem luta.
2. O
antigo modelo
Se
perguntássemos a Henry Ford qual
palavra exprimiria melhor os seus modelos de
homem, de mundo, de Estado... e de
automóvel, ele certamente responderia
- com seu sotaque da Filadélfia - alguma coisa como "segurança".
Foi
para se segurar dos riscos do mercado
que Ford verticalizou sua empresa, dominando, passo a passo, todo o ciclo
produtivo - desde o cultivo de borracha em suas plantações na Amazônia até o
último parafuso do famoso Modelo-T. Foi
também para isso que acentuou os métodos tayloristas de divisão do trabalho, garantindo não só altas taxas de
produtividade, mas sobretudo o controle da resistência operária.
O
Estado dos tempos de Ford respondia aos seus anseios, pois se de um
lado dava infraestrutura, com obras de todo
tipo, de outro garantia o
consumo, com políticas de bem-estar, tudo segundo as lições de John Maynard
Keynes.
Naqueles
tempos, o mundo se dividia em pedaços
bem visíveis - o Primeiro, o Segundo e o Terceiro - e a própria vida tinha muito
de previsível. Se houvesse uma guerra,
seria entre EUA e URSS. Se fosse prendada,
a mulher teria sempre um marido. Um
anel de doutor significava boa casa,
cassimira inglesa e viagens à Europa.
E
também os operários seguiam - ao seu modo - esse modelo. Repetindo gestos, em
jornada inteira, e sem trocar de patrão, suas vidas eram tão uniformes como os uniformes que vestiam.
Tinham o destino traçado pela história de seus pais, e assim seria também com
os seus filhos.
Aliás,
tudo se articulava. Se os produtos eram previsíveis, pouco mutantes, também o
trabalho era contínuo, estável, e a própria lei era rígida, abrangente. Fábrica e sindicato reuniam
trabalhadores em massa. Um
correspondia ao outro.
E
também em massa eram a produção, o
consumo e a própria norma trabalhista. Integrando-se ao sistema, como uma coisa dele, o Direito do Trabalho o
legitimava, e quase se podia ver um através
do outro. Mas isso nunca o impediu de
ser - paradoxalmente - produto (e arma)
da luta. Afinal, ele "carrega em todas as épocas o
aprendizado dos dominadores e, ao mesmo tempo, os germens da resistência dos
dominados".[3]
Esse
modo de ser, de pensar e de querer se reproduzia nas outras esferas da vida. A
filosofia buscava respostas universais. A ciência pretendia verdades absolutas.
Na política, tal como na indústria, planejava-se a longo prazo, para uma
realidade estável, conhecida, sob
controle. Mesmo a arte tinha os
seus padrões estéticos: Bach era um
clássico, Portinari um moderno, mas
Jerry Lee Lewis talvez fosse um louco.
Até
as contradições inerentes ao capitalismo pareciam, se não resolvidas, pelo menos esquecidas:
os salários crescentes, por exemplo, serviam a um só tempo ao empresário (pois
permitiam o consumo), ao Estado (que arrecadava mais), ao sindicato (que se
fortalecia) e, naturalmente, aos próprios trabalhadores. Como porca no
parafuso, a lei se inseria no
contexto: o círculo era virtuoso.[4]
Mas
exatamente porque tudo se encaixava, bastou que algumas das peças saíssem do
encaixe para que o jogo se complicasse. Foi a partir daí que nasceu - ou
começou a nascer - um novo sistema de acumulação capitalista e, com ele, uma
ideologia, uma política, uma ciência e um direito quase ao contrário.
3. Fatores da crise
Como
um animal sempre faminto, o sistema
capitalista depende de porções crescentes de alimento. Seu verbo é acumular. Toda empresa quer crescer,
dominar o vizinho, controlar o mercado. A concorrência parece buscar o monopólio.
Mas
os lucros nascem da mais-valia,
diferença entre o que se paga para
que a força-trabalho se reproduza e o que se ganha com a venda do que ela cria. E essa diferença depende, em boa
parte, do controle da mesma força. Isso implica não só reduzir espaços de
resistência, como trocar, em grau crescente, o trabalho vivo pelo trabalho morto, ou
seja, o homem pela máquina.
