O
CAPITAL ESPECULATIVO PARASITÁRIO: UMA PRECISÃO TEÓRICA SOBRE O CAPITAL
FINANCEIRO, CARACTERÍSTICO DA GLOBALIZAÇÃO
Reinaldo
A. Carcanholo ((carcanholo@uol.com.br)
.
Paulo
Nakatani *
Introdução
A
discussão sobre o significado do processo conhecido amplamente por globalização
é extremamente importante na atualidade. O que existe de novo no capitalismo,
que permitae apresentá-lo como em uma nova fase de
desenvolvimento?[1]
A
maioria dos autores aceitam que uma das características básicas
que definem o capitalismo contemporâneo, entre
outras[2],
consiste na financeirização ou na generalização do movimento especulativo do
capital.[3]
Por
essa razão, expandiu-se o uso da expressão “capital financeiro” nos trabalhos
dedicados à caracterização e interpretação do capitalismo contemporâneo.
Algumas vezes tal expressão é apresentada, ou pelo menos entendida, como se
fosse realmente um verdadeiro conceito ou categoria do pensamento marxista e
como se tivesse um conteúdo preciso.
Seguramente,
muitos dos que usam a referida expressão devem sentir-se incomodados com a
imprecisão do seu significado. Outros podem aceitar que, inexistindo a precisão, basta defini-la.
Entretanto consideramos que na teoria marxista não podemos aceitar definições
acabadas. O método marxista trata os fenômenos sociais como processos em
transformação, movidos por uma dinâmica decorrente de suas contradições
internas que não podem ser captadas por definições. Estas só podem capturar o
estático. Mais do que isso, as realidades resumem-se aos próprios movimentos e
eles são passíveis de descrição e de compreensão, mas nunca de definição. Os
movimentos implicam sempre metamorfoses. A realidade é o próprio movimento,
aquela inexiste fora deste.
Este
trabalho representa um esforço destinado àqueles que, insatisfeitos com a
imprecisão da expressão “capital financeiro”, não se contentam com definições
positivistas, por mais complexas que sejam, por mais exaustivas que pretendam
ser.
Partiremos
do conceito de capital de Marx e,
passando pelos de capital industrial,
formas funcionais, autonomização das formas funcionais e capital fictício, chegaremos ao que entendemos por capital especulativo e por capital especulativo parasitário. Obviamente que não se trata
de defini-los, mas de descrevê-los. Melhor ainda, frente aos novos elementos na
lógica do capital, procuramos identificar fenômenos e processos,
caracterizá-los e, finalmente, escolher nomes para eles. Neste caso, os nome
escolhidos foram: capital especulativo
e capital especulativo parasitário.
O
capital especulativo parasitário resultaria da conversão da
forma autonomizada do capital a juros
ou capital portador de juros quando
este ultrapassa os limites do que é necessário para o funcionamento normal do capital industrial. Sua lógica
especulativa própria chega a contaminar até mesmo as funções produtivas,
autonomizadas ou não, e, assim, o que constituía capital industrial converte-se em capital especulativo. Este, como síntese dialética do movimento de
suas formas funcionais, tem o capital
especulativo parasitário como
pólo dominante.
Reforçamos
que não se trata de definições, mas de identificação de fenômenos e processos
batizados com determinados nomes. Esta identificação fica facilitada pelos
conceitos previamente construídos. Eles o foram seguindo a mesma lógica, jamais
como definições estruturadas arbitrariamente pelo pensamento.
No entanto é
possível que, neste trabalho, algumas categorias possam aparecer como se fossem
definições devido à facilidade formal do discurso de tipo positivista, aliás, amplamente
utilizado nas obras de Marx, especialmente n’O Capital.
Nossa
tese é que a globalização, com todas as suas características, distingue-se de
outras épocas da história do capitalismo pelo domínio do capital especulativo parasitário
(forma particular mais concreta do capital
portador de juros) sobre o capital
produtivo. Nessa fase, o capital
industrial converte-se em capital
especulativo e sua lógica fica totalmente subordinada à especulação e dominada
pelo parasitismo. Dessa maneira, é a lógica especulativa do capital sobre sua
circulação e reprodução no espaço internacional que define esta nova etapa. Sem
dúvida, esse fenômeno está associado à quebra do padrão monetário internacional
a partir dos anos 70.
Isto
significa que até mesmo o capital
portador de juros, necessário para a reprodução do capital produtivo, passa a atuar segundo a lógica especulativa.
Além disso, as grandes empresas produtivas cada vez mais conjugam sua atuação
normal com atividades financeiras, subordinando suas estratégias às práticas
especulativas: o capital produtivo contamina-se
com a especulação [4].
Assim,
na nossa concepção, a fase atual de globalização no capitalismo constitui a
fase de predomínio internacional da lógica especulativa sobre a produtiva e da
conseqüente exacerbação da concorrência entre os grandes capitais produtivos
que operam no âmbito internacional. Essa exacerbação tem como ponto de partida
justamente a descomunal pressão que os ganhos especulativos[5]
exercem sobre o excedente-valor produzido. A fase capitalista da globalização
caracteriza-se pelo aumento da exploração dos assalariados em todo
o espaço capitalista e também, paradoxalmente, pela ampliação
desmedida do consumo de produtos dispensáveis e. pelo aumento da exploração dos assalariados em
todo o espaço capitalista.
Finalmente,
é indispensável destacar que, as análises que privilegiam este
nosso ponto de vista, deveriam concentrar-se na oposição
ou antinomia entre a capacidade de criação de riqueza por parte do capital[6]
e sua exigência de apropriação definida, hoje, pela lógica especulativa.
Do Conceito Marxista
de Capital ao de Capital Especulativo Parasitário
Sobre o Capital
O conceito de
capital surge, inicialmente, em Marx, em um grau muito elevado de
abstração. O Seu ponto de partida de Marx, tendo desenvolvido o conceito de
valor, é a constatação empírica de que o dinheiro circula de maneira diferente
daquela que seria esperada na circulação simples da mercadoria. O dinheiro que
circula em busca de incremento é declarado capital. Também o é a mercadoria que
serve de intermediária entre o ponto de partida e o de chegada desse processo
de circulação.
Em seguida
sugere-se que aquilo é a aparência do conceito e que o verdadeiro agente do
processo da circulação é o valor. Por isso, capital é valor, só que em uma fase
mais desenvolvida das relações sociais mercantis, na qual este adquire novas
características, que não possuía anteriormente. Então, o dinheiro e a
mercadoria aparecem como formas de sua existência, meras expressões ou formas
de manifestação do capital. Assim, o capital é valor que, através de
determinado processo de circulação, se autovaloriza através da criação, da
produção da mais-valia[7]
(M53). Capital é o nome simplificado
do valor-capital.
As
características novas adquiridas pelo valor, quando ele se converte em
valor-capital, são a capacidade de autovalorizar-se e, a menos óbvia, a substantivação. O valor adquire a
capacidade de autovalorizar-se justamente ao converter-se em capital. Isto
significa que o capital é um valor com mais determinações, mais desenvolvido,
que corresponde a uma sociedade na qual as relações mercantis encontram-se mais
difundidas, mais desenvolvidas. O capital é um valor em sua maturidade, que
superou sua juventude: ele é capaz de gerar novo valor. Na época do capitalismo
desenvolvido, a existência do valor ocorre através do capital; ele existe,
fundamentalmente, como capital. Da mesma maneira, a mercadoria e o dinheiro
existem, no fundamental, como formas de existência do capital. O capital domina
tudo, até a própria lógica da sociedade.
A Substantivação do Valor no
Capital
Outra
característica nova do valor convertido em capital é o que denominamos substantivação. Trata-se, na nossa
opinião, de um aspecto fundamental e pouco conhecido para se entender
adequadamente a teoria do valor de Marx e diferenciá-la de outras teorias,
especialmente da de Ricardo.