Essa
lógica não impede, entretanto, que de tempos em tempos aflorem contradições
adormecidas. Fala-se, então, em crise;
e embora, na essência, o sistema continue o mesmo, mudam as suas estratégias de
domínio.
Uma
das contradições do sistema decorre de sua própria eficiência: com o passar do
tempo, a produção pode superar o consumo, e os lucros acumulados já não podem ser reinvestidos - o que os leva para o
mundo dos papéis. Este desequilíbrio da
dinâmica produção/consumo pode potencializar a
resistência operária: afinal, a mesma fábrica que reúne os trabalhadores também os une na luta, e o resultado
é o aumento nos custos.
Ao
lado de outras tantas, essas duas contradições atingiram duramente o modo
fordista-keynesiano de acumulação capitalista. Os primeiros
sinais de alarme surgiram nos fins dos anos 60. Mas foram as crises do petróleo, em 1972-73, que acenderam o
rastilho de pólvora, acentuando a retração do consumo.
O
Estado perdeu renda. O sindicato já não obtinha conquistas. A lei se recusava a
avançar. E tudo isso comprimia ainda mais o poder aquisitivo. O círculo passou
a ser vicioso. E como já não havia um
mundo novo a explorar, era preciso, de algum modo, reinventar o que existia.
Uma
das soluções foi invadir mercados alheios. E então, como nas guerras, uma a uma
foram caindo as barreiras nacionais, embora sempre menos nos países de ponta que
nos periféricos. Estava inventada a globalização.[5]
E
o mesmo fenômeno se repete com as finanças. Nas asas da informática, cria-se um
mercado acionário sem fronteiras, operando em tempo real. Acontece agora que
"um comprador inglês pode ter uma hipoteca japonesa, um americano pode
sacar em Hong Kong sobre a sua conta em Nova Iorque e um investidor japonês
pode comprar ações de um banco escandinavo com sede em Londres e títulos
expressos em libras, dólares, marcos e francos."[6]
Mas
foram especialmente as mudanças nos modos de produzir e de trabalhar que
afetaram a vida dos trabalhadores. É o que veremos a seguir.
4. Os novos modos
de produzir
Antes,
como dizíamos, eram fábricas verticais, absorventes, atuando através de rígidas
hierarquias. Máquinas grandes, caras, pesadas, exigindo planejamento,
estabilidade e produtos iguais. Economia de escala. Produção em série para um consumo crescente. Peças intercambiáveis,
correias transportadoras. Gestos se reprisando. Trabalhadores também
homogêneos, em massa.
Para
vender, bastava produzir. A fábrica virtualmente ditava o quê e quanto o
mercado compraria [7] Tudo vinha
pronto do escritório, planejado a longo prazo, o pensar separado do fazer.
Calculava-se o custo, estimava-se o lucro e fixava-se o preço, de cima para
baixo, na mesma sequência do ciclo
produtivo.
Já
agora, a fábrica se horizontaliza..O
ideal não é mais dominar, diretamente, toda a cadeia de produção, nem mesmo
as últimas etapas. O modelo é a empresa
enxuta, que elimina estoques e esperas,
produz exatamente aquilo que pode
vender, reduz progressivamente os custos, automatiza-se e se organiza em rede, jogando para as parceiras tudo
o que lhe parece descartável.
Isso
não significa que a empresa tenda a
ficar menor, em termos econômicos. Ao
contrário: ainda uma vez, quer crescer, dominar, envolver. A redução é só física,
e mesmo assim relativa, pois as
empresas menores, que lhe prestam serviços, de certo modo lhe pertencem, submetendo-se aos seus desígnios.
A
concorrência se acentua, mais na base que no topo, pois enquanto as contratadas se matam para ganhar os
contratos, as contratantes se unem em
fusões, incorporações e oligopólios de todo tipo[8].