O
valor, como foi descoberto e exposto por Marx no primeiro capítulo d’O Capital,
consiste em uma característica especial, uma propriedade das mercadorias. Assim
como elas têm cor, peso, têm também valor. Da mesma maneira o valor, como a
cor, só tem existência na mercadoria; é, portanto, um adjetivo dela. Algo diferente ocorre com o valor-capital.
Observemos o ciclo do capital:
D - M
... (p) ... M’ - D’.
O capital é um
valor que circula e, através de determinadas metamorfoses, chega a autovalorizar-se. O agente, o sujeito dessa
circulação, é o valor e, com isso, ele deixa de ser mera característica das
mercadorias e ganha status de coisa
com vida própria.
Podemos
constatar, assim, que a transformação do valor em capital implica um enorme
salto no seu desenvolvimento. Inicia-se, na sociedade, a era do domínio do
valor, da lógica da valorização. O valor converte-se, no capital, em realidade
social substantiva, em coisa social
com vida e movimento próprios. De mera característica social das mercadorias,
aspecto delas, transforma-se em realidade independente. De simples conteúdo
passivo e subordinado às suas “formas” substantivas (a mercadoria e o
dinheiro), o valor converte-se em agente social autônomo e com vida própria,
perceptível através do seu movimento (a circulação) e em relação ao qual, a
mercadoria e o dinheiro chegam a ser simples manifestações subordinadas.
"Se na circulação simples, o
valor das mercadorias adquire, no máximo, em confronto com o valor-de-uso, a
forma independente de dinheiro, na circulação do capital, esse valor se revela
subitamente uma substância que tem um desenvolvimento, um movimento próprio, e
da qual a mercadoria e o dinheiro são meras formas”.." Marx
(1980), Livro I, cap. IV, p. 174).
Dessa maneira,
de simples adjetivo das mercadorias, o valor converte-se em substantivo no
ciclo do capital. Quando o valor não é mais simples valor, mas valor-capital,
enfrentamo-nos à substantivação do
valor. Marx dedica somente uma única passagem ao assunto no capítulo IV do
livro I d’O Capital e algumas outras no capítulo primeiro do livro II[8].
Acreditamos que o assunto apresenta extrema relevância e deveria ter merecido
um tratamento mais extenso e sistemático. Provavelmente por esta razão este
ponto é quase totalmente ignorado por seus leitores e intérpretes. Este assunto
é exposto por Marx nos seguintes termos[9]:
"Mas, além disso, (o valor) é
movimento, processo com diferentes estádios, o qual abrange três formas
diferentes do processo cíclico. Só pode ser apreendido como movimento e não
como algo estático. [Aqueles que acham que atribuir ao valor existência
independente é mera abstração] [Aqueles que acham que a substantivação do valor
é mera abstração] esquecem que o movimento do capital industrial é essa
abstração como realidade operante (in actu)”.."
(M107)
"...mas, é claro que, apesar
deles (dos transtornos, das revoluções do valor, ao longo do ciclo), a produção
capitalista só pode existir e continuar existindo [enquanto acresce o
valor-capital como ente autônomo que efetua seu processo cíclico] [enquanto o
valor-capital se valoriza, isto é, enquanto descreve seu processo cíclico como
valor substantivado], enquanto os transtornos de valor são de qualquer modo
dominados e eliminados”.." (M108)
"Quanto mais agudas e mais
freqüentes as revoluções do valor, tanto mais o movimento automático do valor
como ente autônomo [movimento automático do valor substantivado], operando com
a força de um fenômeno elementar da natureza, se impõe em confronto com as
previsões e os cálculos do capitalista individual, tanto mais o curso da
produção normal se subordina à especulação anormal, tanto maior o perigo para a
existência dos capitais individuais. Essas revoluções periódicas confirmam
portanto o que se quer que elas desmintam: [a existência independente que o
valor como capital adquire] [a substantivação que o valor experimenta enquanto
capital] e, com seu movimento, mantém e exacerba”.." (M108)
"'Valor', diz Bailey,
considerando ilusão a [existência independente do valor] [a substantivação do
valor] que caracteriza o modo capitalista de produção 'é uma relação entre
mercadorias simultaneamente existentes, as únicas que podem ser objeto de
troca.'" ... "Seu erro (o de Bailey) decorre da falsa concepção
segundo a qual valor-de-troca = valor, sendo a forma do valor o próprio valor”.." (M108/109)
Assim, o conceito
de capital expressa o valor em determinado estágio do seu desenvolvimento e
consiste em uma relação social expressa
que se substantiva. Além disso é
processo, nunca objeto, ser estático, desprovido de movimento, pois se trata de
uma seqüência articulada e estruturada de metamorfoses em que o agente valor
assume ora a forma de dinheiro, ora a forma de mercadorias.
Entendido dessa
maneira, o conceito de valor-capital encontra-se em um nível de abstração muito
elevado: a idéia de que um empresário ou uma empresa, por si e sem a
colaboração de nenhuma outra (exceto as fornecedoras dos insumos e das clientes
finais de seu produto) realiza todas as operações necessárias para completar
todo o ciclo do capital, não existe na realidade concreta. Para dar conta desse
problema e para concretizar a análise, surge o conceito de capital industrial.
O Capital Industrial Ee Ssuas Formas Funcionais
O conceito de capital industrial aparece como se fosse
igual ao de capital, só que com novo nome. Porém, trata-se de um conceito em
outro nível de abstração, da mesma maneira como acontece com os conceitos de
valor e valor social (este surge com a análise da mais-valia extraordinária).
Para descobrir e expor o conceito de
capital industrial, Marx analisa a
circulação completa do capital e as funções que suas diversas formas
existenciais devem cumprir. Trata-se de funções cumpridas pelas formas nas
quais o valor se metamorfoseia ao longo do seu ciclo completo: D - M ... (p) ... M’ - D’.
As formas
observadas passam a ser denominadas da seguinte maneira: capital-dinheiro[10](D),
capital-produtivo (p) e capital-mercadoria (M’). O capital-produtivo (p) é
constituído por meios de produção e força de trabalho. O valor-capital assume a
forma de capital-dinheiro, para cumprir as funções
do dinheiro, isto é, meio geral de compra e meio de pagamento (M31). Depois da
compra, converte-se nos elementos materiais do capital-produtivo. A expressão D
- M indica a metamorfose (ou conversão) do capital da sua forma
capital-dinheiro para capital-produtivo.
Sob a forma de
meios de produção e força de trabalho, o capital deve cumprir a funções produtivas, isto é, a criação do
valor e da mais-valia. Posteriormente, o valor-capital assume a forma de
capital-mercadoria (já impregnada de mais-valia) para cumprir as funções de mercadoria: os produtos que o
constituem devem ser vendidos. A simples mercadoria converte-se em
capital-mercadoria no momento em que assume a forma funcional através da qual
tem existência o valor-capital. São formas destinadas a cumprir funções
específicas no ciclo do capital. Trata-se, então, de formas funcionais.
O capital que
ao longo do seu ciclo adota e abandona suas sucessivas formas funcionais (capital-dinheiro, capital-produtivo e
capital-mercadoria) chama-se capital
industrial (M53). Esse conceito se opõe a capital comercial e capital a
juros e não a capital agrário. Num primeiro momento o conceito é tratado
como se todas as funções fossem cumpridas pelo mesmo empresário. Assim o
conceito de capital se confunde com o de capital
industrial. Em seguida, Marx explicita que as diversas formas funcionais se
autonomizam devido a divisão social
das tarefas entre os capitalistas. As funções do capital-dinheiro, do
capital-produtivo e capital-mercadoria podem ficar entregues, cada uma delas, a
empresas especializadas. Quando uma forma funcional do capital industrial se autonomiza, ela se converte de forma
funcional em capital autônomo. Assim o capital-mercadoria converte-se em capital comercial; o capital-dinheiro em
capital a juros; e o
capital-produtivo em capital produtivo. (M56/57)
“Não são dois capitais diferentes, o
produtor de juro e o de lucro, mas o mesmo
capital que funciona no processo como capital, gera um lucro, se reparte entre
dois capitalistas diferentes: o que está fora do processo e como proprietário
representa o capital em si (mas é
condição essencial deste ser representado por um proprietário
privado; sem ele, não se torna capital em oposição ao trabalho
assalariado), e o que representa o capital operante, o capital que está no
processo de produção”. Marx, K. ( 1985). Vol.