Ainda assim, também elas, contratantes, lutam surdamente entre si, não tanto para
convencer o cliente que a sua marca é
a melhor de todas, mas para induzí-lo a comprar um produto ao invés de outro, diferente. [9]
A
terceirização leva à terciarização: no limite, a grande
fábrica tende a se tornar simples
gerenciadora, sem máquinas e sem operários.[10] E a mesma razão que a faz se enxugar a impele a se desgarrar do
território de origem, como se passasse de imóvel a móvel, sempre em busca
de mão-de-obra barata, direitos flexíveis, sindicatos dóceis e políticas
fiscais favoráveis[11]
.
Para
vender, já não basta produzir. É preciso produzir
barato, para que se possa vender
barato, e ao mesmo tempo descobrir (ou inventar) novos nichos
para as ofertas: hoje uma lanterna que fala, amanhã um rádio que pisca. Não
que o consumidor tenha se tornado mais crítico ou exigente: ficou apenas mais
pobre, e nunca foi tão manipulável. A solução é criar - em ritmo de rock - novas vontades, que não raro se
realimentam: o isqueiro musical exige
mini-baterias...
O
problema é que - mesmo induzidas - as
necessidades não brotam do nada. Tal como no marketing político, é preciso traçar o perfil do consumidor,
identificar os seus pontos vulneráveis, suas tendências. Planeja-se então às
avessas, a partir dos radares instalados nas redes de venda[12],
que detectam em tempo real o quê e quanto produzir. A mídia e a moda completam a tarefa, acelerando as mudanças e
permitindo que se projete até a obsolescência do produto.
Assim,
inverte-se o movimento entre produção e consumo. Se, em termos complessivos, a
produção continua em massa, agora é variada e variável, despejada em pequenos e
múltiplos lotes, quase sob medida. Se
o empresário de ontem calculava os custos, projetava o lucro e fixava o preço,
o de hoje estima o preço possível, fixa o lucro desejado e - como que
retrocedendo - vai cortando custos, enxugando.[13]
O
mesmo andar para trás se repete no
interior da fábrica: ao invés de um
segmento despejar no subsequente as suas peças e matérias-primas, gerando
estoques intermediários, cada qual pede ao anterior exatamente o que precisa, na medida certa.. A
redução de custos e a produtividade devem ser crescentes: a busca da qualidade total não tem fim.
E
as disparidades no mundo da empresa se reproduzem entre os países. É que um dos
segredos do sistema é "fazer com que os outros combatam as próprias
guerras dele, se possível sem custos ou com os mínimos custos possíveis"[14]
No
centro de todas essas mudanças está o
conhecimento, palavra-chave do mundo globalizado. É ele a matéria-prima
básica, tão importante quanto foi a eletricidade para as indústrias do começo
do século.
5. Os novos modos
de trabalhar
Como
não poderia deixar de ser, também os modos de trabalhar afetam duramente a classe operária,
redistribuindo tempos e espaços, reordenando relações de poder, disseminando
uma nova ideologia e - como veremos mais tarde - propondo um novo direito.
Em
geral, os trabalhadores da empresa
moderna se dividem em três grupos:
1.
Um núcleo cada vez mais qualificado e reduzido, com bons salários, fringe benefits, perspectivas de carreira e certa
estabilidade. De um trabalhador desse grupo se exige mobilidade funcional e
geográfica, disposição para horas-extras e - sobretudo - identificação com a
empresa, como se ela fosse uma coisa
dele.
2.
Os exercentes de atividades-meio, como secretárias e boys, além de operários menos qualificados, trabalhando em tempo
integral. A rotatividade é grande, os salários são baixos e as perspectivas de
carreira quase inexistem. É sobretudo o temor do desemprego que os faz submeter-se a qualquer condição
3.
Um grupo de trabalhadores eventuais, ou a prazo, ou a tempo parcial. Quase
sempre desqualificados, transitam entre o desemprego e o emprego precário, e por isso são os mais
explorados pelo sistema. É aqui que se encontra o maior contingente de
mulheres, jovens e (no caso de países avançados) imigrantes. Esse grupo, tal
como o anterior, tende a ser descartado para as parceiras..
Para
os seus apologistas, o novo modelo traz pelo menos duas vantagens aos
trabalhadores: de um lado, torna o trabalho mais variado e menos opressivo; de outro, abre espaço à pequena
empresa, fazendo do dependente um autônomo.
No
entanto, estudos indicam que a tão decantada polivalência se resume em manipular
várias máquinas ou controles ao mesmo tempo. Assim, como disse alguém, exige-se
que o trabalhador individual incorpore
as forças do coletivo.
Por
outro lado, se é verdade que a empresa
enxuta exige de cada empregado um
certo espírito de iniciativa [15]
e vai suprimindo, em progressão crescente, vários níveis hierárquicos [16],
não menos certo é que o próprio modo de produzir acentua a taxa de dominação.[17] É que, como vimos, não há estoques - nem de
produtos, nem de tempo. As respostas devem ser rápidas, precisas, na
medida da necessidade do cliente -
necessidade esta que é traduzida
por cada segmento produtivo, visto também como se fosse um cliente. Tudo é sem folgas, sem falhas, sem fôlego.
Por isso, a visibilidade deve ser perfeita, como num tubo de cristal.[18]
Ao
mesmo tempo, procura-se fazer com que o trabalhador se torne censor dos colegas e até de si próprio -
utilizando-se de várias estratégias, como o salário-produção, os prêmios, os
encontros de fins de semana, a assistência psicológica, os apelos emocionais.[19]
É também nesse sentido, de envolver o homem inteiro - músculos, cérebro,
coração - que a qualidade deve ser total.[20]
Mesmo
o teletrabalho, que parece
desconectar o empregado das ordens diretas do empregador, não o impede de
sofrer cobranças constantes, através da
própria máquina.[21] Na
verdade, a volta ao lar que hoje se
ensaia não significa menos tempo na
empresa, mas - ao contrário - a empresa chegando ao lar.
6. Seqüelas dos
novos tempos
O pós-fordismo traz uma série de sequelas que se somam e
reproduzem - e a mais visível é o
desemprego. Oficialmente, entre nós, é de cerca de 7% - mas a estatística só
considera os que - nos dias da pesquisa
- estão efetivamente procurando
emprego. Ignora os que, enquanto esperam, vivem de expedientes ou - desanimados
- se embriagam nos bares. Segundo a OIT, os desempregados somam perto de 1
bilhão no mundo, dos quais 40 milhões nos países avançados. "Depois de
lutar contra a exploração capitalista, os trabalhadores deverão se debater contra
a falta dela"- ironiza Schwarz.[22]
O
desemprego já não faz apenas pobres - mas
excluídos. Gente para quem a ordem
jurídica não é proteção, mas problema: "é proibido pedir esmolas nas
portas das igrejas, roubar pão e dormir sob as pontes", nota Fechner.[23]
Até nos países da União Européia há 3 milhões de pessoas sem teto.[24]
Mesmo
os que, aos trancos e barrancos, conseguem se organizar por conta própria, não
podem ser vistos como prova de que o modelo tende a libertar o trabalhador dos
seus antigos grilhões, como sonham alguns estudiosos: é ele próprio que impõe o novo status,
ao expulsar a mão de obra da
fábrica e reutilizar parte dela externamente, em condições sempre mais
precárias e num movimento só aparentemente inverso ao dos primeiros tempos do capitalismo.[25]
Forçado
à autonomia, o trabalhador não chega a ser autônomo de fato: mesmo em seu
micro-negócio, carrega o estigma de
desempregado. Aliás, muitas vezes, continua a ser um verdadeiro empregado, pois a relação de
dependência não termina: apenas se desloca e se traveste.
E
o pior não é o desemprego, em si, mas o seu caráter estrutural. Veio para ficar e tende a crescer,
pois a redução dos custos e da resistência, como vimos, deve ser progressiva. Isso gera nova contradição: sem emprego, quem consumirá os
produtos? Mas a empresa pensa a curto prazo e em si própria.