III, Aditamentos nº 2, pp. 1512-1513
Assim, o capital industrial, entendido como
síntese global e abstrata da circulação de três formas autônomas de capital (o capital a juros, o capital produtivo e o
capital comercial), é o mesmo
conceito de capital mas em um nível mais concreto de análise. Mesmo assim o
conceito de capital industrial não é
capaz de dar conta de toda a complexidade da realidade concreta. Uma unidade de
capital (sob o controle de um único empresário ou de uma única empresa) não
cumpre exclusivamente a função autonomizada de capital produtivo, ou somente a de capital comercial, ou ainda a de capital a juros. É provável que cumpra diferentes funções e não
necessariamente de um único capital
industrial. Assim, a operação de um capital individual só pode ser
entendido como realizando parcial ou totalmente diversas funções e funcionando
como entrelaçamento da circulação de mais de um capital industrial. Dessa maneira, estaremos muito mais próximos da
complexidade do real[11].
Consideremos, por
enquanto, o capital industrial em um
nível de abstração que represente a síntese simplificada da circulação de três
capitais autônomos em que cada um deles cumpre, exclusivamente, uma das três
funções e que, no conjunto, atendem totalmente as metamorfoses exigidas pela
circulação.
Dos três, o
único capital autonomizado capaz de produzir diretamente a mais-valia é o capital produtivo. Deve compartilhar
esse excedente-valor com as outras duas formas
funcionais autonomizadas: o capital
comercial e o capital a juros. E
o faz, até certo ponto, de bom grado, na medida em que estes cumprem funções
úteis para a circulação do capital
industrial. Sem a existência destes dois, a magnitude de valor constituída
pelo capital produtivo não seria capaz de produzir a mais-valia na mesma
medida. Marx mostra que a divisão de tarefas, ao especializar cada um em
funções específicas, os faz mais “produtivos”, ou melhor, mais eficientes. O
volume total de valor resultante da soma dos três capitais autonomizados não
seria capaz de produzir e se apropriar da mesma magnitude de mais-valia se
funcionassem sem a divisão de tarefas; se cada uma das empresas tivesse que
cumprir todas as funções necessárias ao capital
industrial.
Apesar do capital a juros (também o capital comercial) se apropriar de parte
da mais-valia sem produzi-la, ele não é parasitário uma vez que contribui para
que o capital produtivo o faça.
Permite até que o capital, em seu conjunto, seja mais eficiente. O capital a juros se subordina à lógica do
capital industrial. Durante
determinado estágio de desenvolvimento do capital, o capital produtivo é o dominante, subordinando à sua lógica tanto o capital a juros como o capital comercial. Esse é o estágio da
existência e do predomínio do capital
industrial no qual o pólo dominante é o capital
produtivo.
Do ponto de vista
lógico, o capital a juros é mero
aspecto do capital industrial, é seu
subordinado. Historicamente, no entanto, o capital usurário (também o capital
comercial) é preexistentepré-existente ao capital industrial e
deve ocorrer um processo para a sua subordinação.