Outra
sequela é o subemprego, quase sempre ligado à
terceirização. Renascem formas extremamente cruéis de exploração do
homem, como as oficinas domiciliares de Hong Kong, a exploração de crianças em
países como a Índia e o Brasil, a escravidão
branca no campo. Surge então
outro fenômeno, a economia subterrânea, que não poupa sequer os países ricos -
mesmo porque, paradoxalmente, é também uma peça da nova máquina de produzir.
Efeitos
do novo modelo, o desemprego e a terceirização desencadeiam, eles próprios,
outros efeitos, que atuam inclusive sobre
os empregados típicos. E é assim que os salários se comprimem, o poder
patronal se exaspera [26]
, o trabalho se intensifica e - como veremos adiante - a ação coletiva se
enfraquece. Tal como, em certo sentido, o indivíduo passa a se opor ao grupo, a
massa inorganizada acaba minando a resistência do coletivo organizado.
A
constrição para o trabalho, cada vez maior, é revelada por novas doenças – como a LER[27]-, para não falar nas mortes por excesso
de fadiga, no Japão batizadas de kiroshi.
"Poucos trabalhando muito" - poderia ser o slogan do empresário moderno.[28]
Até o que parece positivo tem o seu lado perverso: a automação não libera tempo do trabalhador, mas
apenas do consumidor.
A
crise do individual agrava a do coletivo: o sindicato já não luta para crescer,
mas para sobreviver. E também o seu
enfraquecimento tende a ser estrutural, na medida em que o são os fatores que o
geram: instabilidade, precarização, desemprego.
7. Como as peças se encaixam
7.1. O mundo do trabalho
Tal
como nos tempos de Ford, as peças do
jogo se encaixam. Nada é casual,
isolado; tudo se explica e se combina. Mas tudo também se move, se
reparte e se altera. É assim, por
exemplo, que:
1.
Ao terceirizar, a empresa, de certo modo, se fragmenta - repetindo o que ocorre
com os produtos (cada vez mais heterogêneos), as máquinas (sempre mais
flexíveis), o trabalho (imitando as
máquinas) e a classe trabalhadora.
2.
Seja apenas terceirizando, seja também
se automatizando, a empresa se liberta de boa parte da mão-de-obra, gera (com
isso) desemprego e subemprego, e conquista (também com isso) mais poder, não só
para contratar como para dirigir e para negociar, mesmo em
nível coletivo.
Mas
os movimentos não são apenas lineares: há idas e vindas, decomposições e
recomposições. Assim é que:
1.
Se, de um lado, a empresa moderna renuncia ao comando direto, autoritário, visível e externo, de outro trata de acentuar a subordinação indireta, invisível, internalizada, mas
nem por isso menos autoritária: o empregado se torna o seu próprio algoz.
2.
Se também renuncia ao controle direto, vertical, de todo o ciclo produtivo, ela
de certo modo o retoma, na medida em que os seus fornecedores
devem seguir estritamente suas diretrizes, sob risco de perder o contrato.
3.
Ao exigir produtividade crescente, a empresa segue a mesma lógica da automação: descartar mão-de-obra. Assim,
em termos globais, quanto mais produtivos os empregados, mais risco de se
tornarem ... desempregados.
4.
Se parece tratar a vela de libra o
seu núcleo, e às vezes passa a imagem de avançada, democrática e até ecologicamente correta, a nova empresa
reprisa velhas mazelas através de suas parceiras[29], que fazem o chamado serviço sujo.
5.
Se o novo modo de ser da empresa ajuda a dividir o grupo, dificultando sua ação
política,ao mesmo tempo o revaloriza
para círculos de qualidade e outras
estratégias voltadas para a produtividade.
6.
Se o pós-fordismo surge como alternativa
para um modelo em crise, e tende a se tornar hegemônico na empresa moderna, o
fato é que tem convivido com resíduos de fordismo, especialmente entre os
trabalhadores desqualificados, nos países periféricos e em muitas das empresas satélites.
7.
Se, portanto, ainda sobrevive,[30]
o fordismo-keynesiano já não é inteiramente como era, pois vem desacompanhado de políticas
sociais, salários crescentes e sindicatos fortes, limitando-se a um de seus
aspectos: o do trabalho repetido, fracionado e comandado por hierarquias
rígidas e externas.