“... o capital
produtor de juros aparece como forma histórica antes do capital
industrial e ao lado deste continua a existir em sua forma antiga, e (que) o
capital industrial, só no curso de seu desenvolvimento, o subsume à produção
capitalista, convertendo-o em forma especial de
si mesmo”. Marx,
K. (1985), Vol. III, Aditamentos nº 4. p. 1531).
“As formas - o capital comercial e o
capital gerador de juros - são mais antigas que a oriunda da produção
capitalista, o capital industrial, a forma
fundamental das relações de capital regentes da sociedade burguesa e com
referência à qual as outras formas se revelam derivadas ou secundárias ... E é
por isso que o capital industrial, no processo do seu nascimento, tem primeiro
de subjugar aquelas formas e convertê-las em funções derivadas ou especiais de
si mesmo. Encontra, ao formar-se e ao nascer, aquelas formas mais antigas. ... Onde a produção capitalista se
desenvolveu na amplitude de suas formas e se tornou o modo dominante de
produção, o capital produtor de juros está sob o domínio do capital industrial,
e o capital comercial é apenas uma figura do capital industrial, derivada do
processo de circulação. Ambos têm de ser antes destruídos como formas autônomas
e antes submetidos ao capital industrial. Emprega-se a força (o Estado) contra
o capital produtor de juros, reduzindo-se pela coerção a taxa de juros ... Mas
este é um estilo que pertence aos estádios menos desenvolvidos da produção
capitalista. O verdadeiro meio do capital industrial para subjugar o capital
produtor de juros é a criação ... do sistema de crédito”..”
Marx,
K. (1985), Vol. III, Aditamentos nº 2, pp. 1508pp.1508 - 1509). -
citado também por Harvey (1982), p. 260).
Referindo-se
ainda ao século XVII, Marx afirma:
“Aí o capital produtor de juros ainda
é forma antediluviana do capital, a qual de início tem de se subordinar ao
capital industrial e deste se tornar dependente, posição que tem de ocupar,
teórica e praticamente, na base da produção capitalista. A burguesia não
hesitou em recorrer à ajuda do Estado neste caso, como o tem feito em qualquer
outro em que lhe importasse adequar às suas as relações tradicionais de
produção encontradas”. Marx (1985), Vol. III, Aditamentos nº 1, p. 1507).
O Capital fFictício
A maneira mais
simples para se entender o significado que Marx atribui
ao conceito de capital fictício[12]
é partir da pergunta que ele se fazformula no capítulo XXX do livro III d’O
Capital:
“A acumulação de capital-dinheiro propriamente dito. Até onde é
indicadora de verdadeira acumulação do capital, isto é, de reprodução em escala
ampliada?” Marx (1980),
Livro III, p. 547).
A resposta a
tal pergunta deve ser buscada a partir do conceito de capital a juros, portador ou produtor de juros.
“A forma do capital produtor de juros
faz que toda renda monetária determinada e regular apareça como juro de um
capital, derive ela ou não de um capital”.
... Todavia, essa idéia (a de ser capital) é puramente ilusória,
excetuando o caso em que a fonte ... seja diretamente transferível ou assuma
forma em que se torne transferível. Marx (1980),
Livro III, p. 534).
E,
referindo-se mais especificamente à dívida pública:
“Mas, em todos esses casos, o capital
- considera-se rebento (juro) dele o pagamento feito pelo Estado - permanece
ilusório, fictício. A soma emprestada ao Estado não existe mais. ... Não
obstante, conforme logo veremos, esse capital fictício possui movimento
próprio”. Marx (1980),
Livro III, cap XXIX, p. 535).
O
desenvolvimento, a expansão, a existência generalizada do capital a juros no capitalismo desenvolvido transforma todo tipo de
rendimento regular em uma receita que parece provir de um capital a juros. Por exemplo, se fosse concedido a alguém o direito
de explorar, ad eternum, os serviços de um cartório de notas e ofícios, estaria
sendo criado, como por mágica, capital. Imaginemos que a receita anual esperada
desse cartório fosse constante ao longo dos anos; bastaria dividi-la pela taxa
de juros e teríamos o montante do capital “criado”[13].
No entanto, a
idéia sobre esse “capital criado” é “puramente ilusória”. Mas deixa de ser
ilusória se o direito de apropriação da receita ou rendimento regular for
transferível, isto é, caso ele possa ser representado por um título de
propriedade e possa ser transferido comercialmente. Nessa circunstância, a
idéia de constituir aquilo capital deixa de ser puramente ilusória. Isso
significa que o capital, criado daquela maneira, seja realmente capital?
Lamentavelmente a resposta é negativa: aquele título aparece nas mãos de seu
detentor como seu verdadeiro capital, mas, para a sociedade como um todo, não
passa de um capital ilusório, de um capital
fictício embora com movimento próprio e com certa independência do capital
real. Do ponto de vista individual, é capital real, do ponto de vista da
totalidade, do global, é capital fictício.
Destaque-se que o capital fictício tem existência real e
sua lógica interfere realmente na trajetória e nas circunstâncias da
valorização e da acumulação. O capital
fictício tem movimento próprio[14].
Assim ele é real de certa maneira e, ao mesmo tempo não é.
Uma das formas
típicas do capital fictício está
constituída pelos títulos da dívida pública:
“Esses títulos de dívida (refere-se à
dívida pública), emitidos em troca de capital originalmente emprestado e há
muito tempo, despendido, essas duplicatas em papel do capital destruído, servem
de capital para os respectivos possuidores, na medida em que são mercadorias
vendáveis e por isso podem ser reconvertidos em capital”. Marx (1980),
p. 548).
Mesmo que
inicialmente pudesse se tratar de capital-dinheiro “real”, de verdadeiro capital a juros, ao comprar títulos da
dívida pública, converte-se em capital
fictício, sempre e quando converta-se, no setor público, em gastos
correntes. Esses títulos representam,
pura e simplesmente, um direito de apropriação sobre parte da receita pública
proveniente, em grande parte, dos impostos a serem cobrados.
Além dos títulos
públicos, uma parcela significativa do capital
fictício, no capitalismo desenvolvido, está constituído, por títulos
privados como ações, debêntures e letras de câmbio:
“Os títulos de propriedade sobre
sociedades mercantis, ferrovias, minas etc. são ... direitos sobre capital
real. Entretanto, não permitem que se disponha desse capital, que não pode ser
extraído de onde está. Apenas dão direito à parte da mais-valia a ser obtida.
Mas, constituem também duplicação em papel do capital real ... Tornam-se
representantes nominais de capitais inexistentes. ... A acumulação desses papéis ... expressa ampliação do processo
real de reprodução ... Mas, como duplicatas negociáveis por si mesmas como se
fossem mercadorias, e circulando por isso como capital como valor-capital, são
ilusórios, e o valor pode variar sem depender por nada do movimento do valor do
capital real que representam como títulos jurídicos. Seu valor, isto é, a
cotação em bolsa, tem necessariamente a tendência a subir, ao baixar a taxa de
juro ... conseqüência da tendência a cair da taxa de lucro. Já, por essa razão,
essa riqueza imaginária ... expande-se com o desenvolvimento da produção
capitalista”. Marx, Livro III, pp. 548/549.
Apesar de
constituírem capital fictício, esses
títulos correspondem, até certo ponto, a um capital real. Diferem, em parte, da
forma anterior constituída pelos títulos públicos. Dentro de certos limites,
seu valor tem uma correspondência real[15].
Muitas vezes seu valor pode ser inferior ao do capital real que representam.
Assim, podemos dizer que, pelo menos uma parte do capital fictício, corresponde à magnitude de capital real[16].
O problema está em que seu valor cresce ou diminui por razões independentes, de
maneira que parte dele pode ter existência puramente ilusória do ponto de vista
da totalidade. Além disso, pode aparecer duplicado, triplicado, etc., e aparece
existindo ao lado do capital real como outro capital que se soma a este. Nessa
medida é também, típica e inteiramente, capital
fictício.
É necessário
destacar que, nos dias atuais, são muitas as formas do capital fictício. Assim, Harvey, pensando no capital fictício, diz o seguinte:
“Os direitos de propriedade apresentam muitas
formas. Em princípio, títulos de qualquer tipo podem ser comprados e vendidos. Os governos podem vender direitos de
apropriação sobre parcelas de sua receita com impostos futuros. Os títulos de propriedade sobre mercadorias podem ser vendidos sem que elas mudem realmente de
mãos ou, como acontece nos mercados futuros, antes mesmo da produção real delas. Os títulos de propriedade sobre a terra, sobre os edifícios e sobre os recursos naturais (direito de perfuração de
campos petrolíferos, de exploração de minerais etc.) também podem ser vendidos e comprados. Sob o capitalismo, existem, segundo parece, tantos tipos de mercados de
capital fictício quanto diferentes formas de propriedade”.Los derechos de propiedad vienen en muchas formas.