Embora
todos esses elementos possam parecer dispersos, na verdade são peças do mesmo jogo. O pós-fordismo não convive
com o desemprego, com o subemprego e até com o seu contrário, mas vive
de tudo isso, é exatamente isso.
7.2. As outras esferas do mundo
7.2.1. A política
Tal
como fazia nos tempos de Ford, o Estado imita a empresa: se antes era
absorvente, agora quer ser enxuto.
Mas não tanto quanto parece: continua a
sustentar o capital, usando o que economiza com as políticas sociais[31].
Por
outro lado, o poder que o Estado vai perdendo não cai no vazio, não se dissolve no ar. É reocupado pelas
grandes corporações, que se libertam cada vez mais facilmente da dependência do
território e se alimentam de capitais também livres, desregulados,
mundializados e abundantes.
No
entanto, parte do mesmo poder é recuperado pela sociedade civil, como mostram as associações de bairro, as ONGs e
os movimentos de defesa do consumidor. Aliás, essa é uma das poucas
contradições positivas dos novos
tempos.
7.2. 2. Arte, filosofia, ciência,
tecnologia
Também
como nos tempos de Ford, até as artes
e as ciências parecem interagir com o econômico. Um bom exemplo é o urbanismo: se antes forçava o homogêneo,
o estável e o previsível, hoje tenta
conviver com o fragmentado, o volátil,
o efêmero.
No
pensamento pós-moderno, devemos
renunciar a representações unitárias do
mundo: só podemos vê-lo como uma série de fragmentos que se movem e se alteram.
Até a matemática aparece em cena com teorias da catástrofe e do caos.[32]
Não há verdades absolutas: tudo depende das premissas[33].
Ao
trocarem o universal pelo particular, o estável pelo pragmático, o certo pelo duvidoso, ciências e artes
reforçam o modelo e são realimentadas por ele. Aliás, de há muito as ciências
deixaram de ter um fim em si mesmas: já não se pesquisa para saber, como faziam Galileu ou Einstein,
mas para vender. Até as artes vão
perdendo a sua ambiguidade e ganhando aspecto de mercadorias.[34]
Quanto
à tecnologia, é o braço mecânico do sistema
flexível de acumulação. É graças a ela que o trabalhador vai ficando
supérfluo, a produção e o consumo se mundializam, a empresa pode se tornar virtual, as bolsas operam em tempo real,
os gostos e as idéias se hegemonizam.
7.3. A nova ideologia
"Não
há sociedade, só indivíduos" - disse uma vez Margareth Thatcher.
"Governo não é solução, é problema" - completou Ronald Reagan. Se o
modelo antigo ajustava em certa medida o econômico e o social, o público e o privado, a opressão e a resistência, o novo modo de produzir caminha para desconectar aqueles laços, enfatizando o econômico, o privado e o
individual.
No
discurso da moda, o Estado é sempre paternalista, o sindicato faz baderna, funcionário público não trabalha, todo juiz é marajá, ensino deve ser pago, nada como a livre
negociação, o melhor é privatizar, o
direito deve ser flexível. A ideologia justifica e reforça o papel
do mercado como remédio para todos os males, santo para todos os milagres.
É
verdade que o santo tem seus limites,
impostos por sua própria teologia, e as últimas crises financeiras já começam
a desnudá-lo. Mas - ainda assim - não
se criticam as políticas que o apoiam, não se questiona o que está posto. A
culpa (ou a desculpa) é a globalização, palavra mágica que
respalda qualquer medida, responde a qualquer pergunta, oculta outras verdades.
Outra
palavra-chave é o desemprego. O mesmo sistema que o provoca serve-se dele,
convencendo a opinião pública de que a solução é precarizar. Ou seja: o
desemprego legitima a espoliação. E
ele agora está na mídia, pois atinge a classe média.[35]
Mas
também a empresa atua - e de forma cada vez mais autônoma - como centro de
produção de ideologia. O empregado do núcleo
"vive a organização como uma
droga da qual não pode se separar"[36].