En principio, los títulos de cualquier tipo se pueden comprar y vender. Los
gobiernos pueden vender derechos a una porción de los impuestos futuros. Los
derechos a la propiedad de mercancías se pueden vender sin que estas cambien de
mano realmente, o, como sucede en los mercados de mercancías futuras, antes de
la producción real de las mercancías. Los derechos a la tierra, los edificios,
los recursos naturales (perforación de petróleo, derechos a la exploración de
minerales, etc.) también se puede vender y comprar. Existen, según parece,
tantas clases de mercados de capital ficticio como hay formas de propiedad bajo
el capitalismo.” Harvey (1982, p.
280 - trad. nossa).
Finalmente, uma constatação
aparentemente óbvia mas sumamente significativa: nem todo capital a juros deve ser considerado capital fictício. Em contrapartida, nem todo capital fictício pode ser considerado capital a juros tal como explicitamos, isto é, como aspecto do capital industrial. Assim, por exemplo,
o capital fictício representado pelos
títulos da dívida pública não podem ser considerados como forma funcional do capital industrial.
O Capital Financeiro
A expressão
“capital financeiro” tem sido amplamente usada para descrever uma das
características mais marcantes do nosso tempo. Existe consenso sobre o fato de
que um dos aspectos mais significativos da globalização está constituído pela
expansão e domínio do “capital financeiro”. Com isso querem referir-se àquele
capital cuja remuneração está constituída basicamente pelos ganhos
especulativos obtidos em operações financeiras dos mais diversos tipos, além da
que deriva dos juros.
Como estamos
acostumados com o uso generalizado de expressões pouco definidas não nos
preocupamos com a imprecisão do referido “conceito”. No entanto, freqüentemente
a expressão capital financeiro é utilizada como se fosse um conceito teórico.
Nós o consideramos um “conceito” teoricamente vazio pois refere-se a um conjunto de formas indefinidas de capital
cujas articulações com as formas funcionais do capital industrial ficam
indeterminadas. Segundo Harvey, a expressão nunca foi usada por Marx[17]:
“O conceito de capital financeiro tem uma história
particular dentro do pensamento marxista. O próprio Marx nunca usou essa
expressão, mas deixou para a posteridade uma série de escritos não muito articulados sobre o
processo de circulação de diferentes tipos de capital-dinheiro. A definição de capital financeiro que derivaria da perspectiva Marx relaciona-se com o tipo particular do processo de circulação de capital que se baseia no sistema de crédito. Os
autores posteriores tenderam a abandonar esse ponto de vista do processo e
passaram a tratar o conceito referindo-se a uma configuração particular de alianças dentro da burguesia, um bloco de poder que exerce imensa influência sobre os processos de acumulação em geral”.El concepto del capital financiero tiene una
historia particular dentro del pensamiento marxista. El propio Marx no usó el
término, pero legó a la posteridad una serie de escritos no muy coherentes
sobre el proceso de circulación de diferentes clases de capital-dinero. La
definición del capital financiero que implica Marx es la del tipo particular de
proceso de circulación de capital que se centra en el sistema de crédito. Los
escritores posteriores se han inclinado a abandonar este punto de vista del
proceso, y a tratar el concepto en términos de una configuración particular de
alianzas faccionales dentro de la burguesía, un bloque de poder que ejerce una
influencia inmensa sobre los processos de acumulación en general.” Harvey (1982, p. 287 - trad. nossa).
Hilferding e por Lenin utilizam a expressão como um
conceito mais concreto e institucional, no sentido de descrever o fato
histórico da unificação do capital produtivo com o capital bancário, sob a
hegemonia deste último[18].
O Capital Especulativo
Parasitário