A "taxa de fidelidade" se acentua: fala-se em "feudalismo
industrial".[37]
8. Refletindo
sobre a flexibilidade: o que se passa no plano da lei
8.1.
Conjugando um novo verbo
Na
retórica neoliberal, a lei está cheia de velharias, é rígida em excesso, tem
raízes corporativistas, é
paternalista. Além do mais, tende a
proteger uma elite, pois os empregados de ontem serão os autônomos de amanhã , e, mesmo hoje, a maioria emigra para
a informalidade. De resto, como diz a frase da moda, o que importa não é tanto
"o Direito do Trabalho, mas o
Direito ao Trabalho".
O slogan tem certo charme e causa impacto. Mas como
criar empregos? A mesma doutrina responde:
flexibilizando. O verbo é
também simpático: passa a idéia de inovação, abertura, modernidade[38]. Afinal, o contrário de flexível ...é inflexível. Faz pensar em
ditadura, mente estreita, preconceito.
O
problema é que o verbo se tornou irregular: nem sempre se conjuga com todos os
pronomes. O capital ordena: "flexibilizem!".
Mas se recusa a dizer: "flexibilizo!"
E o fato de ser conjugado só na terceira pessoa faz o verbo
incorporar elementos de seu contrário: se inova nas formas, retrocede nas essências;
se promete liberdade, aumenta a opressão.
Assim
é - para citar um exemplo - que os
novos contratos a prazo têm construção jurídica original, mas devolvem o
trabalhador quase ao ponto de partida - quando o emprego era desprotegido - e
elevam a intensidade do poder diretivo, reduzindo as possibilidades de
resistência. Portanto, do ponto de vista do trabalhador, flexibilizar significa oprimir, comandar, retroceder . Numa palavra: flexibilizar
pode ser enrijecer.
Mas
isso é o que menos importa: o que vale é a simpatia do verbo. E na verdade vale muito, já que - por mais forte que seja o
modelo - ele depende do respaldo da ideologia e do direito para que se legitime
e com isso sobreviva às contradições que semeia.
O fordismo
se apoiava numa certa lógica jurídica; o sistema pós-fordista caminha em busca de outra. Tudo muda...
para continuar igual. Para o modo estável, duradouro e complessivo de antes, um direito também uniforme, abrangente e o mais possível estável; para um regime instável
de hoje, um direito precário, fragmentado, quebradiço. Um direito que poderia até ser chamado
de pós-moderno, posto que pragmático,
caótico, oscilante. Mas que nem por isso deixa de ter uma diretriz: quer se
estabilizar na instabilidade, quer
flexibilizar para endurecer. Afinal, a empresa exige a redução dos custos, e um de seus custos é o próprio direito...
Assim,
tal como as artes, o Direito do Trabalho vai perdendo a sua ambiguidade; e imitando, uma vez ainda, o que acontece na
fábrica, começa a caminhar para trás. O seu próprio objeto já
destoa de boa parte de seu conteúdo[39].
E com isso vai perdendo a sua razão de ser, a sua teleologia.[40]. É que a norma trabalhista não busca
apenas regular as relações entre dois
contratantes (para isso seria bastante o direito comum), mas proteger um deles, em face do outro. Se
a tutela se vai, nada lhe sobra de especial.
No
Brasil, a nova onda começou antes
mesmo da crise, com a implantação do FGTS. Criada por encomenda do capital
estrangeiro[41], a lei
virtualmente acabou com a estabilidade no emprego e - por tabela - influiu em
todos os quadrantes do contrato, intensificando o poder diretivo, acentuando na
mesma medida a submissão e tornando a CLT letra morta para grande parte dos
trabalhadores brasileiros. Com o tempo,
os exemplos foram se multiplicando: o contrato de estágio, o contrato
temporário, os novos contratos a
prazo...
Passo
a passo, a lei se diversifica, se
estilhaça. Repete-se, no plano legislativo, a mesma tendência à fragmentação,
a mesma procura do individualismo, da
solução feita sob medida.
Nos
países avançados, temos experiências de
todo tipo, algumas até curiosas, como a do trabalho compartido, outras menos
imaginosas, como o trabalho a tempo parcial, outras que se integram a programas
de qualificação profissional, com o auxílio direto ou indireto do Estado.
Talvez, com o passar do tempo, algumas dessas experiências venham a ter algum
sucesso, mesmo porque os trabalhadores, ali, têm um nível bem diferente de
vida. Mas em geral, até agora, os resultados têm sido medíocres, quando não
desastrosos.
Entre nós, as inovações são menos
visíveis e mais profundas do que parecem. É o que veremos a seguir.
8.2. Os vários modos de flexibilizar
Toda
lei tem uma parte visível, acabada,
expressa por suas palavras. Mas tem uma
parte inacabada, em potência, que ainda está por ser escrita. É que, na
verdade, a norma jurídica se faz em
vários momentos. Há o momento do legislador, que a formula, mas há também o momento do aplicador, que a
(re) interpreta. E como o seu aplicador não é apenas o juiz, mas também os seus
destinatários, também eles participam,
de certo modo, de sua construção.
Nesse
sentido, talvez se possa dizer que a lei não é uma fonte à parte em relação ao costume:
em certa medida, é moldada por ele.
Como uma criança que deixou o útero da mãe, vai se formando aos poucos, com ações e reações, sem que os
seus próprios pais percebam ou controlem tudo o que está acontecendo. Ela vive
(ou morre) a cada dia, enfrentando - como nós - as suas circunstâncias, interagindo-se com elas e sofrendo mutações.
Tanto
na fase inicial de sua formulação, como nas etapas seguintes de sua
(re)construção, a norma jurídica é quase sempre produto de debates, disputas,
pressões. Mas na primeira etapa tudo é mais visível e (por isso) exposto à
crítica. Se se quer criar, por exemplo,
um novo tipo de contrato, o governo pressiona, os parlamentares se dividem,
formam-se lobbies, os juristas opinam
e a mídia divulga e influencia. A
publicidade funciona em caráter preventivo, reprimindo impulsos mais radicais
do legislador. E como ele preza o seu mandato, e quer manter legitimidade, a sua
obra tem pelo menos de parecer justa, o que implica
certas concessões.
Já
nas etapas seguintes, a parte acabada da
norma entra em choque mais direto com o meio - não só com o meio jurídico, ou
seja, com as outras normas ao seu redor, mas com o contexto econômico, social,
cultural e político. Mas já então tudo é menos visível e, assim, menos exposto à crítica.
Esse
fenômeno sempre existiu, e não há como
deixar de existir. Por mais que seja representativo, no sentido técnico do termo,
o sistema legislativo tem sempre uma dose de participação direta, pois a
norma sofre necessariamente os efeitos do ambiente em que se insere - e em
última análise, como dizíamos, da ação
de seus destinatários.
Isso
não significa, porém, que essa participação seja realmente democrática, isto é, que os vários destinatários da norma
tenham igual poder de influência. Ao
contrário: ao se interagir com o ambiente, ela pode sofrer pressões ainda
maiores que as do momento de sua
formulação - pois são pressões também invisíveis, que não se sujeitam a crítica ou controle. Na verdade, em contexto de fortes
desigualdades sociais, a participação direta pode indicar uma dose menor de democracia.
Em
tempos neoliberais, esse modo de ser da norma
jurídica tem permitido outras formas de flexibilizar, que convivem com a
prática legislativa. Como são dissimuladas, essas outras formas têm eficácia
maior e - por isso - utilização
mais frequente. Pela mesma razão, como veremos adiante, provocam mutações mais duradouras e profundas.
Algumas
dessas inovações vêm embutidas nas novas regras: são seus efeitos colaterais. E como
não estão escritas, mas apenas implícitas, é difícil enxergá-las a um primeiro
olhar. É o caso, por exemplo, do novo
tipo de suspensão contratual, que prevê pagamentos com recursos do FAT, até
certa faixa, e requalificação profissional do trabalhador. Na prática, poderá
aumentar a taxa de dominação e fragmentar ainda mais a classe operária.